Jhubben precisava construir um substituto.
Sentia-se desesperadamente insuficiente para a tarefa. Era um xenólogo, não um técnico. Usava uma centena de dispositivos da Rede que não poderia começar a construir, reparar ou mesmo compreender. Conhecimento era a commodity mais preciosa da galáxia, a única moeda verdadeira das Redes, e cada espécie-membro guardava os próprios segredos tecnológicos com zelo. Porém, cada posto avançado da Rede tinha um transmissor de táquion, mesmo em mundos primitivos, como Glabber, que não podiam comprar naves estelares próprias. A menos que espécies inferiores tivessem meios de convocar as grandes naves estelares para seus mundos atrasados e espalhados, como o comércio aconteceria, como os planetas poderiam ser comprados e vendidos, como os lucros se acumulariam para os Mestres Comerciantes de Starholme?
A biblioteca de Jube consistia em nove pequenas hastes cristalinas. Uma continha uma coleção de canções, literatura e erotismo de seu mundo natal; a segunda, seu trabalho de uma vida inteira, inclusive todas as pesquisas sobre a Terra. As outras continham conhecimento. Certamente, os diagramas de um transmissor de táquion estariam ali em algum lugar. Qualquer conhecimento que acessasse seria observado, claro, e seu valor debitado dos valores das pesquisas aqui na Terra, mas era certo que valia a pena para salvar uma raça consciente?
Haveria gastos, ele sabia. Mesmo se encontrasse os projetos, era improvável que tivesse as peças necessárias. Teria que fazê-lo com componentes eletrônicos humanos primitivos, o melhor que conseguisse obter, e provavelmente seria forçado a canibalizar alguns dos próprios equipamentos. Que fosse. Tinha equipamentos que nunca usara: os sistemas de segurança que guardava no apartamento (cadeados extras resolveriam), o traje espacial de metal líquido que não servia mais nele, o caixão criogênico no armário dos fundos (comprado por contingência de uma guerra termonuclear durante seu período na Terra), as máquinas de jogos…
Havia um problema mais sério. Poderia construir um transmissor de táquion, disso estava certo. Mas como energizá-lo? Suas células de fusão poderiam ser suficientes para lançar um raio até Hoboken, mas havia muitos anos-luz entre Hoboken e as estrelas.
Jhubben se levantou da banheira e se enxugou. Sabia muito bem o que havia acontecido quando o Dorminhoco foi atrás do corpo de Ekkedme. Croyd dissera para ele, uma semana após aquela tarde terrível na qual Jhubben passou descarregando os restos mortais do irmão embe de volta para o mar salgado do qual todos tinham surgido, ao menos metaforicamente. Mas nada disso pareceu importar quando os brotos aterrissaram.
Agora, isso importava.
Caminhou até a sala de estar e abriu a última gaveta de um aparador que comprara da loja Goodwill, em 1952. A gaveta estava cheia de pedras: verdes, vermelhas, azuis, brancas. Quatro das pedras brancas compraram aquele prédio em 1955, mesmo que o velho de viseira verde tivesse pagado para ele apenas metade do que as pedras valiam. Jube sempre usava esse recurso com parcimônia, pois não seria possível sintetizar mais pedras até a Opportunity retornar. Mas a crise exigia.
Não era um ás, não tinha poderes especiais. Esses teriam de ser seus poderes. Esticou a mão grossa de quatro dedos e puxou um punhado de safiras não lapidadas. Com elas, localizaria o deslocador de singularidade para dar energia à sua transmissão estelar.
Ou, ao menos, tentaria.
1986
Se olhares pudessem matar
Walton Simons
Escolher a vítima certa sempre foi assassinato. Tinham de ter muito dinheiro para fazer a morte valer a pena, e precisava ser levada a cabo num local isolado. O aluguel era adequado e matar alguém na rua fazia muito mais sentido do que assassinar o zelador. Isso poderia alertar aos outros sobre onde estava, e tinha cansado de mudar de apartamento.
O frio o incomodava. Penetrava na magreza de seu um metro e oitenta e alojava-se nos ossos. Levantou o colarinho de pele do casaco folgado. Antes de ter morrido, quando era apenas James Spector, os invernos de Nova York eram entorpecentes. Agora, apenas a agonia de sua morte, constantemente jorrando dentro dele, causava uma dor real.
Passou pela Igreja de São Marcos e caminhou a leste para a Tenth Street. A vizinhança era mais barra-pesada naquela direção, e provavelmente atendia mais às suas necessidades.
— Merda — disse ele quando a neve começou a cair novamente. As poucas pessoas nas ruas certamente buscariam refúgio dentro de casa. Se não conseguisse encontrar uma vítima ali, precisaria tentar no Bairro dos Curingas. O pensamento não o agradava. Os flocos pousavam sobre os cabelos e bigode escuros. Ele os limpava com a mão enluvada e seguia em frente.
Alguém acendeu um fósforo na escadaria da entrada de uma casa próxima. Spector caminhou devagar até a escadaria, procurando um cigarro.
O homem no portão era alto e de constituição robusta. Tinha uma pele pálida, esburacada, e olhos azuis. Tragou profundamente o cigarro e soprou fumaça no rosto de Spector.
— Tem fogo? — Spector perguntou, ousado.
O homem franziu a testa.
— Te conheço? — Ele olhou para Spector com cuidado. — Não. Mas talvez alguém tenha te enviado.
— Talvez.
— Rapaz esperto, hein. — O jovem sorriu, revelando dentes brancos e alinhados. — É melhor falar o que quer, cara, ou vou chutar sua bunda magra até você cair das escadas.
Spector decidiu apostar num pressentimento.
— Não estou conseguindo nada esses dias. Minha fonte secou, mas um amigo disse que tinha alguém por aqui que poderia me ajudar. — Ele projetou a necessidade com voz e postura.
O homem deu tapinhas nas costas dele e riu.
— Deve ser seu dia de sorte. Entre aqui na casa do Mike e vamos ajeitar as coisas para você agora mesmo.
O apartamento de Mike cheirava pior que uma caixa de areia de gato de uma semana. O chão estava cheio de roupas sujas e revistas pornográficas.
— Belo apartamento — Spector disse, mal escondendo o desprezo.
Mike empurrou-o com violência contra a parede e puxou as mãos de Spector para cima da cabeça. Ele o revistou rápido, mas completamente.
— Agora, me diz do que precisa, e te digo quanto vai custar. Se me der problema, estouro seus miolos. Já fiz isso antes. — Mike puxou um .38 cromado com silenciador e sorriu novamente.
Spector se virou devagar e parou quando seus olhos encontraram os de Mike, então conectou suas mentes. As sensações terríveis da morte de Spector correram para dentro do corpo de Mike. Conseguia sentir o peso que esmagou seu peito. Os músculos se contraíram involuntariamente com tal força que os ossos estalaram e os tendões romperam. A garganta sufocou quando o vômito subiu para a boca. O coração batia descontrolado, forçando o sangue contaminado a correr pelo corpo. A dor ardente gritava em sua mente a partir dos tecidos agonizantes. Os pulmões estouraram e pararam. O coração palpitou e parou. Mesmo após a escuridão, ainda havia dor. Spector manteve os olhos presos, fazendo Mike sentir cada detalhe, convencendo o corpo do traficante de que estava morto. Não parou até Mike estremecer de uma maneira que ele já conseguia reconhecer. Então, acabou.
Os olhos de Mike se reviraram e ele tombou sem vida no chão. Um reflexo do seu dedo morto disparou o .38. O projétil acertou Spector no ombro, girando-o contra a parede. Ele mordeu o lábio, mas tirando isso ele ignorou o ferimento e virou Mike.
— Agora você sabe como é tirar a rainha negra. — Ele pegou a arma e acionou a trava de segurança, enfiando-a cuidadosamente no cinto. — Mas olhe pelo lado bom. Você precisa passar por isso apenas uma vez. Eu acordo com ela toda manhã. — Spector revistou o corpo do homem. Pegou todo o dinheiro, até os trocados. Havia apenas seiscentos dólares.