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Carroll estava na corporação havia dois anos, entrou assim que acabou a escola. Era um homem branco com cabelos ruivo-escuros, um bigode aparado, constituição média levemente corpulenta por treinamento irregular de musculação. Parecia sério com o trabalho na polícia, era diligente e metódico, e fazia muita hora extra desnecessária. Black o definia como dedicado, mas sem imaginação. Não era do tipo que perambulava por aí com olhos arregalados à meia-noite numa noite de inverno.

Black abriu a porta, levantou-se e chamou Carroll. O policial virou-se, olhando de forma enlouquecida, e então uma expressão de alívio surgiu em seu rosto. Correu para o carro de Black e puxou de uma vez a porta do passageiro quando Black a destrancou.

— Jesus Cristo! — Carroll disse. — Acabei de ser lançado num monte de lixo por uma mendiga.

Black riu por dentro. O semáforo mudou, e ele fez a volta.

— Ela te pegou de surpresa? — perguntou.

— Foi isso. Estava num beco no fim da Forsyth. Tinha uma caixinha de fósforo e um monte de papel embolado, e estava tentando botar fogo numa caçamba inteira para se aquecer. Disse para ela parar e tentei fazê-la entrar na viatura para levá-la ao abrigo perto do Rutger Park. E, então, ! A bolsa me pegou. — Ele olhou para Black e mordeu o lábio. — Acha que ela pode ser algum curinga, TN?

“TN” era tenente no Departamento de Polícia de Nova York.

— Como assim? Ela bateu em você com a bolsa, certo?

— Não. É a bolsa… — O olhar amalucado estava novamente nos olhos de Carroll. — A bolsa me comeu, TN. Algo me puxou para dentro da bolsa e me engoliu. Era… — Ele buscava as palavras. — Sem dúvida, paranormal. — Ele olhou para o uniforme. — Olha isto aqui, TN. — Seu distintivo tinha sido retorcido de uma maneira estranha, como um relógio numa pintura de Dalí. Assim como dois dos botões. Ele os tocava com uma espécie de assombro.

Black entrou numa zona de carga e puxou o freio de mão.

— Me fale mais sobre isso.

Carroll parecia confuso. Esfregou a testa.

— Senti algo me agarrar, TN. E, então… fui sugado direto para a bolsa. Vi a bolsa ficando cada vez maior e… a próxima coisa que sei é que estava nesse monte de lixo em Ludlow, a norte de Stanton. Estava correndo para a delegacia quando você me parou.

— Você foi teletransportado da Forsyth para a Ludlow, a norte da Stanton.

— Teletransportado. Isso aí, essa é a palavra. — Carrol parecia aliviado. — Então, você acredita em mim. Meu Deus, TN, tinha certeza de que ia tomar um gancho por isso.

— Estou há muito tempo no Bairro dos Curingas, vi um monte de coisas estranhas. — Black deu partida no carro novamente. — Vamos achar a tal mendiga — disse ele. — Foi há poucos minutos, certo?

— Sim. E minha viatura ainda está lá. Merda. Os curingas provavelmente já a depenaram.

O brilho da caçamba em chamas, laranja nas paredes de tijolos do beco, era visível da Forsyth. Black parou numa zona de embarque.

— Vamos a pé.

— Não é melhor ligarmos para os bombeiros?

— Ainda não. Pode não ser seguro para eles.

Black na frente, caminharam até o fim do beco. A caçamba queimava, as chamas subindo a quase cinco metros no meio de uma nuvem de cinzas pairando. A viatura de Carroll estava intacta, como se por mágica, mesmo com a porta traseira aberta. Em pé, na frente da caçamba, trocando o peso do corpo de um pé para o outro, estava uma mulher branca e pequena com uma sacola de compras cheia em cada mão. Vestia diversas camadas de roupas maltrapilhas. Parecia estar murmurando consigo mesma.

— É ela, tenente!

Black observou a mulher e não disse nada. Ele se perguntava como abordá-la.

As chamas subiam ainda mais, estalando, e de repente luzes estranhas e piscantes, como fogo de santelmo, planaram em círculos em volta da mulher e de suas bolsas. Então, algo numa das bolsas pareceu se erguer, uma sombra escura, e o fogo curvou-se como a chama de uma vela ao vento forte, e foi sugado pela bolsa. Num instante, fogo e sombra desapareceram. As luzes estranhas coloridas brincavam gentilmente sobre a figura da mulher. Cinzas oleosas caíam na calçada.

— Puta merda — murmurou Carroll. Black tomou uma decisão. Fuçou no bolso e pegou a carteira e as chaves de sua unidade sem identificação. Deu uma nota de dez para Carroll.

— Pegue minha viatura. Vá até o Burger King na West Broadway e pegue dois hambúrgueres duplos, duas batatas grandes e um café grande para viagem.

Carroll ficou olhando para ele.

— Normal ou forte, TN?

— Vai logo! — Black ralhou. Carroll saiu depressa.

Atrair a mulher da bolsa para a viatura sem identificação de Black custou os dois hambúrgueres, o café e um pacote de fritas. Ele pensou que ela provavelmente não entraria num azul e branco como o de Carroll. Havia trancado o casaco do uniforme e a arma de Carroll no porta-malas para não alarmar a mulher, e Carroll estava tremendo quando se sentou no banco do passageiro.

No banco de trás, a mulher estava murmurando para si mesma e devorando as batatas. Seu cheiro era terrível.

— Para onde agora? — Carroll perguntou. — Um dos centros de refugiados? A clínica?

Black deu partida no carro.

— Algum lugar especial. Na parte alta. Existem coisas sobre essa mulher que não sabemos.

Carroll gastou a maior parte de sua energia tremendo enquanto Black saía a toda velocidade do Bairro dos Curingas. A mendiga dormiu no banco de trás. Seu ronco assobiava por entre os dentes faltantes. Black parou na frente de um prédio com fachada de arenito pardo na East 57th.

— Espere aqui — disse. Desceu as escadas até uma entrada de apartamento de porão e apertou a campainha. Uma guirlanda natalina de plástico estava pendurada na porta. Alguém olhou pelo olho mágico na porta, que se abriu em seguida.

— Não estava esperando você — disse Coleman Hubbard.

— Tenho alguém com… poderes… no banco de trás. Ela não está em sã consciência. Pensei que poderíamos colocá-la no quarto dos fundos. E tem um policial comigo que não consegue saber o que acontece.

Os olhos de Hubbard voejaram na direção do carro.

— O que você disse a ele?

— Disse para ficar no carro. É um bom garoto, e é isso que vai fazer.

— Tudo bem. Vou pegar um casaco.

Enquanto Carroll observava com curiosidade, Hubbard e Black atraíram a mendiga para o apartamento de Hubbard, usando como isca a comida de sua geladeira. Black perguntou-se o que Carroll diria se pudesse ver a decoração no apartamento especial trancado ao lado, o escuro quarto à prova de som, com velas, altar, o pentagrama pintado no chão, as calhas de liga embutidas, as correntes brilhantes fixadas a ganchos… Não era tão elaborado quanto o templo que a Ordem tinha no centro antes de ele explodir, mas de qualquer forma era apenas uma sede temporária, até o novo templo na cidade alta ser terminado.

No apartamento de Hubbard havia dois quartos prontos para hóspedes, e a mendiga foi colocada num deles.

— Ponha um cadeado na porta — Black disse. — E chame o Astrônomo.

— Lorde Amon já chamou — Hubbard comentou, e deu um tapinha na própria cabeça.

Black voltou ao carro e seguiu novamente para o Bairro dos Curingas.

— Pegaremos sua viatura — Black falou. — Então, seguimos para a delegacia para o seu relatório.

Carroll olhou para ele.

— Quem era aquele cara, tenente?

— Um especialista em doenças mentais e curingas.

— Aquela senhora pode machucá-lo.

— Ele estará mais seguro que nós dois.