Hubbard esmagou o copo de café entre as coxas, ligou a luz interna do carro e olhou para o papel com a lista de abrigos. Havia uma escola para meninas cheia de refugiados nas proximidades, e ele ainda não a havia rastreado.
Quando se aproximou do local, Hubbard começou a sentir uma familiaridade perturbadora, algo como um déjà vu. A dor de cabeça pulsava em seus olhos. O estômago embrulhou. Demorou poucos segundos antes de ele reconhecer a sensação.
Ela estava ali. A euforia o arrebatou. Ele desviou a mente dos padrões deturpados da mente da mendiga e a expandiu para onde Black patrulhava, a arma de dardo carregada no assento ao lado dele.
— Rápido! — gritou. — Encontrei a mulher!
Modular caminhou pelas longas fileiras, rastreando à esquerda e à direita. Oitocentos refugiados foram socados no ginásio da escola secundária. Havia catres para a metade, aparentemente trazidos de algum depósito da Guarda Nacional, e o restante dos refugiados dormia no chão. O grande salão ecoava o som de roncos, gritos e choramingos das crianças.
E ela estava lá. Caminhando entre as fileiras de catres, murmurando consigo mesma, arrastando as bolsas pesadas. Ela ergueu os olhos no mesmo momento em que o androide a viu, e houve um choque mútuo de reconhecimento, um sorriso de dentes corroídos, malevolente.
O androide levantou voo num picossegundo de seu pensamento na velocidade da luz. Queria estar longe de qualquer inocente, se ela soltasse aquela coisa que tinha na bolsa. Mal tinha saído do chão antes de o campo de fluxo de força conectar-se, estalando em volta do seu corpo. A coisa na bolsa não conseguiria agarrar qualquer coisa sólida.
O radar fez a busca, o lançador de granada de gás em seu ombro esquerdo zumbiu enquanto mirava. Seu ombro absorveu o tranco. A granada tomou substância assim que saiu do campo de fluxo, mas manteve a velocidade. O gás opaco cercou a mendiga.
Ela sorriu para si mesma. Uma escuridão estendeu-se ao redor dela, e o gás mergulhou no escuro, sugado pela bolsa como por uma calha.
O pânico ergueu-se entre os refugiados, quando acordaram com a batalha.
A mendiga abriu a sacola de compras. O androide conseguiu ver a escuridão que havia lá dentro. Sentiu algo frio passar por ele, algo que tentava puxar sua forma insubstancial. As vigas de aço que sustentavam o teto tilintaram como sinos sobre a cabeça dele.
O sorriso deformado da mendiga desapareceu.
— Filho da puta — disse ela. — Você lembra o Shaun.
Modular ergueu voo até se aproximar do teto. Mergulharia até ela, se solidificaria no último segundo, agarraria a bolsa e esperaria que ela não o engolisse.
A mendiga começou a esgarçar os dentes num sorriso novamente. Quando o androide chegou ao ponto de mergulho logo acima dela, ela abriu a bolsa sobre a cabeça.
Ela foi engolida. Sua cabeça desapareceu dentro da sacola, seguida pelo restante do corpo. Suas mãos, agarradas nas bordas, puxou a bolsa atrás dela para o vazio. A bolsa dobrou-se em si mesma e desapareceu.
— Não é possível — alguém disse.
O androide buscou cuidadosamente pela sala. A mendiga havia sumido.
Ignorando a perturbação crescente lá embaixo, alçou voo, atravessando o teto. As luzes frias de Manhattan surgiram ao seu redor. Ele voou sozinho noite adentro.
Hubbard olhou por um longo tempo, infinito, para o espaço onde a mendiga estava. Então, é assim que ela faz, pensou.
Esfregou as mãos geladas e pensou nas ruas, as ruas com o frio sem fim, as longas horas gélidas de sua busca. A mendiga deve ter ido para Jersey, pelo que ele podia prever.
Aquela seria uma longa noite.
— Mulherzinha maldita! — disse Travnicek. Sua mão, que segurava uma carta, tremia de ódio. — Estou sendo despejado! — Ele brandia a carta. — Perturbações! — murmurou. — Equipamento sem segurança! Sessenta dias, que merda! — Ele começou a pisotear com suas botas pesadas, tentando deliberadamente trepidar o apartamento de baixo. Sua respiração congelava a cada palavra. — Aquela puta! — urrou. — Conheço o jogo dela! Quer que eu arrume o apartamento com dinheiro do meu bolso para que ela possa me despejar e então cobrar um aluguel maior. Não gastei uma fortuna em benfeitorias para agora ela querer encontrar outro babaca. Algum membro da classe dos malditos aburguesados.
Ele olhou para o androide que, pacientemente, esperava com um pacote de croissants e café quentes.
— Quero que vá até o escritório dela hoje à noite e acabe com aquele lugar — disse Travnicek. — Não deixe nada intacto, nem um pedaço de papel, nem uma cadeira. Quero apenas móveis estraçalhados e confete. E quando ela estiver limpando o escritório, faça o mesmo com o apartamento.
— Sim, senhor — o androide disse, resignado.
— O estúpido Lower East Side — Travnicek falou. — O que vai restar, se este bairro começar a ficar pretensioso? Vou ter que me mudar para o Bairro dos Curingas para ter um pouco de paz. — Pegou o café da mão do androide, enquanto continuava a pisotear o chão de compensado.
Ele olhou sobre o ombro para sua criação.
— E você? — rugiu. — Está procurando pela mendiga ou o quê?
— Sim, senhor. Mas como o lançador de gás não funcionou, pensei em mudar para a luz ofuscante.
Travnicek pulou para lá e para cá várias vezes. O som ecoava pelo apartamento.
— Como quiser. — Ele parou de pular e sorriu. — Tudo bem — disse ele. — Sei o que fazer. Vou ligar os geradores grandes!
O androide pousou o saco de papel na bancada de trabalho, trocou as armas e voou silenciosamente até atravessar o teto. Lá fora, o vento frio continuava a chicotear a cidade, inundando os espaços entre os prédios altos, sacudindo as pessoas como juncos na água. A temperatura mal subira além do congelamento, e o frio do vento derrubava a temperatura efetivamente abaixo de zero.
Mais pessoas, o androide sabia, morreriam.
— Ei — disse Cyndi. — Que tal fazermos uma pausa?
— Tudo bem.
Cyndi levantou as mãos, tomando a cabeça do androide entre elas.
— Todo esse esforço — ela falou. — Você não sua nem um pouco?
— Não. Só ligo minhas unidades de refrigeração.
— Incrível. — O androide deslizou para fora dela. — Fazer isso com uma máquina — ela comenta, pensativa. — Sabe, teria pensado que isso é, no mínimo, um pouco bizarro. Mas não é.
— Legal da sua parte dizer isso. Eu acho.
Modular procurou pela mendiga durante 48 horas e concluiu que precisaria de algumas horas para si. Justificou a parada como necessária para o seu moral. Planejava mover o corpo da memória noturna de seu local sequencial para outro lugar, e preencher o espaço vazio com uma reprise chata da patrulha da noite anterior atrás da mendiga. Com sorte, Travnicek apenas passaria rápido a patrulha e não procuraria a parte pornô da memória.
Ela se sentou na cama, esticando a mão para pegar algo no criado-mudo.
— Quer coca?
— Para mim é desperdício. Vá em frente.
Ela ajustou o espelho cuidadosamente à sua frente e começou a alinhar o pó branco. O androide observava enquanto ela cheirava algumas carreiras e se recostava nos travesseiros com um sorriso. Olhou para ele e pegou sua mão.
— Você não precisa mesmo ser tão ligado em desempenho, viu? — disse ela. — Quer dizer, você poderia ter gozado se quisesse.
— Eu não gozo.
O olhar dela estava um pouco opaco.
— Quê? — ela perguntou.
— Eu não gozo. Orgasmo é uma complexa descarga aleatória de neurônios. Não tenho neurônios e nada que faço é realmente aleatório. Não funcionaria.
— Puta merda — Cyndi piscou para ele. — Então, como é?