— Você pode voar para o Peru amanhã e juntar-se aos seus amigos do Exército. E faça contato com os governos sul-americanos enquanto estiver lá. Talvez paguem mais do que o Pentágono.
— Sim, senhor.
Travnicek esfregou as mãos.
— Quero comemorar, batedeira. Vá até a loja e me traga uma garrafa de champanhe e algumas rosquinhas com geleia.
— Sim, senhor. — O androide, sem expressão, tornou-se insubstancial e atravessou o teto voando.
Travnicek entrou no pequeno quarto aquecido no qual dormia, ligou a televisão e sentou-se na poltrona gasta. No meio da agitação de último minuto da noite de Natal para os compradores atrasados, o aparelho exibia um desenho japonês sobre um androide gigante que lutava contra lagartos cuspidores de fogo. Travnicek amava isso. Recostou-se para assistir.
Quando o androide voltou, encontrou Travnicek dormindo. Reginald Owen estava fazendo papel de Scrooge na tela. Modular pousou a sacola em silêncio e retirou-se.
Talvez Cyndi estivesse em casa.
Coleman Hubbard estava sentado com as roupas institucionais em sua ala em Bellevue. Pessoas mentalmente perturbadas caminhavam, brigavam, jogavam cartas. Uma pequena árvore de plástico piscava na ala das enfermeiras. Sem ser visto por ninguém, exceto o detetive John F. X. Black, Amon flutuava majestosamente sobre a cabeça de Hubbard, ouvindo-o enquanto ele falava.
— Um, um, zero, um, zero, zero, zero, um, um, zero, um, um, um…
— Vinte e quatro horas — Black disse. — Não conseguimos nada dele além disso.
— Um, zero, zero, zero, um, zero…
A imagem de Amon pareceu sumir por um momento, e Hubbard viu de soslaio a figura de um velho magro com olhos de sombras quebradiças. Então, Amon estava de volta.
Não consigo entrar em contato com ele. Nem mesmo causar dor. É como se a mente dele estivesse em contato com… algum tipo de máquina. Suas mãos cerradas. O que aconteceu com ele? Que tipo de máquina fez contato com ele lá fora?
Black ergueu uma sobrancelha. TIAMAT?
Não. TIAMAT não é assim… TIAMAT é mais vivo do que qualquer coisa que você já tenha visto.
— … zero, um, um, zero, zero, zero, um, zero…
Quando o encontrei, vi a mendiga, coloquei-a para dormir e não encontrei nada em suas bolsas. Seja lá o que tenha acontecido, outra pessoa está com a coisa agora.
— … um, zero, zero, um, zero…
Os olhos do carneiro se incendiaram, e então seu corpo se contorceu, ficando na forma esguia de um galgo com um focinho curvado e presas à mostra, um rabo gigante bifurcado erguendo-se das costas. O medo escalou o pescoço de Black. Amon tornou-se Setekh, o destruidor. A ilusão astral era assustadoramente real. Black esperava ver o sangue pingando do focinho do animal, mas não aconteceu. Ainda não, de qualquer forma.
Ele te usou numa missão não autorizada, disse Setekh. Como parte de uma trama que provavelmente tinha a mim como alvo. Agora, ele é um perigo para todos nós. Se sair deste estado, poderá dizer algo que não deve.
Destrua-o, Mestre, Black disse.
Uma espuma respingava do focinho daquela coisa, esfumaçando no assoalho. Os outros pacientes não prestavam atenção. O grande cão hesitou.
Se eu entrar na mente dele poderia ver… o que ele viu.
Black deu de ombros. Quer que eu faça isso?
Sim. Acredito que seja melhor.
Já plantei o testamento no apartamento dele. Aquele que deixa tudo para nossa organização.
A língua da fera se desenrolou. O olhar dela se suavizou. Você pensa adiante. Gosto disso. Talvez possamos lhe dar uma promoção.
A milhões de quilômetros da Terra, quase eclipsada pelo sol, a Mãe do Enxame contemplava seus brotos sobreviventes, espalhados. Observadores na Terra teriam ficado surpresos de saber que o Enxame não considerava seu ataque uma falha. Havia sido lançado mais como um teste do que como uma tentativa séria de conquista, e o Enxame, analisando os dados recebidos de sua criatura, desenvolveu diversas hipóteses.
O Enxame traciano foi confrontado por três reações que falharam totalmente em cooperar uma com a outra. Era possível, o Enxame considerou, que a Terra fosse dividida entre diversas entidades, equivalentes à Mãe do Enxame, que não se ajudaram mutuamente nos seus esforços.
Grandes quantidades do Enxame siberiano foram destruídas de uma vez, transmitindo sua agonia telepática à sua matriz. Era óbvio que as mães da Terra possuíam alguma forma de arma devastadora, que, no entanto, estavam relutantes em usar, exceto em áreas desabitadas. Talvez os efeitos ambientais fossem penosos.
Possivelmente, o Enxame ponderou, se as mães da Terra fossem divididas e todas possuíssem essas armas, poderiam se voltar umas contra as outras. Se a Terra fosse, dessa forma, desolada, o Enxame estaria disposto a esperar milhares de anos necessários para a Terra tornar-se útil novamente. O período não seria nada se comparado aos anos que o Enxame já esperara.
O Enxame, dessa maneira eclipsado pelo sol, decidiu concentrar as atividades de monitoramento para confirmar essas hipóteses.
Sentia oportunidades ali.
— Então eu digo para Maxine, eu digo, quando você vai fazer alguma coisa sobre sua doença? Eu digo, é hora de ir ao médico…
A mendiga, com uma sacola de compras pendurada no braço, enquanto espreme uma segunda sacola contra o peito, caminhava lentamente pelo beco, lutando contra o vento siberiano.
Os cabelos loiros de Cyndi debatiam-se na brisa, enquanto tremia dentro de uma jaqueta de pele de cordeiro. Ela viu quando Modular tentou falar com a mulher, lhe dar um pacote cheio de comida chinesa, mas a mendiga continuava a murmurar consigo mesma e caminhar com pesar pelo beco. Finalmente, o androide enfiou o pacote de comida na sacola da mulher e voltou até onde Cyndi o esperava.
— Desista, Mod. Não há nada que você possa fazer por ela.
Ele a tomou nos braços e voou em espiral na direção do céu.
— Continuo achando que posso.
— Poderes super-humanos não são respostas para tudo, Mod. Você precisa aprender a lidar com suas limitações.
O androide se calou.
— O que você precisa entender, se esse negócio não deixar você maluco, é que ninguém inventou um poder carta selvagem que possa fazer qualquer porcaria por senhoras que estão fora de si e que carregam o mundo todo com elas em sacolas de compra e vivem em latas de lixo. Não tenho nenhum poder, e até eu sei disso. — Ela fez uma pausa. — Está me ouvindo, Mod?
— Sim. Eu te ouvi. Sabe de uma coisa, você é teimosa demais para ser uma garota que acabou de chegar de Minnesota.
— Ei! Hibbing é uma cidade difícil durante a recessão.
Subiram, pairando na direção do Aces High. Cyndi pôs a mão no bolso da jaqueta e mostrou um pacotinho enrolado em fita vermelha.
— Seu presente — disse ela. — Acho que é nossa última noite juntos. Feliz Natal.
O androide parecia envergonhado.
— Não pensei em comprar nada para você.
— Tudo bem. Você estava bastante ocupado.
Modular abriu o pacote. O vento agarrou a fita brilhante e a rodopiou para dentro da escuridão. Dentro do embrulho havia um broche dourado no formato de uma carta de baralho, o ás de copas, com as palavras MEU HERÓI gravadas.
— Achei que poderia usar para se sentir melhor. Pode usar na sua cueca boxer.
— Obrigado. Bela dica.
— De nada. — Cyndi o abraçou.
O Empire State lançava um feixe de luzes coloridas para dentro da noite. O casal aterrissou no terraço de Hiram. Dava para ouvir os sons de agitação do bar, mesmo com as rajadas de vento. Uma multidão natalina comemorava. Cyndi e Modular olharam por um bom tempo através da janela.