Ele pegou a corda e amarrou o gancho de escalada acolchoado na ponta. A distância até a sacada acima era de aproximadamente seis metros. Inclinou o corpo para fora da sacada e lançou o gancho. Ele se encaixou com perfeição, uma das alças agarrando na beirada acima. Um punhado de neve caiu em seu rosto. Ele puxou a corda. Ela estalou forte e o gancho se firmou.
Spector escalou rapidamente e ergueu-se sobre a beirada da sacada de McPherson. A neve acumulada abafava o som dos pés no concreto. Ele esperou um momento. Não ouvia nada lá de dentro.
A empregada fizera o que lhe foi ordenado. A porta da sacada estava destrancada. Spector empurrou-a para abrir; uma rajada de vendo frio correu para dentro do apartamento. Entrou em silêncio e fechou a porta.
O cão o aguardava. Conseguia ver o brilho vermelho refletido na retina do animal. O cão rosnou, ameaçador, e atacou. Spector não conseguia ver o animal claramente e levantou um braço para proteger a cabeça e o pescoço vulneráveis. Com a mão livre, pegou a seringa hipodérmica que a Enfermeira Gresham lhe dera.
O dobermann o golpeou, prendendo o braço estendido do homem entre as mandíbulas. Conseguia senti-lo tentando atravessar a proteção do braço para rasgar seus tendões.
Ele espetou a seringa no estômago do animal. Ele continuou a rosnar e mastigar o braço do homem. Uma luz acendeu-se no cômodo ao lado. Agora que conseguia ver, Spector empurrou o cão para o lado. O dobermann caiu pesadamente e tentou, imediatamente, levantar-se.
— Pegue ele, Oscar. Estraçalha. — A voz vinha do cômodo iluminado.
Oscar tentou reagir. Esgarçou os dentes e deu um passo, então seus olhos se fecharam e ele despencou.
Até aqui, tudo bem, pensou Spector. Ele fingiu mancar na direção do cômodo iluminado.
— Eu desisto. Seu cachorro me machucou bastante. Preciso de um médico. Por favor, me ajude. — Ele tentou soar ferido.
— Oscar? — A voz de McPherson era vacilante. — Você está bem, garoto?
O cão respirava ofegante e não se movia. A luz foi desligada no quarto ao lado.
Spector combatia o pânico. Não tinha pensado que McPherson desligaria as luzes. Seu poder era inútil no escuro. Ele ficou em pé, imóvel, por muito tempo. Não havia sons vindo do outro cômodo.
Ele deu um passo adiante. Conhecia a planta do apartamento. O interruptor de luz era ao lado da porta, no lado direito. Para alcançá-lo, teria de ficar totalmente exposto na entrada. Sabia que McPherson tinha uma arma e estaria pronto para usá-la. Começou a suar. A dor crescia dentro dele, preparando-se para o ataque. Deu mais um passo. Mais um e estaria na entrada.
Spector ouviu o som de um telefone sendo tirado do gancho. Deu um passo para a frente e alcançou o interruptor de luz. Seu dedo chegou embaixo dele e ligou as luzes.
McPherson estava encolhido atrás de uma grande cama de latão. Tinha o gancho do telefone numa mão e uma pistola automática na outra. A arma estava apontada para o coração de Spector. Seus olhos se encontraram e se fixaram. Spector lembrou-se do dedo morto de Mike e estremeceu quando a experiência da morte fluiu para dentro de McPherson.
O policial tremeu e engasgou, então se inclinou devagar por trás da cama. Spector fechou as mãos em punhos e suspirou. Foi até o lado do morto e tirou a arma de sua mão. Abriu a gaveta do criado-mudo com a mão enluvada e, cuidadoso, pousou a arma dentro dela. Spector sentiu uma onda de alívio. Tinha imaginado vivamente a bala atravessando sua cavidade peitoral, fazendo com que sangrasse até a morte antes que pudesse se regenerar.
Apanhou um travesseiro e jogou-o no chão, como um recebedor encravando uma bola de futebol americano após um touchdown. Agora, talvez o Astrônomo e a Enfermeira Gresham o deixassem em paz. Ele devolveu o travesseiro para o lugar.
O telefone começou a apitar.
Spector pousou o fone sobre o gancho e arrumou o telefone no criado-mudo. Sentou sobre os lençóis desarrumados e examinou a vítima. O olhar no rosto de McPherson era igual ao que imaginou ter sido seu próprio rosto quando morrera.
— A morte lhe cai tão bem, McPherson — disse ao cadáver. — Mais impressionante que quebrar copos, não é, policial?
E gargalhou.
Spector tomou um gole do uísque Jack Daniel’s Black Label e saboreou o calor enquanto ele se espalhava por dentro. Estava deitado no seu colchão grumoso, olhando para a pequena televisão em preto e branco. Um programa de notícias tardio fazia uma retrospectiva da invasão alienígena. As notícias sobre os monstros ainda eram importantes o suficiente, de forma que a morte de McPherson nem mesmo apareceu na primeira página do New York Times.
Pela milionésima vez, mostravam o videoteipe do ataque em Grovers Mill. Uma unidade da Guarda Nacional estava usando um lança-chamas em uma daquelas coisas. Ela deu um grito agudo enquanto pegava fogo e queimava. Spector sacudiu a cabeça. Poder matar alguém apenas ao olhá-los deveria ser o suficiente para dar certa segurança a uma pessoa, mas esse não era o caso. Os monstros do espaço lhe causavam a mesma sensação bizarra nas entranhas que o Astrônomo. Spector esperava nunca mais ver ou ouvir o velho novamente, agora que cumprira sua parte no acordo.
O vídeo terminara.
— E agora — o locutor disse —, para as considerações finais sobre essa tragédia, temos o prazer de receber nosso convidado, Dr. Tachyon.
Spector agarrou a garrafa quase vazia e preparou para lançá-la no aparelho. O ar tremulava ao lado da cama, e ele sentiu o quarto ficar cada vez mais frio. O contorno translúcido formou uma cabeça de chacal sem corpo. Fogo colorido descia de sua boca e narinas.
Spector caiu da cama, puxando as cobertas por cima dele.
— Bebendo de novo — o chacal disse. — Se não lhe conhecesse, diria que está com a consciência pesada. — A cabeça transformou-se em vapor e rapidamente deu forma ao Astrônomo.
— Puta merda. Tem alguma coisa que você não consiga fazer? — Ele jogou as cobertas para o lado e subiu novamente na cama.
— Todos temos nossas limitações. Aliás, se você vir a cabeça do chacal novamente, dirija-se a ela como Lorde Amon. Eu apareço dessa forma apenas usando uma forma avançada de projeção astral. Uma das minhas capacidades menos impressionantes, mas tem sua utilidade. — O Astrônomo olhou para a televisão, que desligou com um estalido. — Não quero distrações.
— Olha, fiz o que você queria. O cara está morto e todo mundo está dizendo que foi um ataque cardíaco. Podemos dizer que estamos quites, e você pode me deixar em paz agora. — Ele lançou a garrafa na imagem. Atravessou-a silenciosamente e estourou na parede. — Então, cai fora.
O Astrônomo coçou a cabeça.
— Não seja tolo. Isso não vai ajudar nem a mim, nem a você. Podemos usá-lo. Um homem com seu poder seria de grande ajuda. Mas não sou tão egoísta para tentar fazer você se juntar a nós. Seria criminoso ficar parado e ver você desperdiçar seu talento desse jeito. Você precisa apenas de um guia para perceber seu potencial.
— Ah — Spector disse, tentando não gaguejar. — Meu potencial para quê?
— Para integrar a elite dominante numa nova sociedade. Para deixar as pessoas pálidas ao pensarem em você. — O Astrônomo estendeu as mãos fantasmagóricas. — O que ofereço não é uma promessa vazia. O futuro está nas nossas mãos neste exato momento. O que estamos fazendo é de importância cósmica.
— Parece bom — Spector disse, sem convicção. — Acho que, se você fosse me matar, já o teria feito. Mas, de verdade, não estou em condições de lidar com problemas cósmicos agora.
— Claro. Tenha uma boa noite de sono, se puder. Meu carro pegará você na porta do seu apartamento às dez da noite de amanhã. Você conhecerá um grande plano e dará seu primeiro passo no caminho da grandeza. — A imagem do Astrônomo piscou e desapareceu.