Fortunato concentrou-se com força.
— Posso sentir uma espécie de consciência lá na frente. — Ele apontou na direção do som de sucção. — Se puder chamar aquilo de consciência…
— Ótimo — Brennan murmurou. Ele desprendeu o arco.
— Ouçam — Fortunato agarrou o braço de Mai. — Você poderia me ajudar…
— Não há tempo — disse Brennan. — Além disso, Mai vai precisar de toda a energia para atravessar essa coisa. E eu também.
Fortunato começou a dizer algo, mas o som de sucção, que ficava cada vez mais alto, de repente estava bem acima deles, quando uma massa grotesca verde e amarela de protoplasma rolou por uma curva no corredor tubular diante deles. Tinha uma porção de ventosas localizadas aleatoriamente sobre um corpo globular que quase preenchia a passagem.
— Meu Deus! — Fortunato gritou. — Que coisa é aquela?
Estava grudada no lado do corredor, percorrendo a parede e o chão com uma miríade de bocas-ventosas rodeadas por centenas de cílios compridos como pés.
— Não sei e não quero descobrir — disse Brennan. — Vamos embora.
Ele escolheu uma flecha e encaixou-a frouxamente na corda do arco, e começou a avançar lentamente na direção da coisa. Mai e Fortunato seguiram desconfiados. A coisa continuava a rastejar. Os cílios das bocas voltados para eles tremelicavam com ânsia enquanto passavam, mas a criatura não fez um movimento na direção dos três.
Brennan suspirou aliviado.
O crepúsculo azul fosforescente tingia o ambiente com uma sensação de irrealidade desfocada enquanto seguiam pelo corredor para dentro da Mãe do Enxame. O ar parado ficava tão espesso com os odores de seres vivos que lembrou Brennan das selvas do Vietnã. Continuou olhando ao redor, estremecendo com o nervosismo, sentindo como se estivesse na mira do rifle de um atirador de elite. Não conseguia se livrar da sensação opressiva, nefasta, de estar sendo observado.
Seguiram pelo corredor ondulante por meia hora em silêncio tenso, sempre esperando, mas nunca encarando de verdade um ataque mortal das máquinas mortíferas da Mãe do Enxame. Pararam quando o corredor se bifurcou. Ambos os lados pareciam levar para a direção que precisavam ir.
— Para onde? — Brennan perguntou.
Fortunato esfregou a testa inchada de forma exausta.
— Posso ouvir mil pequenos pios. Não mentes reais, ao menos não mentes conscientes, mas o ruído está me enlouquecendo. A grande ainda está adiante, em algum lugar.
Brennan olhou para Mai. Ela devolveu o olhar, plácida, como se disposta a deixá-lo tomar todas as decisões. Brennan jogou uma moeda na sua mente e o resultado foi cara.
— Para cá — disse ele, tomando o caminho à direita.
Não haviam percorrido cem metros quando Brennan percebeu que algo estava diferente naquele corredor. O ar estava adocidado, quase enjoativo. Era difícil de respirar, e ao mesmo tempo era quase intoxicante. O odor crescia quanto mais avançavam.
— Não tenho certeza de que gosto disso — disse ele.
— Temos escolha? — Mai perguntou.
Brennan olhou para ela e deu de ombros. Continuaram, viraram numa curva acentuada do corredor, e pararam, encarando a cena diante deles.
O corredor alargou-se para uns 12 metros de largura. Em ambos os lados, pendurados perto do teto, havia uma porção de brotos grotescos com membros encolhidos e abdomes imensos, inchados. Mamavam daquilo que pareciam mamilos intumescidos brotando das paredes do corredor.
Por sua vez, criaturas do Enxame de todos os tamanhos e descrições estavam em volta de cada um dos brotos pendurados, empurrando-se por um lugar em um dos tubos vazados que pendiam dos seus abdomes inchados. As criaturas do Enxame variavam de seres mínimos do tamanho de insetos a monstruosidades tentaculares que deviam pesar várias toneladas. Eram centenas deles.
— Parece que estão se alimentando — Fortunato sussurrou.
Brennan fez que sim com a cabeça.
— Não podemos atravessar ali. Teremos que voltar e tentar o outro caminho.
Eles começaram a voltar pelo corredor e, de repente, pararam quando ouviram um zumbido baixo, como se vindo de um bando de pequenas asas, pairando pelo caminho de onde vieram.
— Merda — disse Fortunado, sem acreditar. — Estamos presos no meio de uma maldita mudança de turno.
— A primeira criatura do Enxame pela qual passamos nos ignorou — Brennan disse. — Talvez essas ignorem também.
Eles se encostaram na parede do corredor — era morna, Brennan achou, e flexível ao toque — e ficaram tão quietos e discretos quanto puderam. E esperaram.
Um enxame de criaturas insetoides desceu o corredor zumbindo. Tinham de 10 a 15 centímetros com corpos segmentados e asas grandes e membranosas. Os primeiros passaram por eles e foram direto para a câmara de alimentação, e Brennan pensou que estavam a salvo. Mas então um parou e pousou em Mai. Outro se juntou, e então outro, e outro. Ela olhou para eles calmamente. Um posou no ombro de Brennan. Ele o encarou. As partes da boca consistiam de múltiplos sistemas mandibulares. Um conjunto de mandíbulas começou a rasgar o tecido da camisa de Brennan, enquanto outro enfiava pedaços da roupa na sua boca pequenina.
Brennan jogou a coisa no chão com nojo e pisou nela. Estalou alto sob seu pé, como uma barata, mas dois já haviam tomado o lugar no corpo de Brennan. Ele ouviu Fortunato xingar e sabia que estavam rastejando sobre ele também.
— Vamos tentar sair do caminho deles — disse bem baixo, mas não adiantou. Os insetos seguiam-nos e pousavam nos três em quantidades cada vez maiores.
— Corram! — Brennan chamou, e dispararam pelo corredor.
Alguns deles continuaram na direção da câmara de alimentação, mas muitos mais os seguiram pelo corredor numa nuvem zumbidora e nervosa. Brennan os estapeava enquanto corria, acertando alguns no ar. Ele batia naqueles que rastejavam sobre ele, mas havia muitos para entrar no lugar daqueles que ele afastava ou esmagava. Cobriam seu rosto e braços e ele conseguia sentir milhares de pezinhos caminhando sobre ele. Pareciam estar mais interessados em suas roupas e, mais importante, em seu arco e flechas. Era como se fossem abutres programados para desfazer-se de matéria morta. Porém, aquilo não os tornava inofensivos. Brennan sentia suas mandíbulas afiadas rasgarem a carne quase sempre. O zumbir das asas e os estalidos das mandíbulas soavam alto nos ouvidos de Brennan. Eles precisavam se livrar dos bichos.
Alcançaram o ponto onde a passagem se dividia em duas, buscando desesperadamente algo, qualquer coisa, que pudesse fazê-los afastar os pequenos abutres. Fortunato correu para a outra ramificação do corredor, Brennan e Mai seguiram-no. O corredor estava melado de umidade. A superfície era irregular. A umidade ficava represada em poças rasas que lançavam um salpicar fino de líquido quando pisavam nelas. O líquido era morno e transparente, apesar de turvo. Chapinharam o corredor, e o enxame de insetoides pareceu ficar para trás. Fortunato tropeçou numa poça rasa que havia se formado em uma das depressões mais fundas, e rolou e rolou, expulsando e esmagando os insetoides que rastejavam sobre ele. Brennan e Mai juntaram-se a ele. Brennan manteve os lábios fechados bem firmes, mas o líquido turvo encharcou-o da cabeça aos pés. Parecia, e cheirava, a água morna com partículas finas suspensas nela. Brennan não tinha nenhum interesse especial em ingeri-la.
Brennan olhou para os companheiros enquanto se agachavam na poça rasa. As roupas pareciam ter sido atacadas por uma legião de traças, e tinham diversos cortes e sulcos, mas nenhum deles parecia muito machucado. O enxame de insetoides persistente pairava sobre a cabeça deles, zumbindo, o que parecia a Brennan algo irritante.
— Como nos livramos deles? — ele perguntou, irritado consigo mesmo.
— Posso ter força suficiente para mandar aqueles pequenos desgraçados para algum lugar — Fortunato falou com esforço.
— Não sei… — Brennan começou e nunca teve chance de terminar.