E chamar-te-ão com um nome novo,
pronunciado pela boca do Senhor;
e serás brilhante coroa na mão do Senhor,
e real diadema na palma do teu Deus.
Não serás mais chamada “desamparada”
nem a tua terra, “abandonada”;
mas chamar-te-ão de “esta me agrada”
e a tua terra, “desposada”.
Tentou conversar com a voz. Perguntou a quem dizer isto.
“Já foi dito”, respondeu a voz. “Está apenas sendo lembrado.”
Paulo sentiu um nó na garganta. Era um milagre, ele dava graças ao Senhor. O disco dourado do sol foi aos poucos aparecendo no horizonte. Ele largou o bloco e a caneta, levantou-se, e estendeu as mãos em direção à luz. Pediu para que toda aquela energia de esperança – a esperança que um novo dia traz para milhões de pessoas na face da Terra – entrasse por seus dedos e repousasse em seu coração. Pediu para acreditar sempre no novo mundo, nos anjos, nas portas abertas do Paraíso. Pediu proteção ao seu anjo e à Virgem – para ele, para todos que amava, e para seu trabalho. A borboleta veio e, como obedecendo a um sinal secreto do anjo, pousou em sua mão esquerda. Ele ficou absolutamente imóvel, porque estava na presença de mais um milagre; seu anjo havia respondido.
Sentiu o Universo parar naquele momento: o sol, a borboleta, o deserto à sua frente. E, no momento seguinte, o ar à sua volta sacudiu. Não era vento. Era uma sacudidela do ar –
a mesma que se tem quando um carro ultrapassa um ônibus em alta velocidade. Um arrepio do mais absoluto terror correu por sua espinha.
Alguém estava presente.
“Não olhe para trás”, escutou de novo a voz.
O coração estava disparado, e ele começou a ficar tonto. Sabia que era medo, um medo terrível. Continuava imóvel, as mãos estendidas para frente, a borboleta pousada.
“Vou desmaiar de pavor”, pensou.
“Não desmaie”, disse a voz.
Tentava manter o controle, mas suas mãos ficaram frias, e começou a tremer. A borboleta voou para longe, e ele abaixou os braços.
“Ajoelhe-se”, disse a voz.
Ele se ajoelhou. Não conseguia pensar em nada. Não tinha para onde fugir.
“Limpe o chão.”
Ele fez o que a voz dentro de sua cabeça mandava. Limpou uma pequena área na areia diante dele, de modo que ficasse lisa. O coração continuava disparado, e ele sentia-se cada vez mais tonto, e pensava que podia ter um ataque cardíaco.
“Olhe o chão.”
Uma luz imensa, quase tão forte como o sol da manhã, brilhava do seu lado esquerdo. Ele não queria olhar, queria apenas que acabasse rápido tudo aquilo. Numa fração de segundo recordou a infância, quando lhe contavam das aparições de Nossa Senhora para as crianças. Costumava passar noites em claro, pedindo a Deus que jamais mandasse a Virgem aparecer para ele – porque teria medo. Pavor. O mesmo pavor que estava sentindo agora.
“Olhe o chão”, insistiu a voz.
Ele olhou para a areia que havia acabado de limpar. E foi então que o braço dourado, brilhante como o sol, apareceu, e começou a escrever algo.
“Eis o meu nome”, disse a voz.
A tontura do medo continuava. O coração batia cada vez mais rápido.
“Acredite”, escutou a voz dizer. “As portas estão abertas por algum tempo.”
Reuniu todas as forças que ainda tinha.
– Quero falar – disse em voz alta. O calor do sol parecia restaurar as suas forças. Não escutou nada, nenhuma resposta.
Uma hora depois, quando Chris chegou – havia acordado o dono do hotel, e exigido que a levasse de carro até lá –, ele continuava olhando o nome escrito no chão.
Os dois ficaram vendo Paulo preparar o cimento.
– Que desperdício de água, em pleno deserto – riu Took.
Chris pediu que ele não brincasse assim, seu marido ainda estava sob o impacto da visão.
– Descobri de onde é o trecho – disse Took. – O profeta Isaías o escreveu.
– Por que este trecho? – perguntou Chris.
– Não tenho a menor idéia. Mas ficarei atento.
– Fala de um mundo novo – continuou ela.
– Talvez seja por isso – respondeu Took. – Talvez seja por isso.
Paulo chamou-os. A argamassa estava pronta.
Os três rezaram uma Ave-Maria. Depois Paulo subiu na pedra, colocou o cimento, e pôs em cima a imagem de Nossa Senhora, que carregava sempre com ele.
– Pronto. Está feito.
– Talvez os guardas retirem quando passarem por aqui – disse Took. – Vigiam o deserto como se fosse um campo de flores.
– Pode ser – respondeu Paulo. – Mas o lugar fica marcado. Será, para sempre, um dos meus lugares sagrados.
– Não – disse Took. – Lugares sagrados são lugares individuais. Aqui foi ditado um texto. Um texto que já existia, que fala de esperança, e tinha sido esquecido. Paulo não queria pensar nisso agora. Ainda tinha medo.
– Aqui a energia da alma do mundo girou – continuou Took –, e continuará girando sempre. É um lugar de Poder.
Juntaram o plástico onde Paulo tinha misturado o cimento, colocaram na mala do carro, e foram deixar Took no velho trailer.
– Paulo! – disse ele, ao se despedir. – Acho bom você saber um velho ditado da Tradição: Quando Deus quer enlouquecer alguém, satisfaz todos os seus desejos.
– Pode ser – respondeu Paulo. – Mas valeu o risco.
EPÍLOGO
Certa tarde, um ano e meio depois da aparição do anjo, reparei que minha correspondência trazia uma carta de Los Angeles. Era uma leitora brasileira, Rita de Freitas, me cumprimentando por O
ALQUIMISTA.
Num impulso, escrevi de volta pedindo que fosse até o Glorieta Canyon, perto de Borrego Springs, ver se ainda existia uma estátua de Nossa Senhora de Aparecida que eu havia colocado lá. Depois que a carta foi colocada no correio, pensei comigo mesmo: “Que bobagem. Esta mulher nunca me viu, foi apenas uma leitora que quis me dizer algumas palavras agradáveis, e jamais vai fazer o que estou pedindo. Não vai pegar um carro, e dirigir seis horas até o deserto, apenas para ver se ainda existe uma imagem.”
Pouco antes do Natal de 1989 recebi uma carta de Rita, a qual adapto a seguir. Estava escrito:
“Aconteceram algumas ‘coincidências’ ótimas. Eu tive uma semana de folga do meu trabalho, por causa do Dia de Ação de Graças. Eu e meu namorado (Andrea, um músico italiano) estávamos planejando ir a um lugar bem diferente.
“Foi então que chegou sua carta! E o lugar que você me sugeriu era perto de uma reserva indígena. Resolvemos ir.
(…)
“No terceiro dia fomos procurar o Glorieta Canyon, e encontramos. Era justamente o Dia de Ação de Graças. Foi interessante porque nós íamos bem devagar, de carro, e eu não vi nada relativo à
imagem. Chegamos no final do canyon, paramos, e começamos a escalar a montanha, até bem no alto. Tudo que vimos foram algumas trilhas de coiotes.
“A esta altura, concluímos que não havia mais imagem.
(…)
“Quando a gente estava voltando, vimos umas flores nas pedras. Paramos o carro e descemos, e então vimos umas velas pequeninas que haviam sido acesas, uma borboleta de pano dourada, e uma cesta de palha jogada ao lado. Concluímos que ali devia ser o lugar onde a santa estava, mas não estava mais.
“O interessante é que eu tenho quase certeza de que não havia nada disto antes, quando eu passei. Tiramos uma foto – anexa – e continuamos.