Ele se estirou silenciosamente no chão, olhando para a clareira com os olhos nublados de dor. Seus homens jaziam espalhados à luz das estrelas. Todos haviam tombado. Outros homens caminhavam entre eles, buscando. Ele piscou para tirar o sangue dos olhos quando um dos que procuravam, vestido com um uniforme do Exército vietnamita, atirou na cabeça de Gulgowski quando este tentava se erguer.
Um facho de luz realçou o rosto do assassino. Era Kien. Brennan engoliu os xingamentos quando viu um dos seus carrascos arrancar a pasta da mão morta de Gulgowski e entregar para o outro. Kien fuçou nela, balançou a cabeça satisfeito e então, metodicamente, queimou seu conteúdo. Enquanto os papéis queimavam, Kien encarava a selva, procurando por ele, Brennan sabia. Amaldiçoou o choque paralisante que tomou conta do corpo, fazendo-o tremer como se tivesse febre. A última coisa da qual se lembrava era de Kien andando até o helicóptero a passos largos e, então, o choque o levou à inconsciência.
Não havia luzes naquela escuridão, mas de repente mãos de um fogo frio estavam sobre suas bochechas. Queimavam com um toque tranquilizante. Sentiu toda a sua dor e pesar e ódio sendo extraídos aos poucos, pedacinho por pedacinho, levados dele como uma capa gasta. Respirou fundo, contente por permanecer na escuridão curativa, quando um mar de serenidade inefável o inundou. Para ele havia acabado, pensou, os conflitos, os assassinatos. Nenhum assassinato resultou em nada bom. O mal sobreviveu. O mal e Kien. Matou meu pai, mas não posso, não deveria fazer mal a ele. É errado fazer mal a outro ser consciente, errado…
Confuso, Brennan se esforçou para abrir os olhos. Não estava no Vietnã. Estava num hospital. Não, na clínica do Bairro dos Curingas, do Dr. Tachyon. Um rosto estava bem junto ao seu, olhos fechados, boca retorcida com força. Jovem, feminino, lindo de um jeito sereno, embora tocado agora pela dor extrema. Mai. Seu cabelo longo e brilhante envolvia o rosto como as asas de um pássaro. As mãos estavam pressionadas contra suas bochechas. O sangue pingava nas costas das mãos entre os dedos afastados.
Estava usando seu poder carta selvagem para tomar o corpo ferido dele para si, fazer os reparos e mandar o corpo de Brennan fazer o mesmo. Tinham mentes e existências mescladas, e ele, por um instante, tornou-se algo dela, enquanto ela se transformava em algo dele. Numa fusão desordenada de memórias, ele vivenciou a dor que ela sentiu depois da morte do pai provocada pelas mãos dos homens de Kien.
Ela abriu os olhos e sorriu com a serenidade de uma madona.
— Olá, capitão Brennan — disse ela numa voz tão baixa que apenas ele pôde ouvir. — Você está bem de novo.
Ela tirou a palma das mãos do rosto dele e a mistura das mentes cessou com a quebra do contato físico. Ele suspirou, já sentindo falta de seu toque, da serenidade que nunca conseguiria encontrar em si mesmo, nem em mil anos.
O homem que estava com Mai no corredor veio até seu leito. Era o Dr. Tachyon.
— Ficou crítico por um momento — disse Tachyon com um olhar de preocupação no rosto. — Graças a Ideal, por Mai… — Ele deixou a voz desaparecer, olhando Brennan com atenção. — O que aconteceu? Como conseguiu o deslocador de singularidade?
Brennan sentou-se com cuidado. A dormência havia desaparecido do seu corpo, mas ainda se sentia zonzo e desorientado pelo tratamento de Mai.
— É assim que se chama? — perguntou. Tachyon concordou com a cabeça. — O que é?
— Um dispositivo de teletransporte. Um dos artefatos mais raros da galáxia. Pensei que estivesse desaparecido, perdido para sempre.
— É seu, então?
— Tive por um momento. — Tachyon contou a Brennan a história do deslocador de singularidade peripatético, ao menos o que sabia.
— Como os Garças conseguiram isso?
— Oi? — Tachyon olhou de Brennan para Mai. — Garças?
— Uma gangue de Chinatown. Os Garças Imaculadas. Também são conhecidos como Pássaros da Neve, porque controlam boa parte do comércio de drogas pesadas da cidade. Aparentemente, estavam usando o dispositivo deslocador para traficar heroína. Peguei isso deles, mas fui ferido por um dos seus mais… extraordinários agentes.
— Desapareceu quando aterrissamos no Harlem — disse Tachyon. — Talvez um Garça estivesse na multidão que se reuniu ao nosso redor?
— E pegou, sabendo o que era? Muito difícil — Brennan disse bem baixo, seu olhar voltando-se para dentro de si. — Muito difícil mesmo. Além disso, o Harlem não é área dos Garças. Têm agentes lá, mas não muitos.
— Bem, seja lá o que tenha acontecido, estou feliz que aconteceu — disse Tachyon. — Traz a possibilidade de uma alternativa esplêndida ao plano ridículo de Lankester de atacar o Enxame no espaço.
— O Enxame? — Brennan soube dos invasores alienígenas semiconscientes que tentaram abrir uma cabeça de ponte na Terra nos últimos meses, mas a luta contra eles até então havia passado longe dele. — Que utilidade isso teria, essa coisa deslocadora contra o Enxame?
— É uma longa história. — Tachyon suspirou e passou a mão no rosto. — Um homem do Departamento de Estado chamado Lankester está no comando da Força-Tarefa Anti-Enxame. Está me incomodando há semanas para eu usar minha influência com os ases para convencê-los a atacar a Mãe do Enxame – a fonte dos ataques do Enxame – que está numa órbita excêntrica em torno do Sol. É uma ideia estúpida, claro. Seria suicídio, até mesmo para os mais poderosos ases, subir lá para combater aquela coisa. Seria como insetos lançando-se contra um elefante. Porém, o deslocador de singularidade apresenta algumas possibilidades interessantes.
— Pode teleportar um homem até aquela distância? — Brennan perguntou, vendo ele mesmo algumas delas.
— Alguém totalmente não familiarizado com ele, por exemplo, digamos, você — disse Tachyon —, poderia usar o deslocador para se teleportar até distâncias curtas. Precisaríamos de um telepata poderoso para alcançar a Mãe do Enxame. Mas poderia ser feito. Um homem poderia se deslocar para o interior da coisa. Um homem armado com, digamos, um dispositivo nuclear tático.
Brennan concordou com a cabeça.
— Entendo.
— Tinha certeza de que entenderia. Estou explicando isso tudo para você porque, falando de forma pragmática, o deslocador de singularidade é seu.
Brennan olhou de Tachyon para Mai, erguendo-se silenciosamente na lateral da cama, e de volta para Tachyon. Tinha a sensação de que Mai disse algo a Tachyon sobre ele, mas sabia que Mai diria ao doutor apenas o que deveria. E simplesmente porque confiava nele.
— Estou em dívida com você — disse Brennan. — É seu.
Tachyon pegou no braço de Brennan de forma cordial e amigável.
— Obrigado — falou. Olhou para Mai, olhou para Brennan novamente. — Sei que está envolvido numa espécie de vingança com pessoas aqui da cidade. Mai me disse algo sobre isso ao explicar as próprias histórias e habilidades. Sem detalhes. Eles não foram necessários. — Ele fez uma pausa. — Conheço muito bem as dívidas de honra.
Brennan fez que sim com a cabeça. Acreditava em Tachyon e, até um ponto, confiava nele. Tachyon provavelmente não tinha relação com Kien, mas um dos ases que estavam com ele — Tartaruga, Fantasia ou Viajante — tinha. Um deles deve ter roubado o deslocador e dado para Kien. E Brennan, algum dia, de alguma forma, descobriria que ás fez aquilo.
II.
Brennan saiu da clínica um pouco antes da meia-noite e foi para casa, o apartamento de um quarto nas cercanias do Bairro dos Curingas, base de suas operações. Havia uma lógica de aglomeração organizada no apartamento, que consistia em banheiro, área de cozinha e sala de estar com um sofá-cama, uma cadeira de balanço antiga e uma bancada de trabalho obviamente feita à mão e entulhada com equipamentos que qualquer fabricante de arcos reconheceria. E alguns que um fabricante não saberia o que eram.
Ele puxou o sofá para virar cama, tirou a roupa e deitou-se com um suspiro esgotado. Dormiu por 24 horas, concluindo o processo de cura que Mai havia iniciado. Quando acordou, sua fome era voraz, e estava preparando algo para comer quando ouviu uma leve batida na porta. Ele espiou pelo olho mágico. Era, como esperava, Mai, a única pessoa que sabia onde ele morava.