— Agradável. De uma forma muito complicada.
Ela tombou a cabeça e pensou sobre essa frase por um momento.
— É isso, então — disse ela. Ela fungou outro par de carreiras e olhou para ele com vivacidade. — Consegui um emprego — falou. — Por isso consegui pagar a coca. Um presente de Natal para mim mesma. — Ela sorriu.
— Parabéns.
— É na Califórnia. Um comercial. Eu fico na mão desse gorila gigante, sabe, e sou resgatada pelo Bud Man. Sabe, o cara dos comerciais de cerveja. E, então, no final… — Ela revira os olhos. — No final ficamos todos felizes e bêbados, o Bud Man, o gorila e eu, e pergunto pro macaco como ele está, e o macaco arrota. — Ela franziu a sobrancelha. — É meio nojento.
— Eu ia dizer isso.
— Mas então há uma chance para atriz convidada no Twenty-Dollar Hotel. Preciso ter um caso com um valentão ou algo assim. Meu agente não explicou direito. — Ela deu um risinho. — Pelo menos não há nenhum gorila gigante nesse. Digo, um foi o bastante.
— Vou sentir saudades — o androide disse. Ele não estava bem certo em como se sentia a esse respeito. Ou mesmo se o que sentiu poderia de qualquer forma ser descrito como sentimento. Cyndi pressentiu seus pensamentos.
— Você vai precisar salvar outras mulheres bacanas.
— Acho que sim. Mas nenhuma mais bacana que você.
Ela riu um pouco mais.
— Você é bom de elogio — disse ela.
— Obrigado.
Ela deu um tapinha em sua cúpula.
— Ainda vai demorar mais ou menos uma semana até eu ir embora. Podemos passar algum tempo juntos.
— Eu adoraria. — O androide estava pensando no anseio por experiências, a maneira estranha que sua ocupação tinha de fornecê-la, um jeito que parecia para ele que a experiência fornecida não era suficiente, nunca se mostraria suficiente.
Os detectores infravermelhos ligavam e desligavam nos olhos plásticos do androide enquanto ele flutuava sobre a rua. Rajadas de vento tentavam lançá-lo na direção dos prédios. Exceto pelas poucas horas que passou com Cyndi, estava fazendo aquilo havia quatro dias sem parar.
Lá embaixo, na rua, alguém lançou um copo de isopor pela janela de um Dodge azul. Modular perguntou-se onde ele tinha visto aquela cena antes.
Interruptores macroatômicos realizaram um filtro superliminar silencioso de dados. E o androide percebeu que estava vendo aquele Dodge azul demais, e em muitos dos mesmos lugares que Modular esteve nos últimos dias — centros de refugiados, abrigos, um patrulhamento incessante das ruas à meia-noite. O androide perguntou-se se o Dodge estaria procurando a mendiga. Modular decidiu manter o Dogde sob observação.
A busca do carro era mais lenta que a do androide — assim, Modular começou a cortar, buscando ruas à esquerda e à direita do carro, voltando ao Dodge de vez em quando. No centro do Exército da Salvação do Bairro dos Curingas, deu uma boa olhada no ocupante do Dodge — um homem branco de meia-idade, o rosto deformado exausto e perturbado. Memorizou a placa do carro e subiu novamente ao céu.
E, então, horas depois, lá estava ela — bem na frente do Dodge, aconchegada ao lado dos degraus de entrada de uma casa com as bolsas empilhadas sobre ela. O androide pousou no telhado e esperou. O Dodge estava reduzindo a velocidade.
— E Shaun diz para mim, ele diz, eu quero que você vá ao médico…
Hubbard encurvou-se em seu sobretudo. Parecia que o vento estava soprando através do seu corpo, viajando diretamente entre sua carne e ossos. Seus dentes batiam. Estava dirigindo pelo que parecia anos a fio, novamente tendo aquela sensação terrível e nauseante de déjà vu.
— Não tem nada errado com sua mãe que uma dose de uísque irlandês não cure…
Black, eu a encontrei. Lower West Side.
A resposta de Black foi cínica. Tem certeza de que nada vai dar errado desta vez?
O robô não está aqui. Ficarei fora da visão.
Dez minutos.
Traga comida, disse Hubbard. Tentaremos pegá-la de surpresa.
— Vai se foder, Shaun, eu digo. Vai se foder. — A mendiga levantou-se num pulo, estava sacudindo o punho para o céu.
Hubbard olhou para ela.
— Estou com você, minha senhora — ele murmurou. E, então, olhou para cima. — Ai, merda — ele falou.
Modular flutuou para fora do telhado. Não conseguia dizer se a mendiga estava gritando para ele ou para o céu de modo geral. O motorista do Dodge estava a muitas casas de distância, escondido atrás de outra escadaria. Não parecia que o homem pretendia fazer alguma coisa.
Pensou sobre o jeito como ela retorceu seus componentes, na obliteração da existência que aconteceria se esmagasse seus geradores ou cérebro. As memórias surgiram em sua mente; o estalo do single malt no nariz, o gordo com o rifle, Cyndi gemendo suavemente em seus braços, o rugir espumante do gorila… Ele não queria perder nada daquilo.
— Ai, merda — disse Hubbard, olhando para cima, horrorizado. O androide flutuava a menos de 15 metros sobre a mendiga. Ela estava gritando para ele, pegando a bolsa. A coisa na bolsa não conseguiu agarrá-lo da última vez.
Em fúria repentina, Hubbard expandiu a mente. Ele tomaria o controle do androide para batê-lo na calçada diversas vezes até não sobrar nada além de componentes estilhaçados…
Sua mente tocou o cérebro macroatômico frio do androide. O fogo floresceu na consciência de Hubbard. Ele começou a gritar.
Havia algo preto na sacola de compras da mendiga. Estava crescendo.
O androide mergulhou direto até a coisa. Seus braços estavam bem abertos. Se a mulher movesse a bolsa no último minuto, as coisas ficariam muito complicadas.
O negror crescia. O vento o arrastava, tentando tirá-lo do curso, mas o androide corrigiu.
Quando atingiu o negrume do portal, sentiu novamente a nulidade destruidora dominá-lo. Mas, antes que perdesse o controle sobre si mesmo, sentiu as mãos se fechando nas bordas da bolsa, prendendo-as, sem deixar escapar.
Por uma pequena fração de segundo, ele se sentiu satisfeito. Então, conforme esperado, não sentiu mais nada.
Os ventos siberianos não esfriaram o ar quente sobre o aterro sanitário próximo de St. Petersburg, na Flórida. O lugar tinha um cheiro horrível. Modular perdera quase quatro horas do seu tempo. Suas verificações não mostraram nenhum dano interno. Teve sorte.
Ele se levantou no meio do lixo fedorento e o revirou em busca da sacola de compras. Trapos, pedaços de roupa, de comida, e então a coisa, fosse lá o que fosse. Uma esfera preta com cerca de dois quilos, do tamanho de uma bola de boliche. Não havia nenhum interruptor aparente ou meio de controlá-la.
A superfície era morna. Prendendo-a ao peito, o androide rumou para o céu agradável.
— Ótimo — disse Travnicek. — Bom trabalho, torradeira. Eu me parabenizo pelo excelente trabalho de programação.
O androide trouxe para ele uma xícara de café. Travnicek riu, deu um gole, e virou-se para contemplar o orbe alienígeno, sentado na bancada de trabalho. Tentou manipulá-lo com diversos tipos de controles remotos, mas não conseguiu nada.
Travnicek moveu-se na direção da bancada e estudou a esfera de uma distância respeitosa.
— Talvez seja necessária proximidade para acioná-la — o androide sugeriu. — Talvez você deva tocá-la.
— Talvez você deva cuidar da porra da sua vida. Não vou me aproximar desse treco.
— Sim, senhor. — O androide ficou em silêncio por um momento. Travnicek bebericava do café. Então, balançou a cabeça e afastou-se da bancada.