Spector foi jogado numa poltrona de madeira maciça. A sala tinha um cheiro de velho, como um sótão ou uma casa havia muito tempo abandonada.
— Ah, Enfermeira Gresham, vejo que trouxe de volta nosso encrenqueiro. — A voz era de um homem mais velho; seu tom era firme e frio.
— Foi osso duro de roer. Morreu mais um.
O homem estalou a língua.
— Então, ele é mesmo perigoso como você disse. Podemos dar uma boa olhada nele?
Spector ouviu um atrito de pedras quando o teto acima dele se abriu. A lua e as estrelas brilhavam intensamente através da claraboia. Ele vivera na cidade de Nova York a vida toda. A fumaça e as luzes da cidade dificultavam ver as estrelas, ainda assim elas brilhavam com força suficiente para ferir seus olhos ali. Seus interrogadores permaneciam fora da área iluminada.
— Bem, Sr. Spector, o que tem a dizer em sua defesa? — Silêncio. — Fale. Coisas ruins acontecem com quem me faz perder tempo.
Spector estava assustado. Sabia que Jane Gresham trabalhava para o Dr. Tachyon na clínica do Bairro dos Curingas, mas o homem que o interrogava definitivamente não era Tachyon.
— Até onde posso dizer — ele falou —, vocês vieram atrás de mim sem motivo nenhum. Peço desculpas pelo cara que morreu, mas não foi minha culpa.
— Não estamos falando disso, Sr. Spector. Três noites atrás o senhor matou um dos nossos sem razão. Ele estava apenas tentando satisfazer sua necessidade de drogas.
— Olha só, vocês entenderam tudo errado. — Spector entendeu que ele deve ter se enroscado numa operação de tráfico importante. A Enfermeira Gresham devia estar roubando todo tipo de drogas na clínica de Tachyon. — A negociação foi boa. Outra pessoa deve ter feito aquilo.
Houve um murmúrio, e o velho se moveu até a luz. Estava sentado numa cadeira de rodas elétrica. Sua cabeça era uma anormalidade de grande e parcamente coberta por cabelos brancos. O corpo magro era torto, como se forças dentro dele o estivessem movendo para direções diferentes. Sua pele era pálida, mas saudável, e usava óculos grossos.
— Lembra-se disto? — O velho segurava uma moeda. Spector reconheceu-a instantaneamente. Era uma moeda antiga que ele tirou do corpo de Mike. Como era do tamanho de meio dólar e datava de 1794, ele a guardou, pensando que pudesse valer alguma coisa.
— Não — disse, tentando ganhar tempo.
— Mesmo? Olhe com atenção. — A moeda brilhava num vermelho-sangue à luz da lua.
Spector ouvira o suficiente para saber que estava em apuros. Gresham e o velho o matariam. Se fosse impedi-los, agora era a hora.
— Ninguém se mexa, ou eu mato esse velho do mesmo jeito que apaguei seu amigo traficante.
Eles riram.
— Olhe para mim, Sr. Spector. — O velho inclinou-se para a frente. — Use seu poder em mim.
Spector encarou os olhos do homem e tentou partilhar sua morte. Pôde sentir que não estava funcionando, fosse lá por qual motivo. O velho parecia bloqueá-lo de alguma forma. Ele despencou na cadeira.
— Desculpe por desapontá-lo. Você não é o único com poderes extraordinários. Desamarre-o, Enfermeira Gresham.
A mulher, hesitante, fez o que ele mandou.
— Cuidado com ele — ela alertou o velho. — Ainda pode ser perigoso.
Spector não se sentia perigoso. Não sabia no que havia se envolvido, certamente não era uma operação de tráfico comum.
— Como sabem de mim? O que vocês querem?
— A Enfermeira Gresham mantinha um prontuário bem completo sobre o senhor na clínica. — O velho abriu um caderno e começou a ler. — James Spector, auditor fracassado de Teaneck, Nova Jersey, infectado pelo vírus carta selvagem há nove meses. Chegou clinicamente morto na clínica do Bairro dos Curingas. Como você não tinha familiares vivos para contestar, o Dr. Tachyon o ressuscitou com um processo experimental agora abandonado. Passou seis meses na UTI gritando de forma incontrolável. Por fim, com ajuda de medicamentos, foi trazido de volta à sanidade. Desapareceu aproximadamente há três meses. Coincidentemente, um assistente da clínica morreu misteriosamente no mesmo dia. Está tudo aqui. Bem completo.
— Vaca. — Spector tentou localizar a enfermeira na escuridão.
— Bem, bem — disse o velho. — Se eu deixar o senhor vivo, Sr. Spector, talvez tenha que gostar dela.
— Você me deixaria vivo? — Ele percebeu que não era a maneira certa de dizer aquilo. — Digo…
— Na realidade — o senhor interrompeu —, o senhor tem um grande talento. Ases são raros, não se deve jogá-los na privada e dar descarga. O senhor pode ser bem útil para a nossa causa.
— Que causa?
O velho sorriu.
— O senhor descobrirá se o aceitarmos em nossa… sociedade. Mas, antes de considerarmos isso, terá de provar seu valor. Temos um trabalhinho para o senhor, mas, com suas capacidades e as informações que lhe dermos, provavelmente não será difícil.
— E se eu não entrar no jogo? — Spector estava assustado, mas queria saber as consequências exatas.
O velho arrancou uma página do caderno e lhe entregou com uma caneta.
— Escreva seu endereço nesta folha e ponha no bolso.
Spector estava confuso, mas fez o que lhe foi pedido. O velho fechou os olhos com força e juntou a ponta dos dedos.
Spector estremeceu. Sentiu como se derramassem água fria no seu cérebro exposto.
— Estou sentindo… — Ele parou de falar, solapado pela sensação.
— Sim, eu sei. Diferente de qualquer coisa, não é? Agora, me diga seu endereço.
Spector abriu a boca para responder e percebeu que não conseguia lembrar. A informação simplesmente desaparecera.
— Amnésia seletiva. Quando uma pessoa está fisicamente diante de mim, posso arrancar dela o que quiser. — Ele levantou uma sobrancelha desgrenhada. — Ou posso remover tudo.
Spector ficou abalado, mas sabia que o poder do velho também poderia ser usado para retirar a memória de sua morte. A perda desse poder seria um preço pequeno a pagar para voltar a dormir à noite.
— Sei o que quer dizer. Farei qualquer coisa que quiser.
— Viu, Enfermeira Gresham, ele não será problema mesmo. Seria estúpido matar alguém que pode ser tão útil. Dê outra injeção e leve-o para seu apartamento antes que acorde.
— Esperem um minuto. Quem são vocês? Se não for pedir muito que vocês me digam.
— Meu nome verdadeiro significaria menos para o senhor do que para mim. Pode me chamar de Astrônomo.
Spector entendia que qualquer pessoa que chamasse a si mesmo de Astrônomo era realmente insano, mas não era hora nem lugar para discutir isso.
— Ótimo. Bem, Astrônomo, o que quer que eu faça por você? A única coisa que faço bem é matar pessoas.
O Astrônomo balançou a cabeça.
— Exatamente.
Spector estava nervoso por ter que matar um policial, especialmente por ser o Capitão McPherson. Ninguém fora estúpido ou corajoso o suficiente para procurar confusão com o chefe da Unidade de Forças Especiais do Bairro dos Curingas. O Astrônomo não lhe dera opção. A morte de McPherson tinha de parecer acidental, pois um dos aliados do Astrônomo deveria sucedê-lo. Se Spector falhasse ou tentasse fugir, o Astrônomo arrancaria todas as suas memórias, exceto sua morte.
Ele amarrou as caneleiras com força e desenrolou as pernas da calça jeans sobre elas. Também usava proteção adicional por baixo da camisa, nos antebraços.
O Astrônomo deveria estar planejando matar McPherson havia algum tempo. Spector estava sentado num sofá do apartamento logo abaixo do seu alvo. A mulher que vivia ali era uma das subalternas do Astrônomo. Pelo que tinham lhe dito, a empregada de McPherson também estava na operação.
— Se você quer substituir alguém, primeiro substitua as pessoas ao seu redor — o Astrônomo dizia.
Spector olhou para o relógio de parede. Os ponteiros estavam entre uma e duas da manhã. Ele verificou para garantir que a seringa hipodérmica estava no seu bolso, então apagou as luzes e abriu a porta da sacada.