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— Desculpe se demorou tanto para eu ligar de volta.

— Acho que combater o Enxame era um tipo de prioridade. Não se preocupe. Você compensou o tempo perdido. — Ela riu. — Noite passada foi incrível.

— Ah, não. — O androide estava recebendo outra chamada da polícia. — Acho que preciso ir.

— Não estão invadindo de novo, estão?

— Não. Acho que não. Te ligo, ok?

— Estarei esperando.

Algo que lembrava uma massa gelatinosa verde-mucosa irrompeu de um buraco nas ruas do Bairro dos Curingas, um broto do Enxame que tinha escapado do confronto diante do rio Hudson. O broto conseguiu devorar dois fregueses natalinos e um vendedor de pretzel antes de a emergência ser chamada e os rádios da polícia começarem a tocar.

O androide chegou primeiro. Quando mergulhou no cânion urbano, viu algo que parecia uma tigela de dez metros de largura de gelatina que havia ficado no refrigerador tempo demais. Na gelatina estavam as frutas pretas que eram as vítimas que ela digeria lentamente.

O androide pairou sobre a criatura e começou a disparar o laser, tentando evitar as frutas na esperança que pudessem ser reavivadas. A gelatina começou a ferver onde os raios silenciosos e invisíveis a atingiam. O broto fez um esforço inútil de alcançar seu torturador voador com um pseudópodo, e falhou. A criatura começou a rolar na direção de um beco, buscando escapatória. Estava faminta ou era estúpida demais para abandonar a comida e procurar abrigo nos esgotos.

A criatura espremeu-se no beco e correu para dentro dele. O androide continuou a disparar. Pedaços eram chamuscados e a coisa parecia perder energia rapidamente. Modular olhou para a frente e viu uma figura curvada adiante no beco.

A figura era uma mulher branca, vestida com camadas de roupas, todas esfarrapadas, todas sujas. Um chapéu de feltro frouxo estava enfiado sobre um antigo gorro da Marinha. Algumas sacolas de compras caíram de seus braços. Cabelos grisalhos embaraçados pendiam da testa. Ela estava revirando uma caçamba de lixo, lançando jornais amassados sobre os ombros no beco. Modular aumentou a velocidade, lançando tiros direcionados por radar sobre os ombros quando ele pairava rapidamente através do ar frio que chuviscava. Desceu na calçada em frente à caçamba, seus joelhos amortecendo o impacto.

— Então, eu falei pra Maxine, falei… — a senhora dizia.

— Perdoe-me — disse o androide. Ele agarrou a mulher e voou ligeiro. Atrás dele, murchando sob a chuva de micro-ondas coesas, o broto do Enxame começou a evaporar.

— Maxine fala, minha mãe quebrou o quadril de manhã, você não vai acreditar… — A senhora debatia-se contra ele enquanto continuava o monólogo. Silenciosamente ele aguentou um cotovelo no maxilar e flutuou para uma aterrissagem no telhado seguinte. Deixou a passageira. Ela virou para ele, enrubescida de ódio.

— Tudo bem, babaca — disse ela. — Hora de ver o que a Hildy tem na bolsa.

— Mais tarde eu desço a senhora — disse Modular. Ele já estava virando para perseguir a criatura quando, de canto de olho, viu a senhora abrir a bolsa.

Havia algo preto lá dentro. O objeto preto estava ficando maior.

O androide tentou se mover, fugir voando. Algo o segurava e não o deixava escapar.

Fosse lá o que houvesse na sacola de compras, estava aumentando. Crescia com grande rapidez. Fosse o que segurasse o androide, puxava-o na direção da sacola de compras.

— Pare — disse ele, simplesmente. A coisa não parava. O androide tentou lutar contra ela, mas as descargas de laser lhe custaram muita energia, e ele não parecia ter força de sobra.

A escuridão cresceu até envolvê-lo. Ele sentiu como se estivesse caindo. Então, não sentiu mais nada.

Os ases de Nova York, respondendo à emergência, finalmente dominaram o broto do Enxame. O que restou dele, borbulhas verde-escuras, congelou-se em pedaços de gelo sujo. Suas vítimas, parcialmente comidas, foram identificadas pelos cartões de crédito não digeríveis e carteiras de identidade plastificadas que carregavam.

Ao cair da noite, os habitantes insensíveis do Bairro dos Curingas estavam chamando a criatura de O Incrível e Colossal Monstro de Meleca. Nenhum deles percebeu quando a mendiga desceu a escada de incêndio e vagou pelas ruas congelantes.

O androide acordou numa caçamba em um beco atrás da 52nd Street. As verificações internas mostraram danos: o laser de micro-ondas havia sido curvado numa onda senoidal, o monitor de fluxo estava quebrado, o módulo de voo ficou retorcido como se fosse pelas mãos de um gigante. Ele lançou a tampa da caçamba para trás com um estrondo. Cuidadosamente, olhou em volta no beco.

Ninguém à vista.

O deus Amon brilhava na mente de Hubbard. Os olhos de carneiro cintilavam com ódio, e o deus segurava a cruz ansata e o bastão com os pulsos cerrados.

— TIAMAT foi derrotado — disse ele. Hubbard recuou com a força da raiva de Amon. — O dispositivo Shakti não foi preparado a tempo.

Hubbard encolheu os ombros.

— A derrota foi temporária — disse ele. — A Irmã Obscura voltará. Poderia ser em qualquer ponto do sistema solar… os militares não têm como encontrá-la ou identificá-la. Não vivemos em segredo todos esses séculos apenas para sermos derrotados agora.

O apartamento estava bem-arrumado se comparado ao caos anterior. As notas de Travnicek foram reunidas com esmero e classificadas, ao máximo possível, por assunto. Travnicek começou folheando-as. Eram difíceis de entender.

— Então — disse Travnicek. Sua respiração congelava na frente do rosto e condensava-se nos óculos de leitura. Ele os tirou. — Você foi deslocado espacialmente cerca de cinquenta quarteirões e uma hora à frente no tempo, certo?

— Aparentemente, sim. Quando saí da caçamba, descobri que a luta no Bairro dos Curingas havia acabado quase uma hora antes. A comparação com meu relógio interno mostrou uma discrepância de 72min15,333s.

O androide tinha aberto o peito e havia substituído alguns componentes. Não era possível recuperar o laser, mas restituiu sua habilidade de voo e conseguiu improvisar um monitor de fluxo.

— Interessante. Você diz que a mendiga não parecia estar trabalhando com a tal bolha?

— Muito provavelmente foi uma coincidência estarem na mesma rua. O monólogo dela não parecia ser estritamente racional. Não acho que seja mentalmente sã.

Travnicek virou o controle de aquecimento na roupa de paraquedista. A temperatura havia caído sete graus em duas horas e o gelo se formava nas claraboias do apartamento no meio da tarde. Travnicek acendeu um cigarro russo, ligou o fogão de uma boca para esquentar água para o café, e então enfiou as mãos nos bolsos quentinhos da roupa.

— Quero olhar sua memória — disse. — Abra o peito.

Modular obedeceu. Travnicek tirou um par de cabos de um minicomputador encaixado sob uma série de equipamentos de vídeo e ligou-os aos soquetes no peito do androide, próximo de seu cérebro eletrônico blindado.

— Faça o backup da memória no computador — disse. Efeitos tremeluzentes do gerador de fluxo brilharam nos olhos atentos de Travnicek. O computador sinalizou tarefa concluída. — Pode fechar — ordenou Travnicek. Enquanto o androide removia os fios e fechava o peito, Travnicek ligou o vídeo, então apertou botões nos controles. Uma imagem em vídeo começou a correr ao contrário.

Ele chegou ao ponto onde a mendiga apareceu e correu a imagem diversas vezes. Foi até um terminal de computador e digitou instruções. A imagem do rosto da mendiga preencheu a tela. O androide olhou o rosto marcado e sujo da mulher, seus cabelos bagunçados, as roupas rasgadas e esfarrapadas. Pela primeira vez percebeu que lhe faltavam alguns dentes. Travnicek levantou-se, foi até o quarto nos fundos do apartamento e voltou com uma câmera Polaroid surrada. Usou as três fotos remanescentes e deu uma à sua criação.