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— Estou fora de qualquer coisa que seja assim tão ilegal — Crisálida disse. — Por que precisa de eletrônicos?

— Para montar um radioamador pra mim — disse Jube. — Você faria isso pra salvar o mundo?

Ela não respondeu.

— Faria isso por seis esmeraldas perfeitamente iguais do tamanho de ovos de pombo?

Crisálida sorriu lentamente, e propôs um brinde.

— A uma relação longa e lucrativa.

Ela quase poderia ser um Mestre Comerciante, Jube pensou com certa admiração. Sorrindo com as presas à mostra, levantou o Singapore sling e levou o canudinho até a boca.

Até a sexta geração

Walter Jon Williams

Epílogo

Foi fácil. Enquanto Rubor e Suado fingiam brigar na calçada em frente à van, Ricky e Loco simplesmente subiram no veículo, tiraram um par de caixas cada um e fugiram pela rua. O sujeito esquisito e alto que fazia o transporte nem notou que duas estavam faltando. Ricky se parabenizou pela ideia.

Não conseguiam oportunidades como essa com tanta frequência. O território dos limpos ficava cada vez menor. As gangues de curingas, como os Príncipes Demoníacos, estavam engolindo mais território. Que diabos, como lutar com uma coisa que parecia uma lula?

Ricky Santillanes enfiou a mão no bolso da calça jeans, tirando as chaves, e entrou no quartel do clube. Rubor foi até a geladeira pegar umas cervejas e os outros colocaram as caixas no sofá surrado e as abriram.

— Uau. Um videocassete.

— Que tipo de fitas?

— Parece que são filmes de monstros japoneses. E alguma coisa aqui chamada PORNÔ.

— Ei! Põe aí, cara!

As cervejas espocaram.

— Loco! Um computador.

— Não é um computador. É um equalizador gráfico.

— Claro que não, idiota. Já vi um computador antes. Na escola, antes de eu largar. Ricky olhou para a coisa.

— Wang não faz componentes de estéreo, cara.

— Foda-se.

Suado ergueu um gravador de CD e DVD-ROM.

— Que droga é essa aqui, cara?

— Aposto que é caro.

— Como vamos vender se não sabemos quanto pedir?

— Ei! Consegui colocar o videocassete!

Suado levantou uma esfera preta sem graça.

— Que é isso aqui, cara?

— Uma bola de boliche.

— O cacete que é. Leve demais. — Ricky a agarrou.

— Ei. Essa mina loira é gostosa.

— O que ela tá fazendo? Dando pro câmera? Cadê o cara?

— Eu já a vi em algum lugar.

— Onde tá o cara, camarada? É estranho. É como um close da orelha dela.

Ricky assistia enquanto manipulava a esfera preta. Sua superfície era morna.

— Ih! Parece que a mina tá voando ou algo assim!

— Para com isso.

— Sério. Olha. O cenário tá mexendo.

A loira pareceu estar voando, acelerando na direção do espaço ao fundo enquanto realizava atos sexuais vagamente percebidos. Era como se o parceiro invisível dela pudesse voar.

— Bizarro demais.

Loco olhou para a esfera preta.

— Me dá isso aqui — disse ele.

— Assiste ao filme aí, cara.

— Fala sério. Dá isso pra mim. — Ele esticou o braço.

— Vai se foder, idiota!

Luzes estranhas acenderam sobre as mãos de Ricky. Algo escuro cobriu Loco e, de repente, ele não estava mais lá.

Ricky levantou-se em silêncio, chocado, enquanto os outros se levantaram e gritaram. Era como se houvesse algo varrendo sua mente.

A esfera preta estava falando com ele. Parecia perdida e, de alguma forma, quebrada.

Podia fazer as coisas desaparecerem. Ricky pensou sobre os Príncipes Demoníacos e sobre o que ele poderia fazer com alguém que parecia uma lula. Um sorriso começou a se abrir em seu rosto.

— Ei, rapazes — disse ele. — Acho que tive uma ideia.

Frio invernal

George R. R. Martin

Finalmente, o dia chegou, como ele sabia que chegaria. Era um sábado, frio e cinzento, com um vento ligeiro soprando do estreito de Kill van Kull. A cafeteira Mister Coffee estava programada para preparar o café às 10h30, quando ele acordasse; nos fins de semana, Tom gostava de dormir até mais tarde. Acrescentou generosamente leite e açúcar à caneca e levou-a para a sala de estar.

Havia correspondência antiga espalhada sobre o aparador: uma pilha de contas, folhetos de supermercado anunciando vendas havia muito passadas, um cartão-postal enviado por sua irmã quando ela foi para a Inglaterra no verão anterior, um envelope pardo e longo dizendo que Sr. Thomas Tudbury já poderia ter ganhado 3 milhões de dólares, e uma porção de porcarias com as quais precisava lidar com urgência. Embaixo disso tudo estava o convite.

Ele tomou um gole de café e olhou para a correspondência. Quantos meses tinha ficado ali? Três? Quatro? Tarde demais para fazer algo sobre ela agora. Até mesmo um RSVP seria lamentavelmente inadequado naquele momento. Lembrou-se do jeito que terminava A primeira noite de um homem, e saboreou a fantasia. Contudo, ele não era Dustin Hoffman.

Como alguém cutucando uma velha casca de ferida, Tom fuçou na correspondência até reencontrar um pequeno envelope quadrado. O cartão dentro dele era branco e direto.

SR. & SRA. STANLEY CASKO

TÊM A HONRA DE CONVIDAR V.SA.

PARA O CASAMENTO DE SUA FILHA BARBARA

COM O SR. STEPHEN BRUDER, DE WEEHAWKEN,

NA IGREJA DE ST. HENRY

ÀS 14H DO DIA 8 DE MARÇO

EM SEGUIDA RECEPÇÃO NO TOP HAT LOUNGE

RSVP 555-6853

Tom correu os dedos por um longo tempo sobre o papel em relevo, então o pousou de volta no aparador, jogou o lixo no cesto de vime que ficava ao lado do sofá, e foi até a janela.

No fim da First Street, havia pilhas de neve escura ao longo das trilhas de pedestre do pequeno e estreito parque da orla. Um cargueiro com a bandeira da Noruega seguia para o Kill van Kull na direção da ponte Bayonne e do Port Newark, rebocado por uma barcaça azul. Tom estava em pé ao lado da janela da sala de estar, mão no caixilho, a outra enfiada no bolso, observando as crianças no parque, observando o avanço contínuo do cargueiro, observando a água verde e fria do Kill e os embarcadouros e os montes de Staten Island mais adiante.

Havia muito tempo, sua família vivera nos projetos habitacionais federais no fim da First Street, e a janela da sala de estar tinha visão para o parque e o Kill. Às vezes, à noite, enquanto os pais dormiam, ele se levantava, preparava um leite com chocolate e olhava pela janela para as luzes de Staten Island, que parecia impossivelmente distante e promissora. O que ele sabia? Era um projeto de criança que nunca havia deixado Bayonne.

Os grandes navios passavam mesmo à noite, e não era possível ver no escuro as trilhas de ferrugem ao lado deles ou o óleo que soltavam na água; à noite, os navios eram mágicos, ligados a altas aventuras e romances, a cidades lendárias onde as ruas reluziam numa escuridão perigosa. Na vida real, mesmo a cidade de Jersey era a terra do desconhecido, pelo que ele sabia, mas nos seus sonhos conhecia os brejos da Escócia, os becos de Xangai e a poeira de Marrakesh. Quando fez 10 anos, Tom aprendeu a reconhecer as bandeiras de mais de trinta nações diferentes.

Mas não tinha mais 10 anos. Faria 42 naquele ano e saiu de todos os quatro blocos dos projetos para uma pequena casa de tijolos vermelhos na First Street. No colégio, trabalhava nos verões arrumando aparelhos de TV. Ainda estava na mesma loja, mas subiu de cargo até gerente, e era proprietário de quase um terço dos negócios; naquela época, o lugar era chamado Broadway ElectroMart e vendia videocassetes, CD players e computadores, bem como aparelhos de televisão.