Mais ases: Ciclone, o pai de Mistral, combatendo o Enxame no Texas com a ajuda da própria equipe de gravação, todos com armas automáticas. O Enxame batia completamente em retirada, atravessando a fronteira do México, levado pelos fortes Bliss e Hood, e pela infantaria de Fort Polk, os voadores dizimados pelo uso abundante de armas químicas da era Vietnã. Os mexicanos, mais lentos para se mobilizarem e com um exército despreparado para a moderna guerra de larga escala, não ficaram felizes com o Enxame sendo empurrado para Chihuahua e protestaram em vão.
Mais imagens, mais locais, mais corpos espalhados por uma paisagem em farrapos. Cenas das planícies outonais ao norte da Alemanha, onde o Enxame baixou bem no meio de uma manobra de larga escala do Exército britânico no rio Reno, e onde nunca conseguiram se concentrar. Mais imagens inquietantes da Trácia, onde um ataque furioso do Enxame cobria a fronteira greco-turco-búlgara. Os governos humanos não cooperavam, e seus povos sofriam.
Imagens de esperança e oração: cenas de Jerusalém e Belém, já lotadas com peregrinos cristãos que naquele momento enchiam as igrejas em longas e infinitas sessões de orações murmuradas.
Fortes imagens em preto e branco da China, refugiados e longas colunas de tropas do Exército de Libertação Popular marchando. Estimativa de 50 milhões de mortos. África, Oriente Médio, América do Sul — retratos do avanço do Enxame sobre o Terceiro Mundo, imagens de uma onda infinita de morte. Nenhum continente saiu ileso, exceto a Oceania. Ajuda era prometida tão logo as superpotências limpassem os próprios quintais.
Havia especulações sobre o que estaria acontecendo no bloco orientaclass="underline" apesar de ninguém comentar, parecia que o Enxame havia aterrissado no sul da Polônia, na Ucrânia e, ao menos, em dois pontos da Sibéria. Forças do pacto se mobilizaram e moviam-se para a batalha. Comentaristas previam fome disseminada na Rússia: a mobilização de força total assumiu caminhões e ferrovias que a população civil usava para o transporte de comida.
Imagens antigas vieram à tela: Mistral voando imune no céu; Carter dando uma coletiva de imprensa desanimada, relutante; o prefeito da Filadélfia às raias da histeria… o androide virando as costas. Tinha visto demais dessas imagens.
E, então, sentiu algo se mover através dele, algum vento fantasma que tocou seu coração cibernético. De repente, sentiu-se mais fraco. O aparelho de televisão chiou, as imagens desapareceram. Um tagarelar crescente veio dos técnicos de comunicação: alguns de seus equipamentos tinham pifado. Modular ficou alarmado. Algo estava acontecendo.
O vento fantasma passou novamente, tocando seu núcleo. O tempo pareceu diminuir um compasso. Mais comunicações caíram. O androide seguiu até Carter.
A mão do general tremia quando pousou o telefone no gancho. Foi a primeira vez que o androide o viu apavorado.
— Isso foi um pulso magnético — disse Carter. — Alguém acabou de usar energia nuclear, e não acho que fomos nós.
Os jornais ainda alardeavam manchetes sobre a invasão. Pedia-se para que as crianças no meio-oeste americano evitassem beber leite: havia o perigo de envenenamento das bombas aéreas que os soviéticos usaram para esmagar os Enxames siberianos. As comunicações ainda estavam interrompidas: as bombas tinham espalhado radiação o suficiente na ionosfera para enferrujar muitos dos chips de computador americanos.
Pessoas nas ruas pareciam clandestinas. Havia um debate sobre se Nova York deveria sofrer um blecaute ou não, mesmo que o Enxame estivesse obviamente batendo em retirada após seis dias de combate intenso.
Coleman Hubbard estava ocupado demais para se importar. Caminhava pela Sixth Avenue, rangendo os dentes, a cabeça aos pedaços com o esforço que a recente aventura lhe tinha custado.
Ele falhou. Um dos membros mais promissores da Ordem, o garoto Fabian, foi preso sob acusação de um ataque estúpido — o garoto não conseguia tirar as mãos das mulheres, quisessem elas ou não —, e Hubbard foi enviado para entrevistar o capitão de polícia encarregado. Não teria exigido muito, apenas alguma papelada perdida, ou uma sugestão implantada na cabeça do capitão de que a prova era insuficiente… mas a mente do homem era escorregadia, e Hubbard não conseguiu agarrá-la. Finalmente, o capitão McPherson, rosnando, jogou-o para fora. Tudo que Hubbard fez foi identificar-se com o caso de Fabian, e talvez provocar o andamento das investigações.
O Lorde Amon não aceitava bem as falhas. Suas punições podiam ser selvagens. Hubbard ensaiava a defesa na mente.
Então, uma mulher esguia e ruiva, usando um terninho Burberry de executiva, entrou na rua na frente de Hubbard, quase o atropelando, depois movendo-se rapidamente rua acima, sem pedir desculpas. Levava uma pasta de couro e usava tênis. Um calçado mais aceitável saía furtivamente de uma bolsa a tiracolo.
A raiva tomou conta de Hubbard. Ele odiava grosseria.
Seu sorriso pervertido começou a se espalhar pelo rosto. Estendeu a mente, tocando os pensamentos dela, sua consciência. Sentiu vulnerabilidade ali, uma abertura. O sorriso congelou em seu rosto quando invocou seu poder e atacou.
A mulher estremeceu quando ele tomou controle de sua mente. A pasta foi ao chão. Ele a pegou e tocou o ombro dela.
— Aqui — disse. — Você parece um pouco mal-humorada.
Ela piscou para ele.
— Quê? — Na mente dela, apenas confusão. Com gentileza, ele a acalmou.
— Meu apartamento é aqui perto, na 57th Street. Talvez você deva ir até lá e descansar.
— Apartamento? Quê?
Tranquilamente, ele assumiu o comando da mente da mulher e a conduziu rua acima. Era raro encontrar alguém tão maleável. Uma grande bolha de alegria brotou dentro dele.
Certa vez, usou seus poderes apenas para levar alguém para a cama, ou talvez para ajudar a ganhar uma promoção ou duas no trabalho. Então, conheceu o Lorde Amon e descobriu para que realmente serviam seus poderes. Pediu as contas no emprego e vivia agora como um dependente da Ordem.
Ele ficara na mente dela por poucas horas, pensou. Descobriu quem era, quais terrores secretos viviam dentro dela. E, então, os fez com ela, um atrás do outro, vivendo dentro da mente da mulher e da sua, desfrutando da sua subserviência, da autodepreciação, quando ele a forçou a implorar, bem alto, por tudo que fez com ela. Afagaria sua mente, aproveitaria da loucura crescente enquanto a fazia pedir cada humilhação, cada medo. Essas foram apenas algumas das poucas coisas que aprendeu observando o Lorde Amon. As coisas que faziam com que ele vivesse. Pelo menos por algumas horas, conseguiu submergir no medo de outra pessoa, e esquecer os próprios medos.
Até a sexta geração
Walter Jon Williams
Parte Dois
Uma corrente de ar congelante abateu a cidade, vindo diretamente da Sibéria. Assolava os vãos entre os prédios, empurrando as tímidas decorações de Natal que a cidade montara, espalhando minúsculos pedaços de partículas radioativas russas nas ruas. Era o inverno mais frio em anos. O Enxame de Nova Jersey/Pensilvânia foi oficialmente declarado morto dois dias antes, e os ases, fuzileiros e o Exército voltaram para uma parada na Quinta Avenida. Poucos dias depois, tropas americanas e todo tipo de ás que pudesse ser persuadido a juntar-se a elas estariam voando de norte a sul para lidar com invasões do Enxame na África, no Canadá e na América do Sul.
O androide enfiou um dedo recém-revestido de carne na fenda do telefone público e sentiu algo clicar. Alguém simplesmente tinha de entender dessas coisas. Ele discou um número.
— Olá, Cyndi. Como está a busca por trabalho?
— Mod! Ei… queria dizer… ontem foi maravilhoso. Nunca pensei em estar numa parada ao lado de um herói de guerra.