— Aqui. Você pode mostrá-la para as pessoas. Pergunte se a viram.
— Sim, senhor.
Travnicek pegou um percevejo e afixou as outras duas fotos nas colunas baixas do teto.
— Quero que descubra onde a mendiga está e pegue o que está na bolsa dela. E quero que descubra onde ela achou. — Ele balançou a cabeça, jogando cinzas de cigarro no chão, e murmurou. — Não acho que tenha inventado isso. Acho que encontrou essa coisa em algum lugar.
— Senhor? O Enxame? Combinamos que eu partiria para o Peru em dois dias.
— Fodam-se os militares — Travnicek retrucou. — Não pagaram um centavo pelos nossos serviços. Nada além de uma parada nojenta, e os militares nem pagaram por isso, e sim a prefeitura. Vamos deixá-los perceber como é fácil combater o Enxame sem você. Então, talvez, nos levem a sério. — A verdade era que Travnicek não estava nem próximo de ser capaz de reconstruir sua obra. Levaria semanas, talvez até meses. Os militares exigiam garantias, planos, conhecimento da sua identidade. O problema da mendiga era mais interessante, de qualquer forma. Ele começou a repassar preguiçosamente a memória do androide.
Modular retraiu-se profundamente em sua mente computadorizada. Começou a falar rapidamente, esperando distrair seu inventor das imagens.
— No que diz respeito à mendiga, eu poderia tentar os centros de refugiados, mas poderia levar um tempo. Meus arquivos me dizem que existem normalmente 20 mil sem-teto em Nova York, e agora existe um número incontável de refugiados de Jersey…
— Puta merda! — exclamou Travnicek em alemão. O androide sentiu outra contração a caminho. Travnicek olhou para a televisão, surpreso.
— Você está transando com aquela atriz! — disse ele. — Aquela Cyndi Sei-lá-o-quê!
O androide resignou-se àquilo que estava prestes a vir.
— Sim — disse ele.
— Você não passa de uma torradeira — disse Travnicek. — O que te fez acreditar que poderia foder?
— Você me deu o equipamento — o androide disse. — E implantou emoções em mim. Além disso, você me criou com boa aparência.
— Hum — Travnicek tirou os olhos de Modular para o vídeo e de volta para ele. — Te dei o equipamento para que pudesse se passar por humano se precisasse. E dei emoções para que pudesse entender os inimigos da sociedade. Não achei que você faria qualquer coisa. — Ele jogou a ponta de cigarro no chão. Um olhar malicioso cruzou seu rosto.
— Se divertiu? — ele perguntou.
— Foi agradável, sim.
— Parece que a putinha loira gostou muito — Travnicek riu, cacarejando, e pôs as mãos no controle. — Quero começar essa festa do início.
— Não quer olhar para a mendiga novamente?
— Vamos às prioridades. Pega uma Urquell pra mim. — Ele olhou para cima, como se um pensamento lhe ocorresse. — Temos pipoca aí?
— Não! — O androide lançou a resposta abrupta sobre os ombros.
Modular trouxe a cerveja e observou enquanto Travnicek tomava o primeiro gole. O tcheco ergueu os olhos, incomodado.
— Não gosto do jeito que você está olhando para mim — disse ele.
O androide fez suas considerações.
— Prefere que olhe de outro jeito? — perguntou.
Travnicek ficou vermelho.
— Vai para aquele canto, forno de micro-ondas comedor! — berrou. — Vire a cabeça pra lá, videocassete tarado!
Pelo resto da tarde, enquanto sua criação estava em pé num canto do apartamento, Travnicek assistiu ao vídeo. Ele se divertiu imensamente. Assistiu às melhores partes diversas vezes, gargalhando com o que via. Então, aos poucos, suas gargalhadas se turvaram. Uma sensação fria, incerta subiu por trás de seu pescoço. Começou lançando olhares para a figura impassível do androide. Tirou os olhos da unidade de vídeo, deixou cair a ponta do cigarro na garrafa de Urquell, então acendeu outro.
O androide estava mostrando um nível surpreendente de independência. Travnicek analisou os elementos de sua programação, concentrando-se no arquivo ETCETERA. O abstrato da emoção humana de Travnicek foi compilado de uma variedade de fontes de especialistas que se estendiam de Freud ao Dr. Spock. Foi um desafio intelectual para Travnicek fazer a programação — transformar as irracionalidades do comportamento humano na retórica fria de um programa. Realizou a tarefa durante o segundo ano na A&M do Texas, quando mal saiu do quarto durante todo o ano e sabia que tinha uma missão imensa para não enlouquecer com o ambiente lunático de uma universidade que parecia uma incorporação das fantasias do inconsciente coletivo de Stonewall Jackson e Albert Speer. Não teria ficado na A&M por dez minutos se soubesse antes que era um erro — os estudantes de cabeça raspada com seus uniformes, botas e sabres lembravam muito a SS que mal deixara Travnicek vivo embaixo do corpo de sua família em Lídice, sem mencionar as forças de segurança soviéticas e tchecas que seguiram os alemães. Travnicek sabia que para sobreviver no Texas precisaria encontrar algo imenso para trabalhar e não permitir que suas memórias o engolissem vivo.
Travnicek nunca se interessou particularmente por psicologia humana dessa forma — paixão, decidira havia muito, não era apenas algo bobo, mas genuinamente enfadonho, perda de tempo. No entanto, colocar paixão num programa, sim, isso era interessante.
Mal conseguia se lembrar daquele período. Quantos meses gastou no transe criativo, um canal para o próprio espírito mais profundo? O que forjou durante esse tempo? Que diabos havia no ETCETERA?
Por um momento, um tremor de medo percorreu o corpo de Travnicek. O fantasma da criação de Victor Frankenstein avultou-se por instantes em sua mente. Uma rebelião por parte do androide era possível? Paixões hostis poderiam desdobrar-se contra o criador? Mas não, havia imperativos predominantes que Travnicek inscrevera no sistema. Modular não poderia se desviar de suas diretivas primárias enquanto sua consciência computadorizada estivesse fisicamente intacta, assim como um ser humano não poderia, desassistido, evoluir sua constituição genética em uma única vida.
Travnicek começou a sentir um conforto crescente. Olhou para o androide com uma espécie de admiração. Sentiu orgulho em ter programado um pupilo tão rápido.
— Você não é ruim, torradeira — disse ele, finalmente, desligando o vídeo. — Lembra a mim mesmo nos velhos tempos. — Ele levantou um dedo admoestador. — Mas nada de transar hoje à noite. Vá encontrar a mendiga.
A voz do Modular saiu abafada, pois estava de frente para a parede.
— Sim, senhor — disse ele.
Neon lançou seu brilho sobre o respirar congelado dos integrantes da gangue de limpos que estava na frente da placa em tons pastéis que indicava o Run Run Club. O detetive John F. X. Black, dirigindo sua viatura sem identificação e esperando o semáforo abrir para virar na Schiff Parkway, automaticamente correu os olhos sobre a multidão, registrando rostos, nomes, possibilidades… Acabara de encerrar o expediente e saiu com um carro sem identificação, pois deveria passar o dia seguinte congelando o traseiro num plantão, o que na TV chamavam de vigilância policial. Ricky Santillanes, ladrãozinho liberado com fiança desde o dia anterior, sorriu para Black com uma boca cheia de dentes cobertos de aço e deu o dedo para o detetive. Deixa curtir, Black pensou. As gangues de limpos eram malhadas pelos Príncipes Demoníacos do Bairro dos Curingas toda vez que se encontravam.
Black viu num pôster que a banda que tocava naquela noite chamava Mãe do Enxame — ninguém poderia dizer que os grupos hardcore eram lentos na percepção do zeitgeist. Foi puro acaso que Black tivesse olhado o pôster no momento em que o policial Frank Carroll cambaleou na luz. Carroll parecia maluco — estava com o quepe na mão, cabelo bagunçado, e o sobretudo respingado com algo que reluzia num amarelo brilhante sob a placa reflexiva. Parecia estar a caminho da delegacia a poucos quarteirões dali. Os limpos riram quando passaram por ele. Black sabia que o setor atribuído a Carroll estava a quarteirões de distância e não o traria nem próximo desta esquina.