Os ases separaram-se, cuidando das emergências. Modular estava queimando o inimigo, tentando ajudar os bolsões esparsos de resistência enquanto, um após o outro, eram atacados. Era uma tarefa vã.
De algum lugar à esquerda ele conseguia ouvir os gritos do Uivador, solidificando ossos e nervos do Enxame. Seu talento era mais útil que o do androide; o laser de micro-ondas era uma arma precisa demais para lidar com uma onda de ataque, mas os gritos ultrassônicos do Uivador conseguiam em um segundo destruir pelotões inteiros de inimigos.
Um tanque da Guarda Nacional virou a esquina atrás de onde Modular flutuava no meio do conflito, então se chocou contra um prédio, misturando-se aos escombros. Os voadores cobriram a blindagem do tanque, obscurecendo as fendas de visibilidade. O androide mergulhou na direção do tanque, arrancou os voadores, rasgando-os como papel. Suco ácido respingava em sua roupa. A carne artificial soltava fumaça. O tanque esmagou tijolos sob suas lagartas, retirando-se de dentro do prédio.
Quando o androide se ergueu, o Grande e Poderoso Tartaruga formava uma enorme imagem luminosa no radar. Estava pegando os brotos do Enxame no corpo a corpo, arremessando-os no ar, deixando-os cair em seguida. Era como uma fonte de cascata. Os voadores batiam-se desesperadamente contra a carapaça blindada. O ácido não era suficiente para atravessar sua armadura de batalha.
O ar estalou quando foi rasgado por fótons energizados: Pulso, seu corpo se transformou em luz. O laser humano ricocheteou os inimigos para longe, levando uma dúzia ao chão, então desapareceu. Quando Pulso finalmente ficasse sem energia, reverteria à forma humana, e então ficaria vulnerável. O androide esperava que os voadores não o encontrassem.
Mistral flutuou, colorida como uma bandeira de batalha. Com 17 anos, aluna em Columbia, vestia-se em cores brilhantes e patrióticas como o pai, Ciclone. Mantinha-se em voo pela capa que ela enchia com os ventos que gerava, e abatia os voadores com tufões, atirando-os, despedaçando-os. Nada se aproximava dela.
Peregrina voava inutilmente em círculos em torno dela. Era muito fraca para combater o Enxame, em qualquer de suas corporificações.
Nenhum deles era suficiente. O Enxame continuava a se mover pelas aberturas entre os ases.
O gemido preencheu o ar quando as sombras negras dentadas, os jatos A-10 da Guarda Nacional da Força Aérea, cruzaram os céus, suas armas martelavam, deixando Delaware branco. Bombas caíam debaixo de suas asas, abrindo-se em flores brilhantes de napalm.
O androide disparou até seus geradores ficarem drenados, e então lutou contra os voadores com as próprias mãos. O desespero tomou conta dele, depois a raiva. Nada parecia ajudar.
O corpo principal do inimigo alcançou o rio e começou a nadar. Poucos soldados estavam vivos para combatê-los. A maioria dos sobreviventes estava tentando se esconder ou fugir.
O 6º Regimento dos Fuzileiros já chegou sem vida, e nada poderia alterar esse fato.
Entre Trenton e Levittown, bombas e incêndios deixaram negra a paisagem amarronzada de dezembro. Os brotos do Enxame moviam-se pelo cenário devastado como uma onda de pesadelo. Mais dois regimentos de fuzileiros estavam entrincheirados nas áreas residenciais de Filadélfia, dessa vez com o apoio da artilharia e um pequeno grupo de blindados leves dos fuzileiros.
Os ases esperavam em um hotel Howard Johnson fora da rodovia da Pensilvânia. O plano era entrarem em qualquer contra-ataque.
Uma bateria de canhões de 155 mm foi instalada no estacionamento e disparava constantemente. O crescendo do som já estourara a maior parte das janelas dos restaurantes. O som dos jatos pairava o tempo todo.
Pulso estava deitado numa tenda de hospital em algum lugar; ultrapassou seus estoques de energia e se encontrava à beira de um colapso. Mistral estava enrolada ao lado, numa cabine plástica de cor laranja forte. Seus ombros balançavam a cada estrondo das armas lá fora. Lágrimas corriam em rios por seu rosto. O Enxame ainda não havia se aproximado, mas vira muita gente morrer, e manteve-se firme durante a luta e no longo pesadelo da retirada, e naquele momento a reação havia começado. Peregrina estava sentada ao seu lado, falando com ela num tom gentil que o androide não conseguia ouvir. Modular seguiu o Uivador quando o ex-escavador saiu para buscar algo para comer no restaurante. O peito do homem era imenso, a caixa de voz mutante ampliando o pescoço de forma que o androide não conseguiria pegá-lo com as duas mãos. O Uivador vestia um conjunto emprestado da roupa de batalha dos fuzileiros: o ácido dos voadores havia comido suas roupas de civil. O androide teve de voar com ele no fim das contas, segurando o ás nas mãos que tinham sido corroídas até os ossos de metal de liga.
— Peru em lata — disse o Uivador. — Ótimo. Vamos fazer um dia de Ação de Graças. — Ele olhou para Modular. — Você é uma máquina, certo? Você come?
O androide enfiou dois dedos num soquete de luz. Surgiu um flash de luz, o cheiro do ozônio:
— Isto aqui funciona melhor — ele falou.
— Vão colocar você em produção logo? Sei que o Pentágono vai se interessar.
— Dei as condições do meu criador ao general Carter. Ainda não responderam. Acho que a estrutura de comando está desarranjada.
— Ah, é. Me conte mais sobre isso.
— Espere — o androide falou. Atrás dos barulhos das armas, o rugir dos jatos, ele começou a ouvir outro som. O estalar do disparo de armas leves.
Um fuzileiro correu para dentro do restaurante, as mãos segurando o capacete.
— Começou — disse ele. O androide deu início às verificações dos sistemas.
Mistral olhou para o oficial com olhos marejados. Parecia muito mais jovem que uma garota de 17 anos.
— Estou pronta — falou.
O Enxame parou nas cercanias da Filadélfia. Os dois regimentos dos fuzileiros navais mantiveram-se, seus fortes cercados por paredes dos mortos do Enxame. A vitória foi possível graças ao apoio das forças aéreas e dos aviões da Marinha e do navio de batalha New Jersey, que lançava projéteis de 50 centímetros a partir do Oceano Atlântico; graças também à Guarda Nacional e às tropas de paraquedistas de Carter, atacando o Enxame a partir do flanco traseiro.
Graças aos ases, que lutaram durante a noite inteira, até mesmo após o Enxame hesitar em seu ataque violento, e então começar a se mover para oeste, na direção das distantes Blue Mountains.
O aeroporto da Filadélfia ficou ocupado por toda a noite com o transporte que trazia outra divisão de fuzileiros da Califórnia.
Na manhã seguinte, o contra-ataque começou.
Após anoitecer, o dia seguinte. Uma televisão em cores balbuciava com sobriedade no canto do saguão de embarque. Carter estava se preparando para mover o posto de comando para Allentown, a oeste, e Modular chegou voando com notícias dos últimos movimentos do Enxame. Mas Carter estava ocupado, falando no rádio com os comandantes em Kentucky, e assim o androide ouviu as notícias do restante do mundo.
A violência de Kentucky espalhou-se pela tela. Imagens, tiradas de uma distância segura por lentes de longo alcance, sacudiam e estalavam. No meio dela, havia um homem alto de uniforme militar sem insígnia, o corpo reluzindo como uma estrela de ouro, enquanto usava um tronco de árvore de seis metros para esmagar os brotos do Enxame. Seguiu-se uma entrevista com ele: não parecia ter mais de 20 anos, mas os olhos tinham fantasmas de milhares de anos dentro deles. Não falou muito, pediu licença, saiu para voltar à guerra. Jack Braun, o Golden Boy dos anos 1940 e Judas dos Ases dos anos 1950, de volta à ativa pelo período de emergência.