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Entretanto – naqueles quase quarenta dias de deserto –, sua alma crescera, descobrira uma segunda mente, tinha enfrentado uma mulher de poder. Morrera muitas vezes, e renascera mais forte.

“Tive prazer na caçada”, pensou.

Sim. Era isso que a estava deixando louca. Porque, desde o dia em que convidou Vahalla para o duelo, ficou com a sensação de que havia desperdiçado sua vida.

“Não, não posso aceitar isso. Conheço J., ele é um agricultor, e é uma pessoa iluminada. Conversei com meu anjo antes de Paulo. Sei falar com ele tão bem quanto Vahalla – embora a linguagem dele ainda seja um pouco confusa.”

Mas estava apreensiva. Talvez tivesse errado quando escolheu sua maneira de viver.

“Preciso continuar falando”, pensou. “Preciso convencer a mim mesma de que não errei.”

– Você precisa de mais um milagre – disse –, e irá precisar sempre. Jamais estará satisfeito, e nunca vai entender que o reino dos céus não pode ser tomado de assalto. (“Deus, faz com que o anjo dele apareça, porque isto é muito importante para ele! Faz com que eu esteja errada, Senhor!”)

– Você não me deixou falar – disse ele.

Mas, neste momento, a primeira estrela surgiu no horizonte.

Era hora da canalização.

Sentaram-se e, depois de um pequeno período de relaxamento, começaram a concentrar-se na segunda mente. Chris não conseguia parar de pensar na frase final de Paulo – realmente não permitira que ele respondesse.

Agora era tarde. Precisava deixar que a segunda mente contasse seus problemas aborrecidos, repetisse diversas vezes a mesma coisa, mostrasse as preocupações de sempre. A segunda mente, naquela noite, queria ferir seu coração. Dizia que ela escolhera um caminho errado, e que só havia descoberto seu destino ao experimentar o personagem Vahalla.

A segunda mente dizia que era tarde demais para mudar, que sua vida havia fracassado, que ela passaria o resto da vida andando atrás do seu homem – sem experimentar o gosto das florestas escuras e da busca da presa.

A segunda mente lhe dizia que tinha encontrado o homem errado – que melhor seria casar com um agricultor. A segunda mente lhe dizia que Paulo tinha outras mulheres, e que eram mulheres caçadoras, que ele encontrava em noites de lua, e em secretos rituais mágicos. A segunda mente lhe dizia que devia deixá-lo, para que ele pudesse ser feliz com uma mulher igual a ele. Ela argumentou algumas vezes – disse que não tinha importância saber que existiam outras mulheres, não pretendia largá-lo nunca. Porque o amor não tem lógica, nem razão. Mas a segunda mente voltava à carga – e ela resolveu parar de discutir, escutar em silêncio, até que a conversa foi morrendo, e silenciou.

Então, uma espécie de névoa começou a tomar conta de seu pensamento. A canalização começara. Uma indescritível sensação de paz apossou-se dela, como se as asas de seu anjo cobrissem o deserto inteiro, para que nada de mau lhe acontecesse. Quando canalizava, sentia um imenso amor por si mesma, e pelo Universo.

Manteve os olhos abertos, para não perder a consciência, mas as catedrais começaram a surgir. Apareciam do meio das brumas, imensas igrejas que nunca havia visitado, e que, no entanto, existiam em algum lugar da Terra. Nos primeiros dias eram apenas coisas confusas, cantos indígenas misturados com palavras sem sentido; mas agora, seu anjo lhe mostrava catedrais. Aquilo tinha um sentido, embora ainda não pudesse entender qual.

Mas estavam apenas começando uma conversa. A cada dia que passava, era capaz de entender melhor o seu anjo. Em breve, teriam uma comunicação tão clara como tinha com qualquer pessoa que falava sua língua. Era tudo uma questão de tempo.

O despertador de pulso de Paulo tocou. Vinte minutos se passaram. A canalização terminava.

Ela olhou-o. Sabia o que ia acontecer agora: ele continuaria em silêncio, e dentro em pouco ficaria triste. O anjo não havia aparecido. Então voltariam para o pequeno motel em Ajo, e ele sairia para um passeio, enquanto ela tentava dormir.

Esperou que ele se levantasse, e levantou-se também. Só que, em vez de tristeza, havia um brilho estranho em seus olhos.

– Verei meu anjo – disse ele. – Sei que verei. Fiz a aposta.

“A aposta você fará com seu anjo”, dissera Vahalla. Nunca, em momento algum, havia dito:

“A aposta, você fará com seu anjo, quando ele aparecer.” E, no entanto, ele havia entendido isto. Esperara, durante uma semana, que o anjo surgisse à sua frente. Estava pronto para aceitar qualquer aposta, porque o anjo era a Luz, e a Luz era o que justificava a existência do homem. Confiava na Luz, da mesma maneira que, quatorze anos antes, duvidara das trevas. Ao contrário da traiçoeira experiência das trevas, a Luz estabelecia suas regras antes – para que, quem as aceitasse, soubesse que também se comprometia com amor e misericórdia.

Havia cumprido duas condições, e quase falhado na terceira – a mais simples! Entretanto, a proteção do anjo não havia faltado e, durante a canalização… ah, como era bom ter aprendido a conversar com anjos! Agora sabia que podia vê-lo, porque a terceira condição estava satisfeita.

– Rompi um acordo. Aceitei um perdão. E, hoje, fiz uma aposta. Tenho fé e acredito – disse.

– Acredito que Vahalla sabe o caminho da visão do anjo.

Os olhos de Paulo brilhavam. Não haveria caminhadas noturnas, nem insônia naquela noite. Ele tinha absoluta certeza de que ia ver seu anjo. Meia hora atrás, pedia um milagre – e agora isso não tinha mais importância.

Então, aquela noite, seria a vez de Chris ficar sem dormir, e caminhar pelas ruas desertas de Ajo, implorando a Deus que fizesse um milagre, porque o homem que ela amava precisava ver um anjo. Seu coração estava apertado, mais apertado que nunca. Talvez tivesse preferido um Paulo em dúvida, um Paulo que precisava de um milagre, um Paulo que parecia ter perdido a fé. Se o anjo aparecesse, muito bem; caso contrário, sempre podia culpar Vahalla por ter ensinado errado. Assim, não passaria por uma das mais amargas lições que Deus ensinou ao homem, quando fechou as portas do Paraíso: a decepção. Mas não; tinha agora diante de si um homem que parecia apostar sua vida na certeza de que se podia ver anjos. E sua única garantia era a palavra de uma mulher que andava a cavalo pelo deserto, falando em novos mundos que iam chegar.

Talvez Vahalla nunca tivesse visto anjos. Ou talvez o que servia para ela, não servia para os outros – Paulo dissera isto na praça! Será que ele não escutava suas próprias palavras?

O coração de Chris foi ficando cada vez menor enquanto notava os olhos brilhantes do marido.

Neste momento, o rosto inteiro dele começou a brilhar.

– Luz! – gritou Paulo. – Luz!

Ela virou-se. No horizonte, perto de onde a estrela havia aparecido, três luzes brilhavam no céu.

– Luz! – ele repetiu mais uma vez. – O anjo!

Chris sentiu uma imensa vontade de ajoelhar-se, e agradecer, porque sua prece havia sido ouvida, e Deus enviara seu exército de anjos.

Os olhos de Paulo começaram a encher-se de água. O milagre havia acontecido, fizera a aposta certa.

Ouviu-se um estrondo do lado esquerdo, e outro sobre suas cabeças. Agora eram cinco, seis luzes brilhantes no céu; o deserto estava todo iluminado.

Por um momento perdeu a voz: estava também vendo seu anjo! Os estrondos iam ficando cada vez mais fortes, passando pelo lado direito, lado esquerdo, em cima da cabeça dos dois, trovões enlouquecidos que não vinham de cima, mas de trás, dos lados – e se dirigiam para o lugar onde estavam as luzes.

As Valkírias! As verdadeiras Valkírias, filhas de Votan, cavalgando pelos céus e carregando os guerreiros! Colocou a mão nos ouvidos, com medo.

Percebeu que Paulo estava fazendo o mesmo – e seus olhos já não tinham o mesmo brilho de antes.