— Imbecil barato. Estou tão feliz que poderia dividir alguma coisa com você — Spector disse, abrindo a porta para olhar para a entrada. Não viu ninguém e desceu as escadas rapidamente. O frio e a neve amorteceram os sons da cidade, abafando a vida.
Seu ombro estava curado no momento em que chegou ao seu apartamento.
Estava sendo seguido. Dois homens do outro lado da rua mantiveram o ritmo dele, ficando atrás apenas o suficiente para evitar seu campo de visão. Spector sentiu-os vários quarteirões antes. Seguiu para sul, longe de seu apartamento, para dentro do Bairro dos Curingas. Seria mais fácil despistá-los ali. Caminhava devagar, reservando energia caso tivesse que correr.
Talvez fossem amigos de Mike, o traficante. Provavelmente não; estavam muito bem-vestidos, e pessoas como Mike não tinham amigos. Mais provavelmente, trabalhavam para Tachyon. Por necessidade, Spector matara um ajudante na clínica no dia em que escapou. O merdinha cabeça de cenoura, quase sem dúvida, tentaria encontrá-lo e jogá-lo na cadeia. Ou, pior, levá-lo de volta para a clínica. As únicas lembranças que tinha da clínica do Bairro dos Curingas eram ruins.
Você, seu desgraçadinho, pensou, já não fez o suficiente? Ele odiava Tachyon por tê-lo trazido de volta. Odiava-o ainda mais do que qualquer um ou qualquer coisa no mundo. Mas o alienigenazinho o assustava. Spector começou a suar por baixo do sobretudo pesado.
Um curinga de quatro pernas bloqueou a calçada à sua frente. Quando se aproximou, moveu-se como um caranguejo pelo beco para evitá-lo. Virou-se e olhou para o outro lado da rua.
Os dois homens estavam lá. Pararam e se agacharam juntos. Um cruzou a rua em sua direção. Spector poderia matá-los, mas Tachyon viria atrás dele com mais força. Melhor despistá-los e esperar que o takisiano o esquecesse.
As ruas, escorregadias pelo gelo, estavam quase desertas. Mesmo os curingas precisavam respeitar o frio feroz. Spector mordeu o lábio. O Crystal Palace estava apenas a um quarteirão de distância. Era um lugar tão bom como qualquer outro para tentar se livrar deles. Talvez Sascha pudesse pegá-los e escorraçá-los de lá.
O leão de chácara lançou-lhe um olhar realmente maldoso quando entrou. Spector queria lhe mostrar o que era um olhar realmente maldoso, mas deixar Crisálida irritada era a última coisa que precisava fazer naquele momento. Além disso, tão poucos lugares no Bairro dos Curingas tinham leões de chácara.
O interior do Crystal Palace sempre o deixava desconfortável. Era mobiliado do chão ao teto com antiguidades da virada do século. Se quebrasse ou danificasse qualquer coisa por acidente, provavelmente teria de matar vinte pessoas para pagá-la.
Sascha não estava ali, então o lugar não seria de grande ajuda. Caminhou rapidamente pelo bar principal e entrou numa sala contígua com cabines privadas. Ele se esgueirou para dentro da mais próxima e fechou as pesadas cortinas cor de vinho.
— Posso fazer algo por você?
Spector virou-se devagar. O homem sentado do outro lado da mesa vestia uma máscara da morte e uma capa preta com capuz.
— Eu disse, tem algo que possa fazer por você?
— Bem — disse ele, tentando ganhar tempo —, tem algo para beber?
A máscara o assustara, e Spector não precisava de desculpa para beber naqueles dias.
— Temo que apenas para mim. — O homem apontou para o copo pela metade diante dele. — Você parece estar com algum problema.
— Quem não está? — Spector não gostava do fato de ser tão transparente quanto a pele de Crisálida.
— Claro, problemas são universais. Um dos meus conhecidos mais próximos foi comido, devorado, por um dos visitantes extraterrestres, no mês passado. — Ele tomou um gole da bebida. — Tão incerto este mundo onde vivemos.
Spector abriu uma fenda na cortina. Os dois homens estavam no bar. O barman estava à frente deles, balançando a cabeça.
— É óbvio que você está sendo seguido. Talvez, se tivesse algum tipo de disfarce, poderia sair sem ser notado. — Ele tirou o capuz e a capa e deitou-os sobre a mesa.
Spector roía as unhas. Odiava confiar em qualquer um.
— Tudo bem. Agora, me diga o que tenho que fazer por você. Tem alguma coisa, não é?
— Apenas encher meu copo. Conhaque. O barman saberá qual tipo. — Ele tirou a máscara e jogou sobre a mesa.
Spector virou o rosto. O rosto do homem era idêntico à máscara. Sua pele era amarela e bem grudada nos ossos faciais salientes. Não tinha nariz. O curinga olhava para ele com olhos fundos e injetados.
— Bem…
Rapidamente, ele se vestiu com o disfarce, então pegou o copo.
— Volto num minuto. — Ele abriu as cortinas e saiu. Os homens estavam sentados a pouco mais de cinco metros. Olharam para ele enquanto caminhava até o bar. Estava suando de novo.
— Mais um — disse ele, após chamar a atenção do barman. O homem fez o que ele pediu. Spector voltou lentamente até a cabine. Apenas um dos homens estava olhando para ele, mas olhava com insistência.
— Aqui está — disse ele, entregando a bebida. — E aqui vou eu.
— Talvez você queria manter a roupa — disse o homem com cara de caveira. — Acho que vai precisar disso. — Ele fechou as cortinas.
Spector caminhou com lentidão medida até a porta. Os dois homens ainda estavam sentados.
Assim que botou os pés na rua, Spector correu. Saiu em disparada pelas calçadas congeladas, uma visão encapuzada da morte, até seu fôlego acabar. Esgueirando-se num beco, tirou a capa e a máscara e as enfiou no sobretudo, então partiu para casa.
Foi para a cama bêbado pela terceira vez em tantas noites. Aliviava a dor o suficiente para ele dormir. Não tinha certeza se realmente precisava dormir, mas acostumou-se a fazê-lo nos anos antes de sua morte.
Um clique. Spector abriu os olhos e respirou fundo, levemente consciente de que algo estava acontecendo. A porta abriu um pouco, revelando uma réstia de luz externa. Spector esfregou os olhos e sentou-se. Enquanto procurava suas roupas, a porta parou, presa pela corrente. Ele voltou em direção às janelas, enquanto vestia as calças.
Ao encolher os ombros no sobretudo, ouviu algo bater à porta. A porta fechou. Spector sentiu cheiro de fumaça e frutos cítricos apodrecendo. Seus olhos encheram de água e ele hesitou em pernas vacilantes. Precisava se mover ou o gás o nocautearia. Abriu a janela e chutou a tela, mas um pé ficou preso no parapeito e ele caiu na escada de incêndio. Aterrissou desequilibrado e bateu a cabeça contra o corrimão de aço coberto de neve. A dor e o ar frio limparam sua mente momentaneamente. Havia um homem no topo da escada de incêndio, descendo às pressas, e ele ouviu o barulho de outro subindo. Em um momento, os dois estariam sobre ele.
Spector esforçou-se para levantar. O homem de baixo virou para subir o último lance. Spector saltou sobre ele, pegando o homem de guarda baixa, empurrando-o contra o corrimão. Spector ouviu a espinha do homem estalar com o impacto. Ele se recompôs e correu escada abaixo, deixando o homem gritando no patamar.
De dois andares acima da rua, ele saltou. Seu pé escorregou na calçada congelada quando ele aterrissou, e o corpo se dobrou. Buscou fôlego e conseguiu rolar. Uma mulher usando óculos de sol espelhados estava se curvando em sua direção. Segurava uma seringa hipodérmica. Ele a reconheceu assim que sentiu a agulha penetrando na sua carne.
Spector entrou num corredor, mãos e pés bem presos com cordões de náilon. A mulher que o havia drogado supervisionava enquanto dois homens, vestindo sobretudos pesados e óculos espelhados, o levavam para uma sala escura. Como usavam óculos de proteção, ele não conseguia fazer contato visual com eles.