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Mas, também como Chris, sua alma havia morrido muitas vezes naquele deserto. Andou atrás de um segredo que já conhecia, viu o sol se transformar nos olhos da morte, encontrou mulheres que pareciam anjos e demônios ao mesmo tempo. Voltou para uma escuridão que parecia esquecida. Descobriu que, embora falasse tanto de Jesus, jamais aceitara completamente seu perdão. Encontrou também sua mulher – justamente quando acreditava que a tinha perdido para sempre. Porque (e Chris jamais podia saber disso) havia se apaixonado por Vahalla. E foi então que entendeu a diferença entre paixão e amor. Assim como conversar com anjos, era uma coisa muito simples.

Vahalla era parte da fantasia de seu mundo, a mulher guerreira, caçadora, que conversava com anjos, e estava sempre disposta a enfrentar todos os riscos para superar seus próprios limites. Para ela, Paulo era o homem que possuía o anel da Tradição da Lua, o mago que sabia mistérios ocultos, o aventureiro capaz de largar tudo e ir em busca de anjos. Um sempre teria o outro – enquanto fosse exatamente o que imaginava.

Isso era a paixão: criar a imagem de alguém, e não avisar.

Um dia, porém, quando a convivência revelasse a verdadeira identidade de ambos, descobririam que atrás do Mago e da Valkíria viviam um homem e uma mulher. Com poderes, talvez, com alguns conhecimentos preciosos, mas – não podiam fugir desta realidade – um homem e uma mulher. Com a agonia, o êxtase, a força e a fraqueza de todos os outros seres humanos. E, quando um deles se mostrasse como realmente é, o outro iria afastar-se – porque isto significava destruir o mundo que havia criado.

Descobrira o amor na beira de um despenhadeiro, com duas mulheres se entreolhando e a imensa lua brilhando atrás. O amor era – dividir o mundo com o outro. Ele conhecia bem uma daquelas mulheres, com ela dividia seu Universo. Viam as mesmas montanhas, as mesmas árvores, embora cada qual as olhasse de maneira diferente. Ela conhecia suas fraquezas, seus momentos de ódio, de desespero, e mesmo assim estava ao seu lado.

Dividiam o mesmo Universo. Embora, muitas vezes, tivesse a sensação de que tal Universo já não tinha mais segredos, ele descobrira – aquela noite no Vale da Morte – que tal sensação era uma mentira.

Parou o carro. Diante dele, um desfiladeiro entrava montanha adentro. Havia escolhido aquele lugar apenas por causa do nome – afinal de contas, os anjos estão presentes em todos os momentos, e em todos os lugares do mundo. Saltou, bebeu um pouco mais da água que trazia sempre em um grande vasilhame na mala do automóvel, e colocou o cantil na cintura.

Ainda pensava em Vahalla e Chris, quando começou a andar para o desfiladeiro. “Acho que me apaixonarei muitas outras vezes”, falou consigo mesmo. Não se sentia culpado por isso. A paixão era algo bom, divertido, e que podia enriquecer muito a vida.

Mas era diferente do amor. E o amor vale qualquer preço, não merecia ser trocado por nada.

Parou na entrada do desfiladeiro, e olhou o vale à frente. O horizonte começou a ficar vermelho. Era a primeira vez que estava vendo um amanhecer no deserto; mesmo quando dormiam ao ar livre, sempre acordava com o sol já alto.

“Que grande espetáculo perdi”, pensava. O topo das montanhas, ao longe, começou a brilhar, e a luz cor-de-rosa ia cobrindo o vale, as pedras, as pequenas plantas que insistiam em viver quase sem água. Ficou algum tempo contemplando a cena.

Lembrou-se do livro que acabara de publicar no Brasil, no qual – em determinado momento

– o pastor Santiago vai para uma montanha olhar o deserto. Exceto pelo fato de não estar em cima de uma montanha, surpreendia-se da semelhança com o que havia escrito oito meses antes. Como também, só agora, estava se dando conta do nome da cidade onde haviam desembarcado nos Estados Unidos. Los Angeles. Que, em espanhol, quer dizer: Os Anjos.

Mas não era hora de pensar nos sinais do caminho.

– Este é teu rosto, meu anjo da guarda – disse, em voz alta. – Eu te vejo. Estiveste sempre na minha frente, e quase nunca te reconheci. Escuto tua voz, cada dia a escuto mais claramente. Sei que existes, porque falam de ti em todos os recantos da Terra.

“Talvez um homem, ou uma sociedade inteira, pudesse estar errado. Mas todas as sociedades, e todas as civilizações, em todos os lugares do planeta, sempre falaram de anjos. Hoje em dia, as crianças, os velhos, e os profetas escutam. Mesmo assim, continuarão falando em anjos através dos séculos porque sempre existirão os profetas, as crianças e os velhos.”

Uma borboleta azul começou a brincar na sua frente. Era seu anjo respondendo.

– Rompi um acordo. Aceitei um perdão.

A borboleta corria de um lado para o outro. Haviam visto diversas borboletas brancas no deserto – aquela, porém, era azul. Seu anjo estava contente.

– E fiz uma aposta. Naquela noite, no alto da montanha, apostei toda a minha fé em Deus, na vida, no meu trabalho, em J., apostei tudo o que tinha. Apostei que, quando eu abrisse os olhos, você se mostraria para mim. Coloquei minha vida inteira em um prato da balança. Pedi que você colocasse seu rosto no outro prato.

“E, quando abri os olhos, tinha diante de mim o deserto. Por alguns instantes, achei que havia perdido. Mas então – ah, como me lembro com carinho! –, então você falou.”

Uma pequena risca de luz apareceu no horizonte. O sol estava nascendo.

– Lembra-se do que disse? Você disse: “Olha em volta, eis a minha face. Sou o lugar onde você estiver. Meu manto te cobrirá com os raios de sol, de dia, e com o brilho das estrelas, de noite.” Eu ouvi claramente tua voz!

“E você ainda disse: ‘Precises sempre de mim!’”

O seu coração estava alegre. Ia esperar o sol nascer, olhar bastante a face do seu anjo naquela manhã. Depois ia contar para Chris sobre a aposta. E dizer que ver o anjo era ainda mais fácil que conversar com ele! Bastava acreditar que anjos existem, bastava precisar de anjos. E eles se mostravam, brilhantes como o raiar da manhã. E ajudavam, cumpriam a tarefa de proteger e guiar, para que cada geração levasse sua presença para a geração seguinte – de modo que jamais fossem esquecidos.

“Escreve algo”, escutou uma voz dizer dentro de sua cabeça.

Engraçado. Não estava procurando canalizar – apenas contemplava a face de seu anjo. No entanto, alguma coisa dentro dele exigia que escrevesse algo. Tentou concentrar-se no horizonte e no deserto, mas não conseguiu mais.

Foi até o carro, pegou um papel e uma caneta. Tivera algumas experiências de psicografia, mas sem ir muito longe – J. dissera que aquilo não era para ele, e que devia ir em busca de seu verdadeiro dom.

Sentou-se no chão do deserto, com a caneta entre os dedos, e procurou relaxar. Daqui a pouco, a caneta começaria a mover-se sozinha, faria alguns riscos, e as palavras começariam a surgir. Para isso, precisava perder um pouco a consciência, deixar que algo – um espírito ou um anjo – o possuísse. Entregou-se completamente, aceitou ser um instrumento. Mas nada aconteceu. “Escreve algo”, escutou de novo a voz em sua cabeça.

Ficou assustado. Não ia ser incorporado por um espírito. Estava canalizando sem querer –

como se seu anjo estivesse ali, falando com ele. Não era psicografia. Pegou a caneta de maneira diferente – agora com firmeza.

As palavras começaram a surgir, nítidas. E ele ia copiando, sem tempo de pensar no que escrevia:

Por amor de Sião, não me calarei,

e por amor de Jerusalém não descansarei,

até que desponte para ela a justiça, qual astro,

e a sua salvação qual facho ardente.

Aquilo nunca havia acontecido antes. Estava escutando uma voz, dentro dele, ditando as palavras: