Imensas bolas de fogo nasciam no horizonte do deserto, enquanto eles sentiam o chão tremendo a seus pés. Trovões nos Céus e na Terra.
– Vamos embora – disse ela.
– Não há perigo – ele respondeu. – Estão longe, muito longe. Aviões de guerra. Mas os caças supersônicos quebravam a barreira do som perto deles, num ruído aterrador. Os dois se abraçaram, e ficaram, durante muito tempo, assistindo àquele espetáculo macabro, com fascínio e terror. Não conseguiam ver os trovões, mas agora sabiam o que eram – porque havia bolas de fogo no horizonte, e aquelas luzes verdes – agora eram mais de dez – caindo lentamente do céu, iluminando o deserto inteiro, para que ninguém, mas ninguém mesmo, pudesse se esconder.
– É apenas um treinamento de guerra – ele tentava tranqüilizá-la. – Um exercício da Força Aérea. Existem muitos campos desses nesta região.
Mas um dia aquilo seria verdade. E ela imaginou que, nesse dia -–também por acaso, como aqui –, o destino pudesse colocá-la numa cidade iluminada por aquelas luzes, e as bolas de fogo não estariam no horizonte, mas em cima, embaixo, do lado dela.
– Tinha visto no mapa – Paulo repetiu, tentando falar o mais alto possível. – Mas preferi acreditar que eram anjos.
“São instrumentos de anjos”, ela pensou. “Anjos da morte.”
O brilho amarelo das bombas caindo no horizonte misturava-se às fortíssimas luzes verdes que desciam lentamente, de pára-quedas – para que tudo embaixo fosse visível, e para que os aviões não errassem ao despejar suas cargas mortais.
O exercício durou quase meia hora. E, assim como haviam chegado, os aviões desapareceram, e o deserto voltou ao silêncio. As derradeiras luzes verdes chegaram ao chão e se apagaram. Agora podiam ver de novo as estrelas no céu, e o chão não tremia mais.
Paulo respirou fundo. Fechou os olhos e pensou com toda a força: “Ganhei a aposta. Não posso duvidar de que ganhei a aposta.” A segunda mente ia e voltava, dizendo que não, que era tudo imaginação dele, que seu anjo não revelara o rosto. Mas ele cravou a unha do indicador no polegar, e apertou até que a dor se tornasse insuportável; a dor sempre evita que as pessoas fiquem pensando besteiras.
– Verei meu anjo – ele tornou a dizer, enquanto desciam da montanha. O coração dela tornou a apertar. Mas não devia pensar nisso – ele poderia perceber. A única maneira rápida de mudar de assunto era escutar o que a segunda mente estava dizendo, e perguntar a Paulo se ela estava com a razão.
– Quero fazer uma pergunta – disse.
– Não me pergunte sobre o milagre. Ele acontecerá, ou não acontecerá. Não vamos desperdiçar energia em palavras.
– Não, não é sobre isso.
Hesitou muito antes de falar. Paulo era seu marido. Ele a conhecia melhor do que ninguém. Tinha medo de sua resposta, porque suas palavras – como as de qualquer marido – possuíam um peso diferente das palavras dos outros.
Mas resolveu perguntar de qualquer jeito; não agüentaria ficar com aquilo na sua cabeça.
– Você acha que eu errei na minha escolha? – disse. – Que desperdicei minha vida semeando, alegre ao ver o campo crescendo ao meu redor, em vez de experimentar a grande emoção da caçada?
Ele caminhava olhando o céu. Ainda pensava na aposta, e nos aviões.
– Muitas vezes – disse finalmente –, olho para as pessoas como J., que estão em paz, e através desta paz encontram a comunhão com Deus. Olho para você, que conseguiu conversar com seu anjo antes de mim – embora eu tenha vindo aqui para isso. Olho você dormindo com facilidade, enquanto eu vou para a janela e me pergunto por que não acontece o milagre que estou esperando. E me pergunto: será que escolhi o caminho errado?
Virou-se para ela.
– O que você acha? Escolhi o caminho errado?
Chris segurou as mãos dele.
– Não. Você seria infeliz.
– Você também, se tivesse escolhido meu caminho.
“Que bom saber disso”, pensou.
Antes que o despertador tocasse, ele levantou sem fazer barulho. Olhou para fora: ainda estava escuro.
Chris dormia ao seu lado, um sono agitado. Por uma fração de segundo, pensou em despertá-la também, dizer aonde ia, pedir que rezasse por ele – mas logo desistiu. Podia contar tudo quando voltasse. Além do mais, não estava indo para nenhum lugar perigoso. Acendeu a luz do banheiro, e encheu o cantil na pia. Depois, bebeu o máximo de água que podia – não sabia quanto tempo ficaria lá fora.
Vestiu-se, pegou o mapa, relembrou o seu itinerário. Então, preparou-se para sair. Mas não conseguia encontrar a chave do carro. Procurou nos bolsos, na mochila, na mesade-cabeceira. Pensou em acender o abajur – mas não, seria muito arriscado, a luz que vinha do banheiro já
iluminava o suficiente. Não podia perder mais tempo – cada minuto gasto ali era um minuto a menos na espera do seu anjo. Dentro de quatro horas, o sol do deserto se tornaria insuportável.
“Chris escondeu a chave” pensou. Ela agora era uma outra mulher – conversava com seu anjo, sua intuição aumentara consideravelmente. Talvez tivesse descoberto seus planos – e estava com medo.
“Por que teria medo?” Na noite em que a vira na beira do precipício com Vahalla, os dois fizeram um juramento sagrado; prometeram nunca mais arriscar de novo a vida naquele deserto. Várias vezes o anjo da morte havia passado perto, e não era aconselhável ficar testando a paciência do anjo da guarda. Chris o conhecia o bastante para saber que ele jamais deixaria de cumprir o que prometera. Por isso estava saindo pouco antes de o sol raiar – para evitar os perigos da noite, e os perigos do dia. E no entanto, ela estava com medo, e havia escondido a chave.
Dirigiu-se para a cama, decidido a acordá-la. E parou.
Sim, havia um motivo. Não era preocupação com sua segurança, com riscos que ele podia correr. Era medo, mas um medo diferente – medo de que seu marido fosse derrotado. Ela sabia que Paulo tentaria alguma coisa. Faltavam apenas dois dias para deixarem o deserto.
“Foi bom tomar esta providência, Chris”, pensava, rindo consigo mesmo. “Uma derrota destas demoraria uns dois anos para ser esquecida, e enquanto isso você teria que me agüentar, passar noites em claro comigo, suportar meu mau humor, sofrer com minha frustração. Seria muito pior do que estes dias que passei sem descobrir como fazer a aposta.”
Revirou as coisas dela: a chave estava no cinto onde guardava o passaporte e o dinheiro. Então lembrou-se da promessa sobre a segurança – aquilo tudo podia ter sido um aviso. Aprendera que ninguém saía para o deserto sem deixar, pelo menos, uma indicação do local aonde vai. Mesmo sabendo que logo estaria de volta, mesmo sabendo que o lugar não era, afinal, tão longe – e se algo acontecesse com o carro, podia chegar a pé até a estrada – resolveu não arriscar. Afinal de contas, tinha feito um juramento. Colocou o mapa em cima da pia do banheiro. E usou o spray do sabão de barba para fazer um círculo em torno de um locaclass="underline" Glorieta Canyon.
Aproveitou e escreveu NÃO VOU ERRAR no espelho, usando o mesmo spray. Depois, calçou o tênis e saiu.
Quando ia ligar o carro, descobriu que havia deixado a chave na ignição.
“Ela deve ter mandado fazer uma cópia”, pensou. “O que estava imaginando? Que ia deixála no meio do deserto?”
Foi então que lembrou-se do estranho comportamento de Took, quando esquecera a lanterna no carro. Foi graças à chave que deixou marcado o local aonde ia. Seu anjo estava fazendo com que tomasse todos os cuidados possíveis.
As ruas de Borrego Springs estavam desertas. “Não muito diferentes de durante o dia”, pensou consigo mesmo. Recordou a primeira noite ali, quando haviam deitado no chão do deserto para imaginar seus anjos. Naquela época, tudo que queria era conversar com um deles. Dobrou à esquerda, saiu da cidade, e começou a andar em direção ao Glorieta Canyon. As montanhas estavam do seu lado direito – as montanhas que os dois desceram de carro, depois de descobrir que o deserto começava de repente, sem aviso. “Naquela época”, pensou consigo mesmo, e se deu conta de que não havia passado tanto tempo assim. Apenas 38 dias.