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— E então fui vetado. — O detetive balançou a cabeça. — Balsam e os outros, maçons da velha guarda, não queriam um cara que tivesse criação católica. Filhos da mãe. E TIAMAT já estava a caminho. Ainda não consigo acreditar.

— Ter o nome em homenagem a Francisco Xavier não ajudou, eu suponho.

— Ao menos nunca descobriram que minha irmã é freira. Isso teria acabado comigo de uma vez. — Ele terminou a flauta e caminhou na direção da sala de estar para jogar a garrafa no lixo.

— E eu consegui na segunda tentativa.

Você nunca saberá por quê, pensou Hubbard. Você nunca saberá que Amon estava usando sua associação como ferramenta contra Balsam, que ele queria o ex-Mestre, com seus preconceitos irracionais e maneiras de velho e estupidez mística herdada, totalmente fora do caminho. Como usou a decisão contra Black para convencer Kim Toy, Red e o Espectro de que Balsam precisava sair. E, então, houve o incêndio no velho templo, de alguma forma orquestrado por Amon, e Amon salvou os seus das chamas, e Balsam e todos os seus seguidores morreram.

Hubbard lembrou-se da explosão, do incêndio, da dor, do jeito que sua carne enegreceu na chama de maçarico. Ele gritou por ajuda, vendo a figura astral gigante de Amon liderando os próprios discípulos para fora, e se Kim Toy não tivesse insistido em voltar por ele, teria morrido naquele momento. Amon não confiava plenamente nele, não naquela época. Hubbard tinha acabado de entrar na Ordem, e Amon não tivera a chance de jogar com ele ainda, de entrar em seu cérebro e fazê-lo se retorcer, fazer jogos mentais infinitos e torcê-lo em nós com uma longa série de humilhações… Sim, pensou, assim é Amon. Eu sei, porque também sou assim.

Bateram à porta. Hubbard supôs que fosse Judas, que trazia a arma tranquilizadora roubada em sua caixa de metal vermelha com os adesivos APENAS PARA USO OFICIAL.

— Ufa. Que saco. Pensei que o capitão McPherson nunca me deixaria sair.

Black e ele tiraram a grande pistola de ar preta da caixa, colocando em seguida um dardo na câmara.

— Isso deve apagá-la por horas — Black disse, confiante. — Vou dar um pouco de comida, então acertá-la da porta quando estiver comendo.

Ele prendeu a pistola na parte de trás do cós da calça, pegou um prato de papel de pizza fria do refrigerador, e caminhou até a porta da mendiga. Destrancou o cadeado pesado e, cuidadosamente, abriu a porta. Hubbard e Matthias, de forma inconsciente, deram um passo para trás, meio que esperando Black desaparecer em qualquer estranheza de espaço-tempo que habitava a bolsa… mas a expressão de Black mudou, ele enfiou a cabeça no quarto, olhou para a direita e para a esquerda. Quando voltou para o corredor, sua expressão era de perplexidade.

— Ela sumiu — disse ele. — Não está em nenhum lugar do quarto.

Modular olhou para os drinques alinhados no bar diante dele. Irish coffee, martíni, margarita, boilermaker, conhaque Napoleon. Queria experimentar a sério esses novos gostos naquele momento e perguntou-se se ter suas peças esmagadas pela engenhoca da mendiga despertara nele um sentido de mortalidade.

— Estou começando a perceber — disse o androide, levando o Irish coffee até os lábios — que meu criador é um sociopata sem cura.

Cyndi refletiu sobre aquilo.

— Se você não se importa com um pouco de teologia, acho que isso só te coloca no mesmo barco que todos nós.

— Ele está começando a… bem, deixa isso pra lá. Mas acho que o homem é doente. — O androide limpou o creme do lábio superior.

— Você poderia fugir. Pelo que eu saiba, escravidão é ilegal. Ele não te paga nem um salário mínimo, eu suponho.

— Não sou uma pessoa. Não sou humano. Máquinas não têm direitos.

— Isso não significa que precisa fazer tudo que ele diz, Modular.

O androide balançou a cabeça.

— Não vai funcionar. Tenho inibições estruturais contra desobediência a ele, desobediência a instruções ou revelação da identidade dele de qualquer maneira.

Cyndi parecia assustada.

— Ele é meticuloso, preciso admitir isso. — Ela olhou para Modular cuidadosamente. — Por que ele te construiu?

— Ia me produzir em massa e vender para os militares. Mas acho que está se divertindo tanto brincando comigo que pode chegar a nunca vender meus direitos para o Pentágono.

— Eu agradeceria, se fosse você.

— Eu não saberia. — O androide pegou outra bebida, então mostrou a Polaroid da mendiga para Cyndi.

— Preciso encontrar esta pessoa.

— Parece uma mendiga.

É uma mendiga.

Ela riu.

— Você não ouviu o noticiário? Sabe quantos milhares de mulheres assim existem nesta cidade? Tem uma recessão acontecendo lá fora. Bêbados, fugitivos, pessoas sem emprego ou sem sorte, pessoas que foram chutadas das instituições para doentes mentais por conta dos cortes no financiamento do Estado… Os abrigos dão preferência aos refugiados do Enxame e não aos sem-teto. Meu Deus… e numa noite como esta também. Sabe que já é a noite de dezembro mais fria da história? Tiveram de abrir igrejas, delegacias… todo tipo de lugares para que os errantes não morressem de frio. E muitos deles não vão para qualquer tipo de abrigo, porque estão muito assustados com as autoridades ou porque são loucos demais para perceber que vão ajudá-los. Não invejo você, Modular, não mesmo. As caçambas de lixo estarão cheias de cadáveres amanhã.

— Eu sei. Encontrei alguns.

— Se quiser encontrá-la antes de ela morrer congelada, tente as latas de lixo com fogueiras, depois os abrigos. — Ela franziu a sobrancelha novamente para olhar a foto. — Por que quer encontrá-la?

— Acho… que ela pode ser testemunha de algo.

— Certo. Muito bem. Boa sorte, então.

O androide olhou sobre o ombro para o deck de observação com sua camada brilhante de gelo. Além do parapeito, Manhattan cintilava friamente para ele, com uma claridade que não tinha visto antes, como se os prédios, as pessoas, as luzes, todas estivessem congeladas dentro de um imenso cristal. Era como se a cidade não estivesse mais perto que as estrelas, e como se fosse tão incapaz de dar calor quanto elas.

Dentro da sua mente, o androide teve um tremor puramente mental. Queria ficar ali, no aconchego do Aces High, experimentando os movimentos perfeitamente abstratos — para ele — de levantar uma bebida quente até os lábios. Havia algo reconfortante nisso, apesar da inutilidade lógica do ato. Não entendia completamente o impulso, apenas o conhecia. Provavelmente a parte humana de sua programação.

Contudo, havia restrições impostas sobre seus desejos, e uma delas era a obediência. Poderia ficar no Aces High apenas se isso pudesse ajudá-lo na missão de encontrar a mendiga.

Terminou a fileira de bebidas e se despediu de Cyndi. A menos que um milagre acontecesse e encontrasse a mendiga logo, passaria o resto da noite nas ruas.

Quatro horas da manhã. O carro passou por uma valeta e derrubou café quente na coxa de Coleman Hubbard. Ele ignorou. Levantou o copo grande de isopor do meio das pernas e tomou apressadamente. Tinha de ficar acordado.

Procurava pela mendiga, passando em cada abrigo, descendo cada rua escura, vasculhando com a mente, esperando encontrar o padrão de loucura e raiva que tinha visto no cérebro perturbado dela.

Estava fazendo isso por boa parte das últimas 24 horas. O aquecedor no carro velho alugado já pifara. Seu corpo era uma massa de cãibras e o crânio pulsava num ritmo de bate-estaca lento. O fato de que Black e Judas estivessem congelando na mesma missão não servia de consolo.