Spector estava bêbado e confuso. Ainda não confiava no Astrônomo, mas o velho estava certo sobre uma coisa. Estava desperdiçando seu novo poder e sua nova vida. Estava na hora de fazer algo nesse sentido. De um jeito, ou de outro.
A limusine preta do Astrônomo estacionou no horário. Spector enfiou o .38 no casaco e caminhou devagar até a porta da frente. Quando tivesse a chance, mataria o velho. O Astrônomo era perigoso, e sabia demais para ser confiável. Uma janela espelhada abaixou-se e uma mão pálida acenou para ele entrar no carro. A cabeça do Astrônomo estava inchada, com grandes rugas que não estavam ali na noite anterior. Estava vestido num robe de veludo preto e usava um colar feito de moedas de 1794.
— Aonde vamos? — Spector tentou parecer despreocupado. Sabia que o revólver era a única arma possível contra o Astrônomo.
— Curiosidade. Isso é bom. Significa que está interessado. — O Astrônomo ajustou o cinto. — Você teve uma quantidade grande de dor e morte na vida. Hoje à noite haverá mais. Mas não será dor ou morte para você.
Spector inquietou-se.
— Olhe, o que você realmente quer de mim? Está causando problemas demais para um intruso. Deve ter algo especial em mente.
— Sempre tenho algo especial em mente, mas precisa confiar em mim quando digo que não sairá machucado. Foram anos de experimentação para controlar meus poderes. Alguns deles você já conhece. Outros — ele coçou a testa inchada — você testemunhará hoje à noite. Tive um vislumbre do futuro, e você terá uma participação grande na nossa vitória. Mas seus poderes precisam ser fortalecidos e aprimorados. Isso poderá acontecer apenas se receber a instrução correta.
— Ótimo. Se quer que eu mate mais gente pra você, apenas diga. Claro, espero ser pago por isso. Mas não ache que pertenço ao seu grupinho. — Spector balançou a cabeça. — Ainda não sei quem diabos são vocês.
— Somos aqueles que entendem a verdadeira natureza de TIAMAT. Por meio dela, receberemos poderes inimagináveis. — O Astrônomo encarava os olhos do outro sem medo. — A tarefa será difícil, e será necessário grande sacrifício para concluí-la. Quando o trabalho estiver concluído, você pode dar seu preço.
— TIAMAT — Spector murmurou. O fervor do Astrônomo parecia genuíno, mas soava insano. — Olha só, é um pouco demais para mim agora. Apenas me diga para onde vamos.
— Após uma breve parada, para o Mosteiro.
— Não é um pouco perigoso? Muitos problemas aqui e ali com gangues de adolescentes. Muita gente sendo morta lá.
O Astrônomo riu baixinho.
— As gangues trabalham para nós. Mantêm as pessoas longe, inclusive a polícia, e os ajudamos a solidificar sua base de poder local. O Mosteiro é perfeito para nós, um prédio antigo em solo antigo. Perfeito.
Spector quis perguntar para que era perfeito, mas pensou melhor.
— Você não tem uma participação controladora no Metropolitan Museum, tem? — Sua tentativa de humor passou despercebida.
— Não. Tínhamos outro templo no centro, mas foi destruído numa explosão infeliz. Um dos meus irmãos mais queridos morreu. — Havia um sarcasmo satisfeito na voz do Astrônomo. — Escolha uma mulher para nós, Sr. Spector.
A limusine transitava metodicamente pela área da Times Square.
— Por que simplesmente não mandamos uma garota de programa para o Mosteiro? — Spector sempre quis destruir uma bela mulher. — Essas putas são a escória da Terra.
— Uma agenciada faria falta — o Astrônomo o advertiu. — E não precisamos de uma beleza estonteante. Tivemos dificuldades no passado, quando mulheres caras foram usadas. Desde então, tivemos de ser mais cuidadosos.
Spector, decepcionado, aceitou o conselho e olhou em volta.
— A loira ali não é tão má.
— Boa escolha. Pare perto dela. — O Astrônomo esfregou as mãos.
O motorista desacelerou a limusine e o Astrônomo baixou o vidro.
— Me desculpe, senhorita, estaria interessada numa festinha? Particular, claro.
A mulher inclinou-se para olhar dentro do carro. Era jovem com cabelo tingido platinado e uma disposição prática. Ela abriu o casaco de pele sintética para revelar um corpo bem proporcional, que era apenas parcialmente escondido por sua minissaia preta e justa.
— Economizando, rapazes? — Ela fez uma pausa, esperando um comentário, então continuou. — Como são dois, vai custar o dobro. Tem extra se for bizarrice ou algo especial que tenham em mente. Se são policiais, arranco a merda do seu coração fora.
O Astrônomo aquiesceu com a cabeça.
— Para mim parece ótimo. Se meu amigo concordar.
— Eu sou o que você tinha em mente, queridinho? — A mulher lançou um beijo molhado para Spector.
— Claro — disse ele, sem olhar para a garota.
A West Side Highway estava quase vazia e a viagem levou pouco tempo. O Astrônomo injetou uma droga na mulher que a deixou consciente, mas sem saber onde estava. Quando o carro entrou na via de acesso, Spector viu diversas formas espremidas contra árvores nuas. Na penumbra, viu o brilho do aço frio. Apalpou o .38 no bolso do casaco para saber se ainda estava lá.
Spector saiu do carro e caminhou rapidamente para o outro lado. Tirou a mulher do veículo e a guiou até o prédio. O Astrônomo caminhava lentamente na direção das portas.
— Pensei que você fosse aleijado.
— Às vezes, sou mais forte que os outros. Hoje à noite devo ficar o mais forte possível.
Uma rajada de vento frio sacudiu o robe em torno dele, mas ele não mostrou nenhum sinal de desconforto. Trocou algumas palavras com um homem na porta e balançou a mão como num ritual. O homem abriu a porta e apontou para Spector prosseguir.
Ele esteve no Mosteiro diversas vezes quando era bem jovem. A era conjurada pela arquitetura, pinturas e tapeçarias parecia mais agradável para Spector do que aquela na qual era forçado a viver.
No vestíbulo, uma fera esculpida em mármore os observava de cima. Tinha um físico angular e pequenas asas grudadas nas costas largas. A cabeça e a boca eram imensas. Mãos magras com garras seguravam um globo diante da boca cheia de presas. Spector reconheceu o globo como a Terra.
Uma figura moveu-se de trás da estátua e distanciou-se deles. Vestia um jaleco de laboratório sobre sua forma vagamente humana. Escondeu o rosto amarronzado de inseto e desapareceu nas sombras. Spector sentiu um arrepio.
A mulher sorriu e se agarrou nele.
— Sigam-me — o Astrônomo disse, impaciente.
Spector obedeceu. Observou que o interior do prédio era adornado com outras estátuas e pinturas repugnantes.
— Vocês fazem magia, não é?
O Astrônomo retesou-se com a palavra.
— Magia. Magia é apenas uma palavra que o ignorante usa para poder. As capacidades que você e eu possuímos não são mágica. São produtos da tecnologia takisiana. Certos rituais que até agora eram percebidos como magia negra, de fato, apenas abrem canais sensoriais para esses poderes.
O corredor abria-se para um pátio. A lua e as estrelas lançavam sobre o chão coberto de neve um brilho cintilante. Spector percebeu que foi onde devem tê-lo interrogado. Havia dois altares de pedra no centro do pátio. Ele viu um jovem nu e amarrado a um deles. O Astrônomo caminhou até ficar ao lado do refém.
— Tire as roupas da mulher e amarre-a — disse o Astrônomo.
Spector a deixou nua e amarrou suas mãos e seus pés. A mulher ainda ria.
— Extra pra bizarrice. Extra pra bizarrice — disse ela.
O Astrônomo lançou uma mordaça para ele. Spector enfiou na boca da prostituta.
— Quem é o cara? — Spector perguntou, apontando o homem nu.
— O líder de uma gangue rival. Ele é jovem, seu coração é forte e seu sangue, quente. Agora, fique quieto.
O Astrônomo ergueu as palmas das mãos e começou a falar num idioma que Spector não entendia. Outros homens e mulheres de robe entraram, silenciosos, no pátio. Muitos tinham os olhos fechados. Outros encaravam o céu noturno. O Astrônomo pousou a mão sobre o peito do jovem. Ele gritou.