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Pararam o carro na margem da pequena estrada de terra batida. Took dissera para olhar sempre o horizonte. Os dois dias haviam passado, se encontrariam com ele aquela noite – e ela estava animada com isso.

Mas ainda era de manhã. E os dias do deserto eram longos.

Olhou, mais uma vez, o horizonte: montanhas que surgiram de repente, alguns milhões de anos atrás, e que cruzavam o deserto numa larga cordilheira. Embora aqueles terremotos já tivessem acontecido há muito tempo, até hoje se podia ver como o chão havia sido rasgado – o solo ainda subia, liso, por boa parte das montanhas, até que, a determinada altura, uma espécie de ferida se abria e lá de dentro surgiam rochas que se projetavam para o céu.

Entre as montanhas e o carro havia o vale pedregoso com a vegetação rasteira, os espinhos, as iúcas, os cactos, a vida que insistia em aparecer num ambiente que não a desejava. E uma imensa mancha branca, do tamanho de cinco estádios de futebol, destacava-se no meio daquilo tudo. Brilhava com o sol da manhã como se fosse um campo de neve.

– Sal. Um lago de sal.

Sim. Aquele deserto, um dia, também devia ter sido um mar. Uma vez por ano, as gaivotas do oceano Pacífico viajavam centenas de quilômetros terra adentro para chegar no deserto e comer uma espécie de camarão que surgia quando as chuvas chegavam. O homem esquece suas origens; a natureza, nunca.

– Deve estar a uns cinco quilômetros – disse Chris.

Paulo consultou o relógio. Ainda era cedo. Olhavam o horizonte, e o horizonte mostrava um lago de sal. Uma hora de caminhada para ir, outra para voltar, sem o risco de sol muito forte. Cada um colocou na cintura seu cantil com água. Paulo colocou cigarros e uma Bíblia na pequena bolsa. Quando chegassem lá, ia sugerir que lessem, ao acaso, algum trecho.

Começaram a andar. Chris estava conseguindo manter, sempre que possível, os olhos fixos no horizonte. Embora aquilo fosse tão simples, alguma coisa estranha estava acontecendo; sentia-se maior, mais livre, como se sua energia interior tivesse aumentado. Pela primeira vez em muitos anos, arrependeu-se por não conviver mais intensamente com a “Conspiração” de Paulo – imaginara sempre rituais muito mais difíceis, que apenas pessoas preparadas e com muita disciplina conseguiam executar.

Caminharam sem pressa, durante meia hora. O lago parecia ter mudado de lugar; estava sempre à mesma distância.

Caminharam mais uma hora. Deviam já ter coberto quase sete quilômetros, e o lago estava apenas “um pouquinho” mais perto.

Já não era de manhã bem cedo. O sol começava a esquentar muito. Paulo olhou para trás. Podiam ver o carro, um ponto minúsculo, vermelho – mas ainda visível, impossível se perder. E quando olhou o carro se deu conta de algo muito importante.

– Vamos parar aqui – disse.

Desviaram um pouco do caminho, e chegaram perto de uma rocha. Ficaram bem encostados nela: não havia quase sombra. No deserto inteiro, as sombras só apareciam de manhã cedo ou à tarde junto das rochas.

– Erramos o cálculo – disse.

Chris já havia percebido isto. Achara estranho, porque Paulo estava acostumado a calcular distâncias e confiara nos cinco quilômetros que ela previra.

– Sei por que erramos – continuou ele. – Porque nada, no deserto, nos permite fazer comparações. Estamos acostumados a calcular a distância pelo tamanho das coisas. Sabemos o tamanho aproximado de uma árvore. Ou de um poste. Ou de uma casa. Isto nos ajuda a saber se as coisas estão longe ou perto.

Ali não tinham ponto de referência. Eram pedras que nunca tinham visto, montanhas que não sabiam o tamanho, e a vegetação rasteira. Paulo se dera conta disso ao ver o carro. Ele sabia o tamanho de um carro. E sabia que já tinham caminhado mais de sete quilômetros.

– Vamos descansar um pouco e voltar.

“Tanto faz”, pensou ela. Estava fascinada com a idéia de ficar olhando o horizonte. Era uma experiência completamente nova em sua vida.

– Esta história de olhar, Paulo…

Ele esperou que Chris continuasse. Sabia que ela estava com medo de dizer bobagem, ficar inventando significados esotéricos, como muitas pessoas ligadas ao ocultismo faziam.

– Parece… não sei explicar… que minha alma cresceu.

Sim, pensou Paulo. Estava no caminho certo. – Antes, eu olhava para longe, e aquilo estava realmente “longe”, entende? Parecia não fazer parte do meu mundo. Porque eu sempre estava olhando para perto, para as coisas à minha volta.

“Até que, dois dias atrás, me acostumei a olhar a distância. E percebi que, além de mesas, cadeiras, objetos, meu mundo incluía montanhas, nuvens, céu. E minha alma – minha alma parece usar os olhos para tocar nestas coisas!”

“Puxa! Conseguiu explicar muito bem!”, pensou ele.

– Minha alma parece ter crescido – insistiu Chris.

Ele abriu a bolsa, tirou o maço de cigarros, e acendeu um.

– Qualquer um pode ver isso. Mas estamos sempre olhando para perto, para baixo e para dentro. Então, usando o seu próprio termo, nosso poder diminui, e nossa alma encolhe.

“Porque ela não inclui nada além de nós mesmos. Não inclui mares, montanhas, outras pessoas, não inclui nem mesmo paredes dos lugares onde vivemos.”

Paulo gostou da expressão “minha alma cresceu”. Se estivesse conversando com um ocultista ortodoxo, na certa teria ouvido explicações muito mais complicadas, como “minha consciência expandiu”. Mas o termo que sua mulher utilizara era muito mais exato. O cigarro acabou. Já não valia mais a pena insistir na ida até o lago; breve a temperatura estaria de novo em torno dos cinqüenta graus à sombra. O carro estava longe, mas visível, e, em uma hora e meia de caminhada, estariam de novo lá.

Começaram a voltar. Estavam cercados pelo deserto, pelo imenso horizonte, e a sensação de liberdade crescia na alma dos dois.

– Vamos tirar a roupa – disse Paulo.

– Pode ter alguém nos olhando – Chris falou automaticamente.

Paulo riu. Podiam ver tudo ao redor. No dia anterior, quando passearam pela manhã e à

tarde, apenas dois carros passaram – e, mesmo assim, escutaram o ruído muitíssimo antes de os veículos aparecerem. O deserto era sol, vento, e silêncio.

– Apenas nossos anjos estão olhando – respondeu. – E já nos viram nus muitas vezes. Tirou a bermuda, a camiseta, o cantil, e colocou tudo na bolsa que levava. Chris controlou-se para não rir. Fez a mesma coisa, e em pouco tempo caminhavam pelo deserto do Mojave duas pessoas de tênis, bonés e óculos escuros – uma delas carregando uma bolsa pesada. Se alguém estivesse vendo, acharia muito engraçado.

Andaram meia hora. O carro era um ponto no horizonte mas, ao contrário do lago, crescia à

medida que se aproximavam dele. Em pouco tempo chegariam lá.

Só que, de repente, ela estava com uma imensa preguiça.

– Vamos descansar um pouco – pediu.

Paulo parou quase que imediatamente.

– Não agüento carregar isto – reclamou. – Estou cansado.

Como é que ele não agüentava? Tudo aquilo, incluindo os dois cantis de água, não devia pesar mais de três quilos.

– Tem que levar. A água está aí dentro.

Sim, era preciso levar.

– Então vamos embora logo – disse, mal-humorado.

“Tudo estava tão romântico há alguns minutos”, pensou ela. E agora ele estava de mau humor. Não ia ligar para isso – estava com preguiça.

Andaram mais um pouco, e a preguiça foi aumentando. Mas, se dependesse dela, não comentaria nada – não queria irritá-lo mais.

“Que bobo”, tornou a pensar. Ficar de mau humor no meio daquela beleza toda, e logo depois de conversarem assuntos tão interessantes como…

Ela não consegui lembrar, mas não tinha importância. Estava também com preguiça de pensar agora.

Paulo parou e colocou a bolsa no chão.