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Seguiram em silêncio pelo corredor, passando pela porta fechada do quarto de hóspedes. O corredor abria-se para a sala de estar do apartamento, que parecia tão devastada quanto uma área de trailers após um tornado. Um homem baixote, magro com cabelos longos e encaracolados arrancava os livros metodicamente das prateleiras, olhando atrás deles.

— Tachyon — disse Brennan em voz alta.

Ele se virou e olhou para os dois no corredor, totalmente calmo, sem sobressalto. Encarou-os, sem expressão alguma no rosto.

Fortunato, de repente, pousou uma das mãos nas costas pequenas de Brennan e o empurrou, fazendo-o cair sobre o tapete.

— Não é Tachyon — gritou.

Os próximos segundos pareceram para Brennan como se estivesse vendo uma fita de vídeo avançando rápido. Fortunato estava fazendo algo com o tempo. Transformou-se num rojão indistinto atravessando o ar na direção do Tachyon falso, mas foi jogado para o lado logo que os dois se tocaram.

Brennan puxou uma flecha e lançou-a da sua posição de joelhos.

A flecha era feita com penas vermelhas e pretas. O corpo era de alumínio oco cheio de explosivos plásticos. Sua ponta era um detonador sensível ao toque. A flecha era pesada demais para ser estável no quesito aerodinâmica em longas distâncias, mas a coisa disfarçada de Tachyon estava a menos de oito metros.

A flecha de Brennan atingiu-o no alto do peito e explodiu, mandando um banho de carne e gosma verde sobre a sala. A coisa foi arremessada para trás pelo impacto. Sua metade superior desapareceu, deixando um par de pernas se retorcendo, presas a um tronco que espalhava órgãos não humanos e vazava uma secreção verde e espessa. Foi momentos antes de as pernas interromperem suas tentativas de caminhar.

— O que era aquela coisa? — Brennan gritou sobre o barulho em seus ouvidos.

— Sei lá! — disse Fortunato, erguendo-se de onde a coisa o havia jogado. — Tentei rastrear sua mente, mas não havia mente. Nada humano ao menos.

— Parecia com Tachyon — disse Brennan numa voz mais baixa, sua audição voltando ao normal. — Até o último detalhe. — Franziu a testa, olhou para Fortunato. — A mente de Tachyon não foi tomada. Ele foi substituído.

— Quando foi a última vez que você o viu para ter certeza que era o Tachyon verdadeiro?

— Ontem. Na clínica. Antes ele foi a uma reunião no Hotel Olympia com aquele tal Lankester do Departamento de Estado.

— Vamos verificar.

O velho frágil, de cabelos brancos, no uniforme de ascensorista, ergueu Brennan sobre a cabeça e lançou-o contra a parede. Brennan bateu com força na parede e deslizou para o tapete, buscando ar como um cão arfante. Estava em perigo.

O ascensorista avançou sobre ele, sem expressão no rosto vincado. Brennan ergueu-se sobre os joelhos, os pulmões queimando, e viu os olhos do porteiro revirando-se para dentro da cabeça. O ascensorista cambaleou para trás, girando as pernas como se fosse pego num vento de furacão. Fez uma dança trôpega maluca e lançou-se pela janela no fim do corredor. Foi um longo caminho até a rua lá embaixo.

Brennan se recompôs enquanto Fortunato estalava os dedos diante do corpo. Pegou o braço de Brennan e disse:

— Sem cérebro para controlar, mas é possível empurrá-los por aí.

— Alguém provavelmente ouviu isso — Brennan engasgou, o ar voltando aos pulmões.

— Eu poderia ter deixado ele te esmagar.

— Lá está. — Ele deu um suspiro profundo e agradecido. — Precisamos ser discretos por um tempo.

Pararam diante de um dos quartos.

— Que tal este aqui? — Fortunato perguntou. Brennan deu de ombros, em silêncio. Fortunato pousou a mão na maçaneta e estendeu a mente. Arruelas estalaram, pinos se ergueram e a porta abriu.

— Levará um tempo até nos rastrearem — o ás disse quando entraram no escuro quarto de hotel. — Quantos agentes você acha que eles têm?

— Não sei — disse Brennan, esticando as costas doloridas com cuidado. — Mais do que eu suspeitaria, com certeza.

— Pensei que fosse mais astuto.

Brennan balançou a cabeça. O plano era ele cuidar do andar onde a suíte de Lankester estava localizada, reunindo as informações que conseguisse, enquanto Fortunato usava os poderes mentais para monitorar seu progresso a partir da escadaria. O ascensorista falso o reconheceu e o atacou quase imediatamente. Foi tudo que Brennan conseguiu fazer para aguentar até Fortunato chegar.

— Melhor tentarmos o plano alternativo — disse Brennan.

— Pode levar algum tempo.

Fortunato sentou-se numa das camas duplas, pernas cruzadas à frente, costas eretas, mãos pousadas no colo. Olhava adiante para o nada. Brennan estava em pé entre ele e a porta, ouvindo sons do corredor, enquanto tirava arco e aljava de flechas do estojo que Fortunato manteve com ele enquanto sondava o hotel.

Fortunato parecia mergulhado num transe profundo, quase igual, Brennan pensou, quando um aluno de Zen descia ao zazen, o estado de meditação. Após um momento, um par de chifres de carneiro materializaram-se na testa inchada de Fortunato, reluzente e indistinto na escuridão.

Brennan observou com lábios apertados. Seu treinamento zen havia ensinado que não havia essa coisa de magia, mas aqui estava a prova contrária, bem diante dos seus olhos. O que seria magia, talvez, além de ciência não explicada?

Brennan arquivava a questão para meditação posterior quando Fortunato abriu os olhos de repente. Eram poços de escuridão, suas pupilas tão dilatadas que quase engoliam as íris. A voz ficou rouca, um pouco trêmula.

— Estão por todos os lados, aquelas coisas — disse. — Ao menos vinte. Talvez mais. Não são humanos, nem mesmo da Terra. Suas mentes, se pudermos chamá-las assim, são alienígenas, muito além da minha experiência.

— São criaturas do Enxame?

Fortunato levantou-se com graça fluida, fácil, e deu de ombros.

— Pode ser. Pensei que o melhor que podiam fazer eram cascos que pareciam com pãezinhos de Pillsbury. Pensei nos mensageiros e merdas como essa que estavam além deles.

— Talvez eles tenham refinado sua técnica. — Brennan ergueu a mão, apertando o ouvido contra a porta. Os passos no corredor lá fora passaram pelo quarto deles, enquanto ele e Fortunato aguardavam em silêncio.

— E Tachyon?

Fortunato franziu o cenho.

— Encontrei uma mente humana. Uma camareira. Não percebeu nada estranho acontecendo. Um pouco irritada porque os hóspedes neste andar não dão boas gorjetas. Não dão gorjeta nenhuma na verdade. Também encontrei algo nos elevadores. Pode ter sido a mente de Tachyon, mas há um véu sobre ela, uma cerca ao redor. Consegui pegar apenas noções vagas, filtradas. Estavam cheias de cansaço. E dor.

— Poderia ser Tachyon?

— Poderia.

Brennan deu um suspiro profundo.

— Algum plano?

— Nenhum.

Os dois se olharam. Brennan tocou a aljava ao lado.

— Queria que você tivesse uma arma — disse ele.

— Eu tenho. Várias. — Ele tocou a testa. — E estão todas aqui.

Esperaram até estar quieto no corredor lá fora, então abriram a porta e moveram-se rapidamente. Correram o máximo que puderam pelo corredor do hotel, entraram à direita quando chegou uma bifurcação, e viram-se num hall de elevadores. Em um nicho lateral havia algo que parecia um armário de roupas de cama. Brennan encaixou uma flecha no arco e puxou para trás, enquanto Fortunato apontava para a porta aberta.

Brennan baixou o arco.

— Cristo abençoado! — ele murmurou. Fortunato olhou para ele e para o armário e congelou.

Tachyon estava lá dentro. Seu cabelo, encharcado de suor, caía sobre o rosto em cachos frouxos. Seus olhos fitavam através do emaranhado de cabelos. Estavam inchados e injetados, e vidrados com dor e exaustão. As prateleiras e roupas de cama haviam sido removidas do armário, dando lugar para Tachyon e para a coisa que o abraçava. Tachyon estava pressionado contra um leito grande e púrpura de biomassa que o prendia com vários tentáculos pegajosos pelo pescoço, peito, braços e pernas. A coisa pulsava ritmicamente, tremelicando como uma senhora gorda pulando numa cama d’água. Tachyon estava enfiado numa depressão na superfície da coisa que o apoiava em segurança, seguindo perfeitamente seus contornos e dimensões.