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Croyd ficou para trás enquanto seguiam na direção do parque. Duas figuras estavam sentadas em um banco no meio dele, e mesmo a distância era visível que o rosto de um dos homens era vermelho e brilhante.

— Bem? — Devil John perguntou.

— Vou fazer uma tentativa — disse Croyd. — Finja que não estamos juntos. Eu continuo andando e você vai lá e conta pra eles a história. Volto num minuto e corto pelo parque. Vou tentar fazer a jogada assim que me aproximar. Mas fique pronto. Se não funcionar desta vez, podemos ter que recorrer a algo mais físico.

— Entendi. Tudo bem.

Croyd desacelerou o passo, e Darlingfoot seguiu adiante, atravessando a rua e entrando num caminho de cascalho que levava ao banco. Croyd foi até a esquina, cruzou-a lentamente e voltou.

Podia ouvir as vozes se elevarem, como se fosse uma discussão, quando chegou mais perto. Ele entrou na trilha e caminhou até o banco, o pacote ao lado.

— … pedaço de merda! — ouviu Matthias dizer.

O homem olhou na sua direção, e Croyd percebeu que ele era o mesmo policial que encontrara mais cedo. Não havia sinal de reconhecimento no rosto do homem, mas Croyd estava certo de que seu talento devia estar dizendo a ele que um ás estava se aproximando. Então…

— Senhores — disse ele, concentrando os pensamentos —, tudo que Devil John Darlingfoot disse aos senhores está correto. O corpo foi destruído por cães. Não há nada para lhes entregar. Vocês terão que dispensá-lo. Esquecerão tudo assim que eu tiver…

Ele viu Darlingfoot virar a cabeça de repente para olhar através do outro. Croyd virou-se e olhou na mesma direção.

Uma oriental, jovem e de aparência simples, se aproximava, mãos nos bolsos do casaco, gola levantada para se proteger do vento. O vento…

O vento mudou, soprando diretamente na direção deles naquele instante.

Algo sobre a mulher…

Croyd continuou a encarar. Como pôde ter pensado que ela era simples? Deve ter sido um efeito da luz. Ela era de tirar o fôlego de tão encantadora. De fato… Queria que ela sorrisse para ele. Queria abraçá-la. Queria correr as mãos sobre ela inteira. Queria acariciar o cabelo, beijá-la, fazer amor com ela. Era a mulher mais linda que já vira até então.

Ele ouviu Devil John sussurrar levemente.

— Você está vendo o que estou vendo?

— Difícil não olhar — ele respondeu.

Ele abriu um sorriso para ela, ela sorriu de volta. Queria agarrá-la. Em vez disso, falou:

— Olá.

— Gostaria de apresentar minha mulher, Kim Toy — ele ouviu o homem vermelho dizer. Kim Toy! Até o nome soava como música…

— Me diz o que você quer e eu consigo pra você — ele ouviu Devil John dizer para ela. — Você é tão especial que dói.

Ela gargalhou.

— Que galanteador — ela declarou. — Não preciso de nada. Não agora. Espere um pouco, talvez eu pense em algo. E você — disse ela ao marido —, conseguiu?

— Não. Foi levado por cachorros — ele respondeu.

Ela inclinou a cabeça, levantando uma sobrancelha.

— Que incrível — disse ela. — E como você sabe disso?

— Esses cavalheiros nos disseram.

— É mesmo? — ela observou. — E é isso? É o que você disse para ele?

Devil John concordou com a cabeça.

— É o que dissemos para ele — disse Croyd. — Mas…

— E a bolsa que você deixou cair quando me viu chegar — disse ela. — O que tem dentro dela? Abra, por favor, e me mostre.

— Claro — disse Croyd.

— O que você quiser — Devil John concordou.

Os dois homens ficaram de joelhos na frente dela e fuçaram desajeitados e sem sucesso por muitos segundos antes de conseguirem começar a desenrolar o saco.

Croyd queria beijar os pés dela enquanto estava na posição certa para fazê-lo, mas ela pediu para ver dentro do pacote e aquilo deveria realmente vir primeiro. Talvez pudesse sentir-se inclinada a recompensá-lo depois disso, e…

Ele abriu o saco e uma nuvem de vapor agitou-se em torno deles. Kim Toy recuou de imediato, engasgando. Quando seu estômago se revirou, Croyd percebeu que a mulher não era mais linda, e não mais desejável que centenas de outras pelas quais passara naquele dia. De soslaio, viu Devil John mudar de posição e começar a se levantar… e, naquele momento, Croyd percebeu a natureza do reposicionamento do camarada.

Quando o cheiro se dissipou, algo da onda inicial de glamour ergueu-se de novo da pessoa dela. Croyd apertou os dentes e baixou a cabeça, próximo à boca do saco de lixo, respirando profundamente.

Sua beleza morreu naquele instante, e ele ampliou seu poder.

Sim, como estava dizendo, o corpo está perdido. Foi destruído por cães. Devil John fez seu melhor por vocês, mas não tem nada para entregar. Agora vamos embora. Vocês vão esquecer que eu estava com ele.

— Vamos embora! — disse ele para Darlingfoot, enquanto se levantava.

Devil John balançou a cabeça.

— Não posso deixar essa mulher, Croyd — ele respondeu. — Ela me pediu para…

Croyd balançou o saco de lixo aberto na frente do rosto dele. Os olhos de Darlingfoot arregalaram-se. Ele engasgou. Balançou a cabeça.

— Vamos embora! — Croyd repetiu, jogando o saco de lixo sobre o ombro e correndo para longe dali.

Com um salto enorme, Devil John aterrissou três metros à frente dele.

— Bizarro, Croyd! Bizarro! — comentou enquanto atravessavam a rua.

— Agora você sabe tudo sobre feromônio — Croyd disse para o outro.

O céu ficou totalmente nublado de novo, e alguns turbilhões de neve passaram por ele. Croyd separou-se de Darlingfoot quando saíram de outro bar e começou a caminhar, descendo e atravessando a cidade. Esquadrinhava as ruas regularmente à procura de um táxi, mas nenhum apareceu. Ele não queria acreditar no fardo de se espremer e se apertar num ônibus ou metrô.

A neve havia aumentado em intensidade durante a caminhada nos quarteirões seguintes, e rajadas de vento lançavam os flocos para cima e os conduzia entre os prédios. Veículos começaram a ligar os faróis, e Croyd percebeu como a visibilidade diminuíra a ponto de não conseguir distinguir um táxi mesmo se um passasse ao seu lado. Praguejando, arrastava-se, examinando os prédios mais próximos em busca de uma lanchonete ou um restaurante onde pudesse beber uma xícara de café e esperar a tempestade passar, ou chamar um táxi. Mas todos pelos quais passou pareciam ser de escritórios.

Minutos depois, os flocos começaram a ficar menores e mais duros. Croyd levantou a mão livre para proteger os olhos. Embora a queda brusca de temperatura não o perturbasse, as pelotas gélidas o incomodavam. Ele se agachou na próxima abertura que viu — a entrada de um beco —, e suspirou e abaixou os ombros quando a força do vento foi interrompida.

Melhor. A neve caía ali de forma mais lenta. Limpou o casaco e os cabelos, bateu os pés. Olhou em volta. Havia um recanto no prédio à esquerda, vários passos para trás, muitos degraus acima do nível da rua. Parecia completamente coberto, seco. Ele seguiu até lá.

Já havia colocado o pé no primeiro degrau quando percebeu que um canto da área que parecia uma caixa diante de uma porta de metal fechada já estava ocupada. Uma mulher pálida, de cabelos desgrenhados e aparência corpulenta sob camadas inimagináveis de roupas, estava sentada entre um par de sacolas de compras, olhando além dele.

— … então, Gladys disse para Marty que ela sabia que ele estava saindo com aquela garçonete do Jensen’s… — a mulher murmurou.

— Desculpe — disse Croyd. — A senhora se importaria de dividir a entrada comigo? A neve está muito forte.

— … eu disse que ela podia ficar grávida amamentando, mas ela riu da minha cara…

Croyd deu de ombros e entrou na alcova, seguindo para o canto oposto.