— Não sei — Jube respondeu. — Vou prestar atenção. Ouviu falar do curinga com poder de espremer um diamante até transformá-lo num torrão de carvão?
Ele estava blefando e ambos sabiam disso. Ela empurrou uma safira pela toalha de mesa com o dedinho da mão esquerda, sua carne tão clara quanto vidro.
— Você deu esta aqui a um agente sanitário por uma bola de boliche que ele encontrou numa caçamba?
— Sim — disse Jube. Era magenta e branca, furada sob medida para algum curinga, seus seis buracos arranjados num círculo. Não é surpresa que tenha sido jogada no lixo.
Crisálida empurrou o rubi com o dedo mínimo, e ele se moveu pouco mais de um centímetro.
— Esta foi para um escrivão de polícia. Você quis ver registros com relação a um corpo liberado do necrotério, e qualquer coisa que eles tivessem sobre essa bola de boliche perdida. Nunca soube que você tinha uma paixão assim por boliche, Jubal.
Jube deu um tapa na barriga.
— Não pareço um jogador de boliche? Não há nada de que eu goste mais do que fazer alguns strikes e beber umas cervejas.
— Você nunca pisou numa pista de boliche na sua vida, e não saberia diferenciar um strike de um touchdown. — Os ossos de seu dedo nunca pareceram tão assustadores como quando eles ergueram o diamante. — Este item foi oferecido a Devil John Darlingfoot no meu próprio salão vermelho. — Ela o rolou entre os dedos transparentes, e os músculos de sua face retorceram-se naquilo que deve ter sido um sorriso irônico.
— Era da minha mãe — Jube revelou.
Crisálida deu uma risadinha.
— E ela nunca se importou de tê-lo cortado ou encravado? Que estranho. — Ela baixou o diamante, pegou a segunda safira. — E esta aqui… sinceramente, Jubal! Acha mesmo que Elmo não me diria? — Ela juntou cuidadosamente a pedra com as outras. — Você precisa contratar alguém para realizar algumas tarefas e investigações não específicas. Muito bem. Por que não veio até mim, simplesmente?
Jube coçou uma de suas presas.
— Você faz perguntas demais.
— Muito justo. — Ela passou a mão sobre as joias. — Temos quatro aqui. Existem outras?
Jube concordou com a cabeça.
— Uma ou duas. Estão faltando as esmeraldas.
— Que pena. Adoro verde. A cor de competição britânica. — Ela suspirou. — Por que pedras preciosas?
— As pessoas relutaram em pegar meus cheques — Jube disse para ela —, e era mais fácil que carregar grandes quantias em dinheiro.
— Se existem mais de onde essas vieram — Crisálida disse —, cuide para que fiquem onde estão. Deixe que o boato se espalhe no Bairro dos Curingas de que o Morsa tem uma caixinha secreta de pedras preciosas, e não darei um mero centavo por suas chances. Você já pode ter remexido as águas, mas esperamos que os tubarões não tenham percebido. Elmo falou apenas comigo, claro, e Devil John tem seu senso de honra peculiar, acho que podemos confiar nele para manter o bico calado. Quanto ao lixeiro e ao escrivão, quando adquiri as pedras preciosas, comprei também o silêncio deles.
— Você não precisava fazer isso!
— Eu sei — ela comentou. — Da próxima vez que quiser informação, sabe onde está o Crystal Palace. Não sabe?
— Quanto você já sabe? — Jube perguntou.
— O bastante para dizer quando você está mentindo — Crisálida respondeu. — Sei que você está procurando uma bola de boliche por razões incompreensíveis para homens, mulheres ou curingas. Sei que Darlingfoot roubou aquele cadáver curinga do necrotério, o corpo era pequeno e peludo, com pernas de gafanhoto, e bem chamuscado. Nenhum curinga correspondente a essa descrição é conhecido por qualquer das minhas fontes, uma circunstância curiosa. Sei que Croyd fez um depósito em dinheiro bem grande no dia em que o corpo foi roubado, e um ainda maior no dia seguinte, e entre os depósitos teve um confronto público com Darlingfoot. E sei que você pagou um bom dinheiro para Devil John revelar quem ele representava neste pequeno melodrama, e tentou, sem sucesso, contratar seus serviços. — Ela se inclinou para a frente. — O que não sei é o que tudo isso significa, e você sabe quanto eu abomino um mistério.
— Dizem que toda vez que um curinga peida em qualquer lugar de Manhattan, a Crisálida tampa o nariz — Jube diz. Ele a encarava intensamente, mas a transparência de sua carne tornava sua expressão impossível de decifrar. O rosto de caveira atrás de sua pele cristalina encarava-o implacável pelos olhos azul-claros.
— Qual seu interesse nisso? — perguntou a ela.
— Incerto, até eu saber o que é “isso”. No entanto, você tem sido tão útil para mim por tanto tempo, e eu odiaria perder seus serviços. Sabe que sou discreta.
— Até ser paga para ser indiscreta — Jube enfatizou.
Crisálida riu e tocou no diamante.
— Segundo suas fontes, o silêncio pode ser mais lucrativo que a fala.
— É verdade — disse Jube. Decidiu que não tinha nada a perder. — Na verdade, sou um alienígena espião de um planeta distante — ele começou.
— Jubal — Crisálida interrompeu —, você está me fazendo perder a paciência. Nunca apreciei esse seu humor. Vá direto ao ponto. O que aconteceu com Darlingfoot?
— Nada de mais — Jube admitiu. — Sei por que quero o corpo. Não sei por que outra pessoa o quer. Devil John não me disse. Acho que eles estão com a bola de boliche. Tentei contratá-lo para tê-la de volta, mas ele não quis mais negócio comigo. Acho que está com medo deles, sejam lá quem forem.
— Acho que está certo. Croyd?
— Dormiu de novo. Quem sabe que utilidade ele terá quando acordar? Posso ficar esperando seis meses e ele acordar como um hamster.
— Por uma comissão — Crisálida disse com uma certeza gélida —, posso contratar os serviços de alguém que lhe trará respostas.
Jube decidiu ser direto, pois a evasão não estava levando a lugar algum.
— Não sei se eu confiaria em qualquer um que você contratasse.
Ela riu.
— Meu garoto, é a coisa mais inteligente que você disse em meses. E está certo. Você é um alvo fácil, e alguns dos meus contatos são menos do que respeitáveis, admito. Comigo intermediando, no entanto, a equação muda. Tenho certa reputação. — Ao lado do cotovelo dela havia um pequeno sino de prata. Ela o tocou levemente. — De qualquer forma, o melhor homem para este caso é uma exceção à regra geral. De fato ele tem ética.
Jube ficou tentado.
— Quem é?
— Seu nome é Jay Ackroyd. Um ás que é investigador particular. Nos dois sentidos da palavra. Às vezes, ele é chamado de Popinjay, pois aparece quando quer, mas não na cara dele. Jay e eu trocamos favores de vez em quando. Afinal, lidamos com o mesmo produto.
Jube tocou uma presa, pensativo.
— Tudo bem. O que me impede de contratá-lo diretamente?
— Nada — Crisálida disse. Um garçom alto com impressionantes chifres de marfim entrou, carregando um amaretto e um Singapore sling numa bandeja de prata antiga. Quando saiu, ela continuou. — Quer dizer, se preferir que a curiosidade dele recaia sobre você em vez de mim.
Ele fez uma pausa.
— Talvez fosse melhor eu ficar nos bastidores.
— Exatamente o que pensei — Crisálida disse, bebericando o amaretto. — Jay nem saberá que você é o cliente.
Jube olhou para a janela. Estava uma noite escura e sem nuvens. Conseguia ver as estrelas e sabia que, em algum lugar lá em cima, a Mãe ainda aguardava. Precisava de ajuda e tinha de deixar de lado o medo.
— Você conhece um bom ladrão? — perguntou a ela, sem rodeios.
Aquilo a surpreendeu.
— Talvez — disse ela.
— Eu preciso — começou, sem jeito —, hum, de peças. Instrumentos científicos e, hum, componentes eletrônicos, microchips, coisas assim. Posso fazer uma lista para você. Envolve invadir alguns laboratórios corporativos, talvez algumas instalações federais.