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Black parou na frente da viatura de Carroll. Saiu e abriu o porta-malas, tirando o casaco e o quepe de Carroll, e passou-os para o jovem policial. Então pegou uma flauta — no Departamento de Polícia de Nova York, uma garrafa inocente de refrigerante cheia de bebida alcoólica — que planejava usar para se manter aquecido durante o plantão do dia seguinte. Ofereceu a flauta para Carroll. O patrulheiro, agradecido, aceitou a garrafa. Black esticou a mão até o coldre de Carroll.

— Foi sorte encontrar você, TN.

— Sim, foi mesmo.

Black atirou quatro vezes no peito de Carroll com a arma deste, então, após o policial estar caído, deu mais dois tiros na cabeça. Limpou as impressões digitais da arma e jogou-a no chão, pegou a garrafa de Coca-Cola e voltou para o carro. Talvez, com o rum derramado, pareceria que Carroll parou um bêbado, e este conseguiu tomar a arma dele.

O carro cheirava a cheeseburger. Black lembrou-se de que não havia jantado.

A mendiga ignorou a cama e foi dormir num canto do quarto. As bolsas estavam empilhadas à frente e em cima dela como uma fortaleza. Hubbard estava sentado num banco, observando-a intensamente. Seu sorriso deformado havia congelado numa paródia desagradável de si mesmo. A dor pulsava no seu cérebro. O esforço de ler sua mente lhe custava.

Sem voltar atrás, ele pensou. Tinha de ver isso até o fim. Seu fracasso com o capitão McPherson lhe custou a estima da Ordem e de Amon; e quando Black apareceu com a mendiga, Hubbard percebeu que esta era a chance de reaver seu lugar. Hubbard mentiu para Black quando disse ao detetive que tinha alertado Amon.

Havia poder ali. Talvez o suficiente para fornecer energia ao dispositivo Shakti. E, se o dispositivo Shakti fosse energizado pela coisa na sacola, então Amon não seria mais necessário.

A coisa na sacola podia engolir pessoas, Hubbard sabia disso. Talvez pudesse até comer Amon. Hubbard pensou no incêndio no velho templo, Amon andava a passos largos pelas chamas com os discípulos atrás dele, ignorando os gritos de Hubbard.

Sim, Hubbard pensou. Valeria o risco.

O detetive Harry Matthias, conhecido na Ordem como Judas, estava sentado na cama, de queixo nas mãos. Ele deu de ombros.

— Ela não é um ás. Nem aquilo que está na bolsa.

Hubbard falou mentalmente para ele. Sinto duas mentes. Uma é a delaé desordenada. Não consigo tocá-la. A outra está na bolsaestá em contato com ela, de alguma forma… existe uma ligação empática. A outra mente também parece estar danificada. Como se estivesse adaptada a ela.

Judas levantou-se. Estava vermelho de ódio.

— Por que, em nome de Deus, não pegamos a maldita bolsa e pronto?

Ele foi até a mendiga com as mãos fechadas.

Hubbard sentiu um estalo elétrico de consciência na mente. A mendiga acordou. Por meio do seu elo mental com Judas, sentiu o homem hesitar com a malevolência súbita nos olhos da velha. Judas alcançou a bolsa.

A bolsa alcançou Judas.

Uma escuridão mais rápida que o pensamento cresceu no quarto. Judas desapareceu nela. Hubbard encarava o espaço vazio. Na sua mente, a loucura afiada da mulher dançava.

Judas estremeceu e seus lábios estavam azuis. O enfeite de natal estava pendurado em seu cabelo. Um pedaço de papelão grudou na sola do sapato. Fora transportado para uma caçamba na Christopher Street e deixou de existir por cerca de vinte minutos. Pegou um táxi de volta.

Poder, Hubbard pensou. Poder incrível. A coisa na sacola distorce de alguma forma o espaço-tempo.

— Por que no lixo? — Judas disse. — Por que pilhas de merda? E olhe para minha arma… — Ele viu o papelão e tentou arrancá-lo do sapato. Ele se descolou com um ruído grudento.

— Ela está estabelecida no lixo, eu acho — disse Hubbard. — E, às vezes, parece retorcer objetos inanimados. Consegui sentir que está quebrado — talvez haja um problema com ele.

Ele precisava descobrir alguma forma de dominar a mendiga. Esperar até ela dormir não adiantou — ela acordou no primeiro movimento ameaçador de Judas. Ele imaginou vagamente um gás venenoso, e então foi acometido por uma ideia.

— Você tem acesso a uma arma de tranquilizantes na delegacia?

Judas balançou a cabeça.

— Não. Acho que talvez os bombeiros tenham alguma para quando lidam com animais fugitivos.

A ideia cristalizou-se na mente de Hubbard.

— Quero que você e Black roubem uma para mim.

Na verdade, ele faria Black atirar — se a coisa na sacola retaliasse, atacaria Black. E, então, com a mendiga dormindo, Hubbard pegaria o dispositivo…

E então, seria a vez de Hubbard. Poderia usar todo o tempo necessário, jogando com a mente da mendiga, e ela teria o suficiente no cérebro para se deixar saber o que estava acontecendo com ela. Ah, sim.

Poderia testar o poder do dispositivo capturado nas pessoas que ele agarrasse na rua. E, depois disso, talvez fosse a vez de Amon.

Lambeu os lábios. Mal podia esperar.

As legiões da noite pareciam infinitas em quantidade. O conhecimento abstrato do androide da classe baixa de Nova York, o fato de que havia milhares de pessoas que perambulavam entre as torres de vidro e fachadas sólidas de arenito numa existência quase tão remota para os habitantes dos prédios quanto aquela dos alienígenas de Marte… Os fatos abstratos digitalizados não eram, de alguma forma, adequados para descrever a realidade, os aglomerados de homens que passavam garrafas em torno de fogos em latas de lixo, os despossuídos cujos olhos refletiam luzes cintilantes de Natal, enquanto viviam atrás de paredes de papelão, os insanos que se abraçavam em becos ou entradas de metrô, entoando a litania dos loucos. Era como se um feitiço do mal tivesse caído sobre a cidade, aquela parte da população que fora exposta à guerra ou à devastação, feitos refugiados sem-teto, enquanto outros foram encantados para que não os vissem.

O androide encontrou dois mortos, o resto de seu calor saindo deles. Ele os deixou em seus caixões de jornal e prosseguiu. Encontrou outros que estavam morrendo ou doentes e os levou para o hospital. Outros correram dele. Alguns fingiam olhar para a imagem da mendiga, levantando a foto Polaroid para olhar a imagem contra a luz do fogo na lata de lixo, e então pediam dinheiro em troca de relacionar uma visão que era obviamente falsa.

A tarefa, ele pensou, era quase inútil.

Seguiu em frente.

Black e Hubbard esperaram fora do quarto trancado da mendiga. Black estava tomando sua flauta de rum e Coca-Cola.

— Sonhos, cara. Sonhos incríveis. Jesus. Monstros como você não acreditaria… corpos de leão, rostos humanos, asas de águia, todo tipo de coisa que possa imaginar… e todos estavam famintos, e todos queriam me devorar. E, então, havia aquela coisa gigante atrás deles, como uma sombra, como, e daí… Jesus. — Ele abriu um sorriso nervoso e bateu na própria testa. — E daí percebi que todos os monstros estavam de alguma forma conectados, que eram todos uma parte daquela coisa. Foi quando acordei gritando. Acontecia repetidamente. Estava quase pronto para ver os psicólogos do departamento.

— Sua mente sonhadora tocou TIAMAT.

— Sim. É o que Matthias… Judas… me disse quando me recrutou. De alguma forma, ele sentiu TIAMAT chegando em mim.

Hubbard deu seu sorriso torto. Black ainda não sabia que o Espectro entrava na sua mente todas as noites, colocando sonhos em sua mente, fazendo-o acordar gritando noite após noite, e levou-o à beira de uma psicose, de forma que, quando Judas explicou aquilo que acontecera a ele e como a Ordem poderia fazer os sonhos desaparecerem, os maçons pareceriam a única resposta possível. Tudo porque a Ordem precisava de alguém de posto mais alto que o de Matthias no Departamento de Polícia de Nova York, e Black era um policial corajoso, marcado para progredir…