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Brennan avançou para dentro da câmara, mas o Garça estava tão morto quanto todos os outros no cemitério no momento em que Brennan o alcançou. Brennan baixou os olhos para o corpo e vasculhou ao redor.

O que aconteceu aos outros dois Pássaros da Neve que tinham entrado no sepulcro? Desapareceram no ar. Ou, mais provavelmente, pensou Brennan, através de uma porta escondida em uma das paredes.

Prendeu o arco nas costas e verificou as paredes, correndo as mãos sobre elas, procurando fendas e rachaduras, batendo e tentando ouvir um som oco. Terminou uma parede sem encontrar nada e começava a próxima quando ouviu um sopro abafado de ar nas costas e sentiu a brisa morna, úmida.

Ele se virou. O olhar de surpresa em seu rosto casava com aquele dos dois homens que apareceram do nada no meio do mausoléu. Um, que vestia as cores dos Garças, tinha mochilas presas sobre cada ombro. O outro, um curinga magro com aparência reptiliana, carregava o que parecia uma bola de boliche. Brennan percebeu com algum espanto que eles desapareceram como por encanto. E agora estavam de volta.

O Garça com as mochilas pesadas estava mais perto dele. Brennan pegou o arco, sacudiu como um taco de beisebol e bateu no lado da cabeça do Garça. O homem despencou com um grunhido, caindo ao lado do estrado carregado com heroína.

O curinga recuou, sibilando. Era mais alto que Brennan e magro ao ponto da emaciação. Seu crânio era liso, o nariz uma leve protuberância com narinas alargadas. Incisivos longos demais projetavam-se do maxilar. Encarava Brennan sem piscar. Quando abriu a boca sem lábios e chiou, expôs uma língua bifurcada que se movia freneticamente na direção de Brennan. Ele agarrou a bola de boliche com mais força.

Brennan percebeu que, na verdade, não era uma bola de boliche que o curinga segurava. Era o mesmo tamanho e formato, mas não tinha furos para os dedos e, quando Brennan prestou atenção, o ar ao redor começou a pulsar com pontos piscantes de energia reluzente. Era uma espécie de dispositivo que possibilitou ao curinga e ao seu companheiro materializarem-se dentro do mausoléu. Estavam usando aquilo para trazer heroína de… algum lugar. E o curinga estava reativando-a.

Brennan golpeou na direção do curinga, que se esquivou com facilidade e uma graça fluida. O brilho em torno do artefato ficava cada vez maior. Brennan deixou o arco cair e se aproximou, determinado a tomar o dispositivo do curinga antes que ele pudesse escapar ou voltar as energias daquela coisa sobre ele.

Agarrou o curinga facilmente, mas descobriu o inesperado: seu oponente era forte. O curinga girou e livrou-se das mãos de Brennan de uma forma estranhamente fluida, como se os ossos fossem flexíveis por completo. Eles se engalfinharam por um momento e, então, Brennan se viu encarando o curinga, rostos a poucos centímetros de distância.

A língua longa e grotesca do curinga se projetou, acarinhando o rosto de Brennan de um jeito vagaroso, quase sensual. Brennan, involuntariamente, recuou, expondo pescoço e garganta ao curinga mais alto. O reptiliano arremessou-se para a frente, soltando o estranho dispositivo, e cravou os dentes no lado do pescoço de Brennan próximo ao ombro.

Brennan sentiu os dentes do curinga perfurando sua carne. O curinga mexia a boca, bombeando saliva na ferida. A área em torno da mordida ficou adormecida quase imediatamente, e Brennan entrou em pânico.

Uma onda de força induzida pelo horror permitiu que ele se livrasse do abraço do curinga. Sentiu sua carne rasgar, o sangue correu pelo pescoço e peito. A dormência espalhou-se rapidamente no seu lado direito.

O curinga deixou Brennan se afastar com o dispositivo. Sorriu com crueldade e lambeu o sangue de Brennan do queixo com a língua bifurcada e trêmula.

Ele me envenenou, Brennan pensou, reconhecendo os sintomas de uma neurotoxina de ação rápida. Sabia que estava em perigo. Não era um ás. Não tinha proteção ou defesas especiais, nem armadura ou constituição fortalecida. O curinga estava confiante na eficácia de seu veneno. Afastou para observar Brennan morrer. Brennan sabia que precisava de ajuda, e rápido. Havia apenas uma pessoa que poderia ser capaz de reverter o dano do veneno que já estava devastando seu corpo. Ela estaria agora na clínica do Bairro dos Curingas, a clínica de Tachyon, mas não havia como chegar até ela. Já sentia que estava difícil ficar em pé quando seu coração bombeou o veneno para todas as células do corpo.

Mai poderia ajudá-lo, se ele pudesse alcançá-la.

Brennan tentou gritar o nome dela com uma onda de energia desesperada.

Mai!

Tomou consciência, de modo leve, da pulsação correspondente de energia no aparelho que ele aninhava no peito. Sentiu calor e conforto enquanto o abraçava. O sorriso do curinga transformou-se num franzir de testa. Ele sibilou e pulou para a frente. Brennan não conseguia se mover, mas não importava.

Houve um instante de desorientação agoniante que a mente e o corpo adormecidos sentiram apenas pela metade e, então, ele estava num corredor bem iluminado, pintado com cores suaves. Mai estava em pé, falando com um homem pequeno, magro, com roupas afetadas e cabelos longos, ruivos e cacheados.

Eles se viraram e o encararam com espanto. O próprio Brennan estava além daquele sentimento.

— Veneno — ele resmungou através de lábios endurecidos, pesados, e caiu, soltando o artefato e mergulhando na escuridão profunda.

Era uma escuridão espiralada, estrelada, cheirando a selva musgosa. As agulhadas de luz espalhadas pela sua consciência eram as pontas dos cigarros dos seus homens e as estrelas distantes dispersas pela noite vietnamita. Havia silêncio ao redor dele, quebrado apenas pelos sons de uma respiração suave e os ruídos feitos pelos animais no fundo da selva. Ele olhou de relance para os números luminosos do relógio de pulso. Quatro da manhã.

Gulgowski, seu primeiro-sargento, estava agachado ao seu lado no matagal.

— É tarde — sussurrou Gulgowski.

Brennan deu de ombros.

— Os helicópteros estão sempre atrasados. Vão chegar aqui.

O sargento resmungou de forma evasiva. Brennan sorriu noite adentro. Gulgowski sempre foi pessimista, sempre aquele a ver o lado sombrio das coisas. Porém, isso nunca o impediu de fazer o extraordinário quando as coisas ficavam sérias, nunca o impediu de levantar os outros quando sentiam que não havia esperança.

De longe veio o ruído, vup-vup, de um helicóptero. Brennan virou-se para ele, esgarçando os dentes num sorriso. Gulgowski cuspiu em silêncio no chão da selva.

— Apronte os homens. E guarde aquela pasta. Custou muito consegui-la.

Mendoza, Johnstone, Big Al… três dos dez homens escolhidos para o esquadrão que Brennan havia conduzido num ataque ao quartel-general regional vietcongue estavam mortos. Mas eles alcançaram seu objetivo. Capturaram documentos que provavam o que Brennan suspeitava havia muito tempo. Alguns homens do Exército vietnamita e do Exército norte-americano eram sujos, estavam trabalhando com o inimigo. Teve apenas uma chance de olhar os papéis antes de enfiá-los na pasta, mas confirmavam as suspeitas de que o chefão, o traidor mais vil, era Kien, general do Exército da República do Vietnã. Esses papéis acabariam com ele.

O helicóptero aterrissou numa clareira, e Gulgowski, agarrado às provas que condenariam um bando de homens como traidores, apressava os outros para sua ida para casa. Brennan esperava no matagal, olhando para a trilha da qual ele esperava os vietcongues perseguidores surgirem a qualquer momento. Finalmente convencido de que haviam despistado os perseguidores, voltou para a clareira, quando uma saraivada devastadora de balas estourou inesperadamente na noite.

Ele ouviu os gritos dos homens, de lado, e sentiu um estalo intenso de dor quando um cartucho acertou sua testa. Ele caiu e seu rifle rolou para dentro da escuridão. Os tiros tinham vindo da clareira. Do helicóptero.