Seus olhos concentravam-se em Fortunato, voejando para Brennan.
— Me ajudem — resmungou, os lábios movendo-se por muitos momentos antes de qualquer som sair deles.
Brennan abaixou-se, puxou uma faca que carregava na bainha do tornozelo e rasgou os tentáculos que prendiam Tachyon àquela coisa. Foi como cortar borracha rígida e elástica, mas continuou a rasgar com raiva, ignorando as pulsações crescentes da coisa e a gosma verde que espirrava nele e em Tachyon.
Levou um minuto para cortar todos os tentáculos, mas ainda assim a coisa estava presa a Tachyon. Foi então que Brennan percebeu as ventosas presas ao lado e atrás do pescoço de Tachyon.
— Como tiramos você daí? — ele perguntou.
— Apenas puxe — Tachyon sussurrou.
O doutor finalmente estava livre. Caiu nos braços de Brennan, fedendo a suor, medo e secreções alienígenas. Tinha palidez mortiça e sangrava em profusão dos pontos onde as ventosas tinham se prendido. Os ferimentos não pareciam sérios, mas não havia, Brennan percebeu, como dizer quanto poderiam ser danosos de verdade.
— Olhem só — disse Fortunato —, temos companhia.
Brennan olhou para o corredor. Uma dúzia de simulacros humanos estava se aproximando, vestidos de mensageiros, camareiras e homens e mulheres comuns em vestidos e ternos de três peças. No meio deles estava Lankester, do Departamento de Estado.
Brennan arrastou Tachyon para o elevador enquanto as criaturas avançavam em ritmo constante, os rostos serenos e extremamente sem emoção. Fortunato juntou-se a ele, um olhar preocupado no rosto.
— Que fazemos agora?
— Chame o elevador.
As coisas estavam a pouco mais de seis metros de distância quando ouviram o ruído de um elevador chegando.
— Pegue-o — disse Brennan, jogando a forma desengonçada e pouco consciente de Tachyon nos braços de Fortunato. Puxou uma flecha da aljava enquanto a porta do elevador se abria num ruído. Dentro estavam três homens de meia-idade vestidos em ternos conservadores e chapéus de Shriners na cabeça. Encararam com olhos arregalados enquanto Fortunato arrastava Tachyon para dentro. Fortunato olhou para eles.
— Térreo, por favor — disse ele. O homem que estava diante do painel de botões apertou-o automaticamente quando Fortunato impediu o fechamento da porta com o pé. Brennan encaixou três flechas explosivas no meio das criaturas que avançavam. A primeira atingiu Lankester no peito. A segunda e a terceira explodiram à esquerda e à direita dele, estourando sangue e protoplasma em todo o corredor do hotel. Ele pulou para dentro do elevador e Fortunato deixou a porta se fechar.
Brennan recostou-se no arco, dando um suspiro profundo e aliviado. Os Shriners amontoaram-se num dos cantos do elevador.
Fortunato olhou para eles.
— Primeira vez na cidade?
III.
— Então, Lankester foi substituído por um desses filhos do enxame da nova geração um tempo atrás? — Brennan perguntou.
Tachyon concordou com a cabeça e deu um grande gole da caneca que Mai lhe entregou. Estava cheia de café preto e espesso, batizado generosamente com conhaque.
— Antes mesmo de eu encontrá-lo… aquela coisa. Esse é o motivo pelo qual ela estava insistindo naquele plano de ataque insano. Sabia que não poderíamos realmente atingir a Mãe do Enxame, mas um ataque desses faria todos pensarem que algo concreto estava sendo feito para combater a ameaça. — Ele fez uma pausa, deu outro trago grande da caneca. — E há outra coisa. A Mãe do Enxame poderia querer espécimes de ases.
Brennan olhou para ele com uma interrogação no rosto.
— Espécimes?
— Para desmontar e replicar a partir de sua própria biomassa.
— Que merda — Fortunato murmurou. — Quer criar seus próprios ases.
Eles estavam no escritório de Tachyon, na clínica. Tachyon havia se limpado, mas ainda estava pálido e trêmulo pelo suplício que havia sofrido. Havia uma bandagem em torno do pescoço onde a criatura do Enxame havia prendido as ventosas.
— O que vai acontecer agora? — Brennan perguntou.
Tachyon suspirou, deixando a caneca de lado.
— Vamos atacar a Mãe do Enxame.
— O quê? — disse Fortunato. — Aquela coisa do Enxame bagunçou seus miolos? Você acabou de dizer que era insano atacar a Mãe.
— Era. É. Mas é a melhor opção em aberto para nós. — Ele olhou de Fortunato, que estava visivelmente incrédulo, para Brennan, que olhava para o nada, esquivo. — Olhe, o Enxame começou uma nova onda de ataques que é muito mais sofisticada que a anterior. Não há como dizer de que maneira conseguiram entrar no governo.
— Se conseguiram substituir Lankester — Brennan murmurou —, quem mais poderiam conseguir?
— Exatamente. Quem eles vão dominar? — Tachyon deu de ombros. — As possibilidades são impressionantes. Se pudesse substituir pessoas-chave o suficiente para levar isso adiante, não pensaria em começar uma troca nuclear mundial e simplesmente esperar o milênio necessário até a superfície do planeta estar novamente habitável. É óbvio que não podemos confiar em ninguém do governo para nos ajudar a atacar a Mãe do Enxame. Temos de fazer isso sozinhos.
— Como faremos isso? — Fortunato perguntou num tom que indicava que não fora vencido pelos argumentos de Tachyon.
— Temos o deslocador de singularidade — disse Tachyon, sua voz erguendo-se com entusiasmo. — Precisamos de uma arma. No passado, os takisianos usaram com sucesso armas biológicas contra as Mães do Enxame, mas as ciências biológicas de vocês não são sofisticadas o bastante para produzir uma arma adequada. Talvez eu possa inventar alguma coisa…
— Existe uma arma — uma voz baixinha disse. Os três homens se viraram e olharam para Mai, que estava em silêncio ouvindo a conversa.
Tachyon olhou para ela e então se aprumou na cadeira, derramando o café com conhaque na frente da túnica bordada.
— Não fale bobagem — disse ele, ríspido.
Fortunato olhou de Tachyon para Mai.
— O que é essa merda?
— Nada — disse Tachyon. — Mai trabalha comigo na clínica. Ela usa seu poder para ajudar alguns dos meus pacientes, mas estaria fora de questão ela se envolver nisso.
— Que poder?
Mai ergueu as mãos, palmas para a frente.
— Posso tocar a alma da pessoa — disse ela. — Nos tornamos uma e eu encontro a doença nela. Tomo a doença para mim e a amenizo, aliviando as curvas da estrutura vital e corrigindo as falhas. Então, nós duas podemos ficar bem novamente.
— Traduzindo isso significa o quê? — Fortunato perguntou.
— Ela manipula material genético — disse Tachyon com um suspiro. — Pode moldá-lo em quase qualquer formato que visualizar. Suponho que poderia usar o poder na Mãe do Enxame de forma reversa para causar a dilaceração celular em escala gigantesca.
— Ela pode causar câncer na Mãe? — Fortunato quis saber.
— Provavelmente poderia — Tachyon assentiu. — Se eu deixar que ela se envolva, o que eu não vou fazer. Seria um risco insano para uma mulher.
— É um risco insano para qualquer um — disse Fortunato, brusco. — Se ela é a melhor aposta contra aquela Mãe e quer tentar, eu digo para deixar que ela faça.
— E eu proíbo! — disse Tachyon, derrubando café da caneca enquanto esmurrava o braço da cadeira.