“Num carro, exatamente como agora”, pensou Chris.
E haviam encontrado com J. em Amsterdam, enquanto tomavam um café no Brower Hotel e olhavam o canal Singel. Paulo ficou branco quando o viu, ansioso, e finalmente tomou coragem e foi até a mesa daquele senhor alto, de cabelos brancos e terno. Naquela noite, quando ficaram sozinhos de novo, ele bebeu uma garrafa inteira de vinho – era fraco na bebida, ficou logo bêbado – e só então falou que, durante sete anos, havia se dedicado a aprender magia (embora ela já soubesse isto, os amigos haviam contado). Entretanto, por alguma razão – que ele não explicou, embora ela perguntasse várias vezes – havia abandonado tudo.
“Mas tive a visão deste homem, dois meses atrás, no campo de concentração de Dachau”, disse ele, referindo-se a J.
Ela lembrava-se daquele dia. Paulo chorara muito, dizendo que estava escutando um chamado, mas não sabia como atender.
“Devo voltar à magia?”, perguntou ele.
“Deve”, ela respondera, sem ter certeza do que dizia.
Desde o encontro com J., tudo havia mudado. Eram rituais, exercícios, práticas. Eram longas viagens com J., sempre sem data certa para voltar. Eram encontros demorados com homens estranhos e mulheres bonitas, todos com uma aura de sensualidade enorme vibrando em torno. Eram desafios e provas, longas noites sem dormir, e longos finais de semana sem sair de casa. Mas Paulo estava muito mais contente –
não vivia mais pedindo demissão. Criaram juntos uma pequena editora, e ele conseguiu realizar um sonho antigo – escrever livros.
Um posto apareceu, afinal. Uma menina jovem, de traços índios, veio atendê-los. Os dois saltaram para caminhar um pouco enquanto a menina enchia o tanque do carro. Paulo pegou o mapa e conferiu o roteiro. Estavam no caminho certo.
“Agora, ele relaxou. Vai conversar comigo”, pensou ela.
– J. mandou você encontrar com o anjo aqui? – perguntou com todo cuidado.
– Não – disse ele.
“Que bom, me respondeu”, pensou ela enquanto olhava a vegetação brilhante. O sol começava a descer. Se não tivesse olhado várias vezes o mapa, também duvidaria que estivessem no caminho. Devia faltar menos de dez quilômetros para chegarem, e aquele cenário parecia dizer que ainda estavam longe, muito longe.
– J. não disse para vir para cá – continuou Paulo. – Qualquer lugar servia. Mas aqui eu tenho um contato, entende?
Claro que ela entendia. Paulo sempre tinha contatos. Ele se referia a estas pessoas como membros da Tradição; mas ela, quando escrevia seu diário, chamava de “Conspiração”. Havia muito mais bruxos e feiticeiros do que as pessoas sonhavam.
– Alguém que conversa com anjos?
– Não tenho certeza. J. certa vez se referiu – muito de leve – a um mestre da Tradição que vive aqui, e que sabia como conversar com anjos. Mas pode ser apenas um boato. Talvez estivesse falando sério. Mas Chris sabia que ele podia ter sorteado um lugar, um dos muitos lugares onde ele tinha “contatos”. Um lugar onde se ficasse distante da vida diária, e pudesse se concentrar mais no Extraordinário.
– E como você vai conversar com seu anjo?
– Não sei.
“Que maneira estranha de viver”, pensou. Acompanhou com os olhos o marido, enquanto ele se dirigia até a menina índia para pagar a conta. Sabia apenas que precisava conversar com anjos, e isto era tudo! Largar o que estava fazendo, pegar um avião, viajar doze horas até Los Angeles, dirigir seis horas até aquele posto, armar-se de suficiente paciência para ficar quarenta dias por ali, tudo isto para conversar –
ou melhor, tentar conversar – com o anjo da guarda!
Ele riu para ela, e ela sorriu de volta. Afinal de contas, não era tão mau assim. Tinham seus aborrecimentos diários, tinham que pagar contas, descontar cheques, visitar gente por pura cortesia, engolir coisas difíceis.
Mas ainda acreditavam em anjos.
– Vamos conseguir – disse ela.
– Obrigado pelo “vamos” – ele respondeu. – Mas o mago aqui sou eu.
A menina do posto disse que estavam certos. Dirigiram mais dez minutos, desta vez com o rádio desligado. Havia uma pequena elevação, mas só quando chegaram no topo – e viram a paisagem lá
embaixo – foi que perceberam como estavam alto. Passaram todas aquelas seis horas subindo devagar, sem sentir.
Mas tinham chegado.
Ele colocou o carro no acostamento e desligou o motor. Ela ainda olhou para trás, para ver se era verdade mesmo: sim, ela podia ver árvores verdes, plantas, vegetação. E na sua frente, por todo o horizonte, estendia-se o Mojave. O enorme deserto que se espalhava por cinco estados americanos, que entrava pelo México, o deserto que ela vira tantas vezes nos filmes de cowboy quando era criança, o deserto que tinha lugares com nomes estranhos como Floresta do Arco-Íris ou Vale da Morte.
“É cor-de-rosa”, pensou Chris. Mas não disse nada. Ele estava olhando fixo para aquela imensidão, quem sabe tentando descobrir onde moravam os anjos.
Quem ficar no meio da praça principal, pode ver onde Borrego Springs começa e onde termina. Entretanto, a cidadezinha possuía três hotéis. No inverno os turistas vinham ali lembrar o sol. Deixaram a bagagem no quarto e foram jantar num restaurante de comida mexicana. O
rapaz que atendeu ficou longo tempo por perto tentando entender que língua estavam falando e, como não conseguiu, terminou por perguntar. Ao saber que vinham do Brasil, disse que jamais conhecera um brasileiro.
– Agora conheço dois – riu.
Provavelmente, no dia seguinte, a cidade inteira saberia. Não havia muita novidade em Borrego Springs.
Acabaram de comer e foram passear, de mãos dadas, pelos arredores da cidade. Ele queria pisar no deserto, sentir o deserto, respirar o ar do Mojave. Terminaram se embrenhando no solo cheio de pedras e rochas; depois de meia hora de caminhada, podiam olhar para o leste e ver as poucas luzes distantes de Borrego Springs.
Ali podiam contemplar melhor o céu. Deitaram-se no chão e ficaram fazendo pedidos para as estrelas cadentes. Não havia lua, e as constelações brilhavam.
– Você já teve a sensação de que, em determinados momentos de sua vida, alguém a observa fazer as coisas? – Paulo perguntou.
– Como é que você sabe disso?
– Porque sei. São momentos em que, sem ter consciência, notamos a presença dos anjos. Chris lembrou-se da adolescência. Naquela época, esta sensação era muito mais forte.
– Nesse momento – continuou ele –, começamos a criar uma espécie de filme, onde somos personagens principais e agimos na certeza de que alguém nos vigia.
“Mas aí, à medida que crescemos, começamos a achar isso ridículo. Parece que é sonho de criança que quer ser ator ou atriz de cinema. Esquecemos que, naqueles momentos em que representávamos para uma platéia invisível, a sensação de sermos vistos era muito forte.”
Ficou em silêncio um momento.
– Quando olho o céu, muitas vezes esta sensação volta, acompanhada da mesma pergunta: quem está nos vigiando?
– Quem nos vigia? – perguntou ela.
– Anjos. Os mensageiros de Deus.
Ela mantinha os olhos fixos no céu. Queria acreditar naquilo.
– Todas as religiões, e todas as pessoas que já viram o Extraordinário, falam em anjos –
continuou Paulo. – O Universo está povoado de anjos. São eles que nos trazem a esperança, como o que anunciou aos pastores que um messias havia nascido. Trazem a morte, como o anjo exterminador que caminhou pelo Egito e destruiu os que não tinham um sinal na porta. São eles que podem nos impedir de entrar no Paraíso com uma espada de fogo na mão. Ou podem nos convidar para ele, como um anjo fez com Maria.
“Os anjos abrem os selos dos livros proibidos, tocam as trombetas do Juízo Final. Trazem a luz, como Miguel, ou as trevas, como Lúcifer.”
Chris tomou coragem e fez a pergunta: