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— Problemas? — Brennan perguntou, vendo a preocupação em seus traços geralmente plácidos. Deu um passo para o lado e a deixou entrar.

— Não sei. Acho que sim.

— Me conte. — Ele foi para trás do balcão que dividia a cozinha do restante do apartamento e despejou a água da chaleira que assobiava no fogão em duas xícaras pequenas e sem alça. Eram de porcelana, pintadas à mão com as cores de um sonho. Eram mais velhas que os Estados Unidos e os objetos mais preciosos que Brennan possuía. Ele entregou uma para Mai na cadeira de balanço e sentou-se na cama amarrotada diante dela.

— É o Dr. Tachyon. — Ela bebericou o chá quente, aromático, reunindo pensamentos. — Ele está agindo… de forma estranha.

— Em que sentido?

— Ficou brusco, mandão. E está negligenciando seus pacientes.

— Desde quando?

— Desde ontem, desde que voltou da reunião com o homem do Departamento de Estado. Tem outra coisa.

Ela equilibrou a xícara preciosa no colo e pegou um jornal dobrado da bolsa que havia deixado ao lado da cadeira.

— Viu isto?

Brennan balançou a cabeça.

A manchete gritava TACHYON LIDERA ATAQUE DE ASES CONTRA AMEAÇA ESPACIAL. Uma imagem abaixo das letras em negrito mostrava Tachyon em pé com um homem identificado como Alexander Lankester, chefe da Força-Tarefa Anti-Enxame. O artigo que acompanhava declarava que Tachyon estava recrutando ases para acompanhá-lo no ataque contra a Mãe do Enxame que orbitava ao redor da Terra além do alcance balístico dos mísseis. Capitão Viajante e Modular já haviam concordado em seguir com ele.

Algo estava errado, pensou Brennan. Tachyon esperava que o deslocador de singularidade encerrasse o pedido daquele ataque inútil. Em vez disso, parecia que o oposto estava acontecendo.

— Acha que o governo está chantageando o doutor para que ele faça isso? — Brennan perguntou. — Ou está controlando a mente dele de alguma forma?

— É possível — Mai deu de ombros. — Sei apenas que ele pode precisar de ajuda.

Ele olhou para ela por um bom tempo e ela devolveu o olhar calmamente.

— Ele não tem amigos?

— Muitos de seus amigos são curingas pobres, desesperados. Outros são difíceis de achar. Ou podem não estar inclinados a agir com tanta rapidez se o governo estiver envolvido de alguma forma.

Brennan levantou-se e virou-se de costas para ela enquanto levava a xícara de volta ao balcão. A rede de relacionamentos humanos estava se estendendo, enlaçando-o no seu domínio grudento novamente. Ele jogou fora o resíduo do chá na pia e olhou para o fundo da xícara. Era o azul de uma piscina perfeita, sem fundo, o azul de um céu vazio, infinito. Olhar para ele era como contemplar o vazio. Era agradável em sua tranquilidade absoluta, mas não era, Brennan percebeu, seu caminho particular para a iluminação.

Ele virou para Mai novamente, decidido.

— Tudo bem. Vou verificar. Mas não sei nada sobre coisas como controle da mente. Vou precisar de alguma ajuda.

Ele pegou o telefone e discou um número.

Brennan raramente esteve nas salas públicas do Crystal Palace, embora tivesse passado mais de uma noite nos quartos do terceiro andar. Elmo assentiu com a cabeça quando ele entrou, sem comentar sobre o estojo que carregava. O anão apontou para a mesa de canto onde Crisálida estava sentada com um homem vestindo jeans preto e jaqueta de couro marrom. Tinha traços bonitos, regulares, exceto pela testa inchada.

— Você — disse Fortunato quando Brennan foi até a mesa. Olhou de Brennan para Crisálida. Ela o observou com um olhar tranquilo, o sangue pulsando continuamente pelas artérias da garganta transparente como vidro. Ela olhou para Brennan e balançou a cabeça, fria, sem mostrar nenhum sinal da paixão que Brennan conhecera dos tempos que ele passava no terceiro andar do Crystal Palace.

— Este é o Yeoman — disse ela enquanto Brennan sentava-se à mesa, na terceira cadeira. — Acredito que tenha algumas informações que você achará interessantes.

Fortunato franziu o cenho. Seu último encontro não fora exatamente cordial, embora não houvesse uma verdadeira animosidade entre os dois.

— Corre o boato de que vocês estão procurando uma maneira de chegar ao Enxame. Sei de algo que poderia ajudar.

— Sou todo ouvidos.

Brennan falou para ele sobre o deslocador de singularidade. Não contou mentiras, mas escondeu as coisas com destreza, tendo sido treinado por Crisálida quanto à abordagem que mais provavelmente levaria Fortunato a ajudá-lo a investigar o estranho comportamento de Tachyon.

— Que mais você pode fazer além de zerar a mente? — Fortunato perguntou quando Brennan terminou de contar a história.

— Posso cuidar de mim mesmo. E de muitos outros que poderiam tentar interferir em nossos planos.

— Você é aquele matador maluco que os jornais estão especulando ultimamente?

Brennan pôs a mão no bolso de trás das calças e puxou uma carta. Deixou-a na mesa com a frente para cima diante de Fortunato. O mago-cafetão olhou para ela e balançou a cabeça.

— Eu e o Sombra somos os únicos ases de espadas que eu conheço. — Ele encarou Brennan. — Mas acho que há espaço para mais um. A única coisa que não entendo é o que vai ganhar com isso — disse ele, virando-se para Crisálida.

— Se funcionar, o que eu quiser. De vocês dois…

Fortunato grunhiu. E levantou-se.

— Sim. Você sempre quer. Bem, vamos lá. É melhor verificarmos se aquele dândi alienígena está com todos os parafusos na cabeça.

Brennan dirigiu através da escuridão do início da manhã até o apartamento de Tachyon. De canto de olho, ele flagrava Fortunato observando-o às vezes, mas o ás preferiu não perguntar nada. Fortunato não o aceitara, Brennan percebeu, e ainda estava cauteloso e alerta, senão totalmente desconfiado. Mas tudo bem, porque ele também não estava à vontade com Fortunato.

Estacionou a BMW no beco ao lado do prédio de Tachyon. Ele e Fortunato saíram e olharam para o prédio.

— Vamos entrar pela porta da frente — quis saber Fortunato — ou pela porta de trás?

— Se houver uma escolha, minha política é sempre entrar pelos fundos.

— Cara esperto — murmurou Fortunato —, cara esperto.

Fortunato observou com expressão dúbia, mas não disse nada quando Brennan pegou o estojo do porta-malas da BMW, abriu-o, prendeu seu arco composto às costas e, em seguida, a aljava de flechas ao cinto.

— Vamos.

Seguiram para o fundo do prédio, e Fortunado queimou um pouco de energia psíquica para descer a escada de incêndio. Seguiram com passos leves pela escada até chegarem à janela do apartamento de Tachyon, e espiaram para dentro do quarto.

O quarto, iluminado pela luz de um abajur derrubado, estava um pandemônio. Havia sido bagunçado por alguém que procurava algo com impaciência e não se importou em colocar as coisas nos lugares. Brennan e Fortunato olharam-se.

— Algo estranho está acontecendo — Fortunato murmurou.

A janela estava trancada, mas aquilo não era obstáculo para Brennan. Removeu um círculo de vidro da janela inferior com um cortador, enfiou a mão pelo furo, destravou-a e, silenciosamente, deslizou-a para cima. Estendeu um braço, impedindo Fortunato de entrar, e pousou o dedo sobre os lábios. Espreitaram por um instante, mas não ouviram nada.

Brennan entrou primeiro, pulando pelo peitoral da janela tão silenciosamente quanto um gato, o arco aberto na mão esquerda, a direita pairando sobre a aljava presa com velcro ao cinto. Fortunato o seguiu, fazendo barulho suficiente para Brennan olhá-lo com um ar acusador. O ás deu de ombros, e Brennan seguiu pelo quarto. No corredor que levava para a cozinha, sala de estar e quarto de hóspedes, ouviram uma série de ruídos, batidas ocas e sons ocasionais de coisas se estilhaçando, como se aquele quem procuravam, descuidado ou indiferente, estivesse revirando os cômodos dentro do apartamento.