Joey deu de ombros.
— Então você liga para todas as pizzarias da cidade e manda entregar pizzas a noite inteira na casa dela. De anchova. Ninguém consegue comer pizza de anchova.
Naquele momento, maio já havia chegado, Tom havia descoberto à qual família Casko Barbara pertencia. Ela fez um comentário casual sobre a vizinhança, e ele prestou atenção de forma obsessiva, observou tudo que ela disse. Ele foi para casa e rasgou aquela página do catálogo telefônico e circulou o número de telefone com sua Bic. Até começou a discar. Cinco ou seis vezes. Mas nunca completou a chamada.
— Por que não, droga? — Joey perguntou.
— É muito tarde — disse Tom, com tristeza. — Quer dizer, a gente se conhece desde setembro, e eu não a chamei para sair; se chamar agora, ela vai pensar que sou um cagão ou algo assim.
— Você é um cagão — Joey disse.
— Pra quê? Vamos pra faculdades diferentes. Provavelmente a gente nunca mais vai se ver de novo depois de junho.
Joey amassou uma lata de cerveja na mão e disse três palavras.
— Baile de formatura.
— O que é que tem?
— Chame-a pro baile de formatura. Você quer ir ao baile, não é?
— Sei lá — Tom respondeu. — Quer dizer, não sei dançar. E que pergunta é essa? Você nunca foi a nenhuma porcaria de baile de formatura?
— Bailes de formatura são uma merda — Joey disse. — Quando saio com uma garota, prefiro levar pra a Estrada 44 e ver se consigo ver uns peitinhos do que segurar a mão dela num ginásio, sabe? Mas você não sou eu, Tuds. Não tenta me enganar. Você quer ir para aquele baile estúpido e nós dois sabemos disso, e se você entrar lá com a garota mais linda do lugar, vai estar no céu, caramba.
— Estamos em maio — Tom disse, com pesar. — Barbara é a garota mais linda de Bayonne, impossível ela já não ter companhia pro baile.
— Tuds, vocês são de escolas diferentes. Ela provavelmente conseguiu um acompanhante para o baile dela, mas qual a probabilidade de ela ter um pro seu baile? As garotas amam essas bostas de baile, se empetecar e vestir corpetes e dançar. Vai lá, Tuds. Não tem nada a perder. — Ele sorriu. — A não ser sua virgindade.
Na semana seguinte, Tom não pensava em nada além daquela conversa. O tempo estava acabando. A Junior Achievement estava no fim, e assim que terminasse nunca mais veria Barbara novamente, a menos que fizesse algo. Joey estava certo: ele precisava tentar.
Na terça-feira à noite, seu estômago parecia um nó durante a longa viagem de ônibus até a parte alta da cidade, e ele foi ensaiando a conversa na cabeça. As palavras não viriam certas, não importava quantas vezes ele as rearranjasse, mas estava determinado que alguma coisa sairia, de algum jeito. Estava aterrorizado com a possibilidade de ela dizer não, e ainda mais temeroso que ela pudesse dizer sim. Mas precisava tentar. Não poderia apenas deixá-la ir embora sem que soubesse quanto gostava dela.
Sua maior preocupação era como diabos, ele poderia de alguma forma levá-la para outro lugar, longe dos outros jovens. Com certeza, não queria chamá-la para sair na frente de todo mundo. O pensamento lhe dava arrepios. As outras garotas pensavam que ele era hilário o suficiente do jeito que era, a presunção de ele chamar Barbara Casko para o baile faria com que rolassem de tanto rir. Ele apenas esperava que ela não dissesse a elas depois. Ele não achava que ela iria.
O problema estava resolvido para ele. Era a última reunião, e os consultores estavam entrevistando os presidentes de todas as empresas diferentes. Davam um título do Tesouro para o jovem escolhido como presidente do ano. Barbara fora presidente da empresa pelo primeiro semestre, Tom para o segundo; teriam de ficar esperando do lado de fora do corredor, apenas os dois, sozinhos, juntos, enquanto os outros estariam na reunião e os consultores estariam fora fazendo entrevistas.
— Espero que você vença — Tom disse, enquanto esperavam.
Barbara sorriu para ele. Estava com um suéter azul-claro e uma saia plissada um pouco abaixo dos joelhos, e em torno do pescoço tinha um medalhão em forma de coração numa corrente de ouro fina. Seus cabelos loiros pareciam tão macios que ele queria tocá-los, mas claro que não ousou. Ela estava em pé bem perto dele, e ele conseguia sentir como eles estavam limpos e cheirosos.
— Você está muito bonita — ele soltou, desajeitado.
Sentiu-se um idiota, mas Barbara pareceu não notar. Ela olhou para ele com seus olhos azuis, tão azuis.
— Obrigada — disse. — Espero que eles não demorem.
E, então, ela fez algo que o deixou surpreso — esticou o braço e o tocou, colocando a mão no braço dele, e disse:
— Tommy, posso te fazer uma pergunta?
— Uma pergunta — ele repetiu. — Claro.
— Sobre seu baile de formatura — Barbara disse.
Ele ficou como um zumbi por um longo momento, consciente do frio no corredor, dos risos distantes da sala de aula, das vozes dos consultores atravessando a porta de vidro jateado, da leve pressão da mão de Barbara e, acima de tudo, da proximidade dela, aqueles olhos azuis profundos olhando para ele, o medalhão pendurado entre as pequenas saliências arredondadas dos seios, o cheiro limpo e fresco dela. Para variar, não estava sorrindo. A expressão no rosto dela quase poderia ser de nervosismo. Isso apenas a deixava mais bonita. Ele queria abraçá-la e beijá-la. Estava desesperado de medo.
— O baile de formatura — ele finalmente se controlou. Com fraqueza. Ridiculamente, ele de súbito tomou ciência de uma imensa ereção apertando-se dentro das calças. Ele esperava apenas que ela não fosse notada.
— Você conhece o Steve Bruder? — ela perguntou.
Tom conhecia Steve Bruder desde a segunda série. Era o presidente de classe e jogava como pivô do time de basquete. Na escola primária, Stevie e seus amiguinhos costumavam humilhar Tom com socos. Agora, eram sofisticados alunos do último ano do secundário; usavam apenas as palavras.
Barbara não esperou pela resposta dele.
— A gente estava saindo — ela disse a ele. — Pensei que ele me chamaria para o baile, mas não chamou.
Você poderia ir comigo! Tom pensou loucamente, mas tudo que disse ele foi:
— Não chamou?
— Não — disse ela. — Você sabe, quer dizer, se ele chamou outra pessoa? Acha que ele vai me chamar?
— Não sei — Tom disse, chateado. — A gente não conversa muito.
— Ah — Barbara disse. Sua mão se afastou, e então a porta se abriu e o chamaram.
Naquela noite, Tom ganhou um título do Tesouro de cinquenta dólares como Presidente do Ano da Junior Achievement. Sua mãe não entendia por que ele parecia tão infeliz.
O ferro-velho ficava na praia de Hook, entre o amontoado de uma refinaria de petróleo abandonada e as águas verdes e frias da baía de Nova York. A cerca de alambrado com três metros de altura estava caindo aos pedaços, e a placa à direita do portão que alertava contra a entrada de estranhos tinha ferrugem. Tom saiu do carro, abriu o cadeado, desenroscou as pesadas correntes e entrou.
A cabana onde Joey e o pai, Dom, viveram havia muito tinha desaparecido nas ruínas. Não se lia mais os escritos esmaecidos da placa no telhado, mas Tom ainda via as letras apagadas: PEÇAS DE AUTOMÓVEIS E FERRO-VELHO DI ANGELIS. Tom comprara e fechara o ferro-velho dez anos antes, quando Joey se casou. Gina não queria viver num ferro-velho e, além disso, Tom estava cansado de todas as pessoas que rondavam por horas procurando uma transmissão DeSoto ou um para-choque para um Edsel 1957. Nenhum deles jamais deu de cara com seus segredos, mas houve situações que passaram por um triz, e mais de uma vez foi obrigado a passar a noite em algum telhado escuro no Bairro dos Curingas, porque em casa a barra não estava limpa.
Agora, após uma década de negligência benigna, o ferro-velho era um campo desordenado de ferrugem e desolação, e ninguém sequer se importava de dirigir até lá.