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Tom estacionou seu Honda atrás da cabana e entrou a passos largos no ferro-velho com as mãos enfiadas nos bolsos e o capuz sobre a cabeça para se proteger do vento frio e salino vindo da baía. Ninguém tirara a neve dali, e não havia tráfego que a transformasse numa lama marrom imunda. Os montes de entulho e lixo pareciam polvilhados com açúcar de confeiteiro, e ele passou por pilhas maiores que ele, ondas brancas congeladas que arrebentariam quando as temperaturas aumentassem na primavera.

Bem no fundo, entre as pilhas agigantadas de automóveis enferrujados como lâminas de navalha, havia um lugar vazio. Tom chutou para longe a neve com a sola do sapato até descobrir a placa de metal plana. O metal congelara, e ele estava ofegante antes de conseguir virar a tampa um metro para o lado e abrir o túnel embaixo dela. Teria sido muito mais fácil usar a telecinesia, arrastá-la com a mente. No passado, poderia ter feito isso. Não agora. O tempo prega peças engraçadas na gente. Dentro da concha, ficou cada vez mais forte, mas do lado de fora sua telecinesia enfraqueceu com o passar dos anos. Era tudo psicológico, Tom sabia disso; a concha transformou-se numa espécie de muleta, e sua mente recusava-se a deixá-lo usar a telecinesia sem ela, era isso. Porém, em alguns dias, quase parecia que Thomas Tudbury e o Grande e Poderoso Tartaruga tinham se tornado duas pessoas diferentes.

Ele mergulhou na escuridão, no túnel que ele e Joey cavaram juntos, noite após noite, nos idos de… que ano foi aquilo? 1969? 1970? Algo assim. Encontrou a grande lanterna de plástico no gancho, mas o facho de luz estava pálido e fraco. Precisava se lembrar de trazer pilhas novas da loja quando voltasse. Alcalinas da próxima vez, pois duravam muito mais.

Caminhou cerca de vinte metros antes de o túnel acabar, e a escuridão do bunker abriu-se em torno dele. Era apenas um grande buraco no chão, que ele escavou com sua telecinesia, seu teto rústico coberto por uma camada fina de terra e entulho para esconder o que havia embaixo. O ar estava denso e bolorento, e ele ouviu os ratos correndo da luz da lanterna. Na revista em quadrinhos, o Tartaruga tinha uma Caverna Tartaruga nas profundezas das águas da baía de Nova York, um lugar maravilhoso com teto abaulado e bancadas com computadores, e um mordomo que vivia lá e espanava todos os troféus e preparava refeições gourmet. Os roteiristas da Cosh Comics tinham feito algo muito melhor para ele do que ele jamais conseguiria fazer para si mesmo.

Passou pelas duas carapaças mais antigas até o último modelo, apertou a combinação e ergueu a escotilha. Rastejando para dentro, Tom fechou a carapaça e encontrou sua cadeira. Tateou pelo cinto de segurança e o afivelou. O assento era amplo e confortável, com apoios de braços com estofado grosso e o cheiro agradável de couro. Os painéis de controle estavam encaixados nas pontas dos braços da poltrona para fácil acesso com os dedos, os quais tatearam os botões com a facilidade de uma longa familiaridade, ligando ventiladores, aquecimento e luzes. O interior da carapaça era confortável e aconchegante, revestido com carpete felpudo verde. Tinha quatro televisões coloridas de 23 polegadas pregadas nas paredes acarpetadas, cercadas por bancadas de pequenas telas e outros instrumentos.

Seu dedo indicador esquerdo fez pressão numa tecla e as câmeras externas voltaram à vida, preenchendo as telas com formas cinzentas e vagas, até ele ligar o infravermelho. Tom empertigou-se devagar, verificando as imagens, testando as luzes, certificando-se de que tudo estava funcionando. Fuçou numa caixa de fitas cassete até encontrar Bruce Springsteen. Um cara bacana de Jersey, Tom pensou. Enfiou a fita no toca-fitas e Bruce lançou direto “Glory Days”. Isso fez com que ele abrisse um sorriso superficial, difícil.

Tom inclinou-se para a frente e acionou uma alavanca. De algum lugar lá fora veio um zumbido. Pelo som, aquele mecanismo de abertura de garagem precisaria ser trocado logo. Nas telas, viu a luz entrar no bunker de cima. Uma cascata de neve e gelo caiu no chão de terra. Ele forçou com a mente; e a carapaça blindada se ergueu, e começou a flutuar na direção da luz. Então, Barbara Casko estava se casando com aquele babaca do Steve Bruder, e o que lhe importava? O Grande e Poderoso Tartaruga estava saindo para acabar com algum monstrengo.

Uma coisa que Tom Tudbury havia descoberto havia muito tempo era que a vida não dava muitas segundas chances. Ele era sortudo. Teve uma segunda chance com Barbara Casko.

Aconteceu em 1972, uma década depois de tê-la visto pela última vez. A loja ainda chamava Broadway Television and Eletronics na época, e Tom era assistente de gerente. Estava atrás da caixa registradora, de costas para o balcão, enquanto arrumava algumas prateleiras, quando uma voz feminina disse:

— Com licença.

— Sim — ele falou, virando-se e encarando a mulher.

Seu cabelo loiro-escuro estava muito mais longo, chegando à metade das costas, e estava usando óculos espelhados de armações plásticas superfaturadas, mas atrás das lentes os olhos eram daquele azul. Vestia um suéter Fair Isle e calças jeans desbotadas, e alguma coisa na sua figura estava ainda melhor aos 27 do que era aos 17. Ele olhou para a mão dela e tudo que viu foi um anel de faculdade.

— Barbara — disse ele.

Ela olhou, surpresa.

— O senhor me conhece?

Tom apontou para o bóton de McGovern no suéter dela.

— Você me nomeou presidente, há muitos anos — ele falou.

— Eu não — ela começou, com um franzir perplexo no rosto, ainda aquele rosto mais lindo que sempre sorria para Tom Tudbury em toda a sua vida.

— Eu costumava usar corte escovinha — disse ele. — E uma jaqueta de veludo aberta. Preta. — Ele tocou seus óculos de aviador. — Essas eram armações de tartaruga da última vez que você me viu. Eu pesava quase o mesmo, mas era uns centímetros menor. E estava tão a fim de você que você mal poderia acreditar.

Barbara Casko sorriu. Por um momento, pensou que ela estava blefando. Mas os olhos dela encontraram-se com os dele, e ele soube.

— Como vai você, Tom? Faz tempo, hein?

Muito tempo, ele pensou. Ah, sim. Outra era.

— Estou bem — disse ele. Ao menos, era uma meia verdade. Era o fim da década mais emocionante do Tartaruga. A vida de Tom estava rapidamente se perdendo — saiu da faculdade após JFK ter sido baleado, e desde então vivia em um apartamento ruim num porão da 31st Street. Na verdade, nem se importava. Tom Tudbury e seu emprego estúpido eram secundários na sua vida real; eram o preço que pagava por aquelas noites e fins de semana na carapaça. No colégio, foi um gorducho introvertido com cabelo escovinha, todo inseguro, e com um poder secreto que apenas Joey conhecia. E agora era o Grande e Poderoso Tartaruga. Herói misterioso, celebridade, ás dos ases, e toda essa merda.

Claro que não poderia contar nada disso a ela.

Contudo, de alguma forma, isso nem importava. Apenas o fato de ser o Tartaruga mudou Tom Tudbury, lhe dera mais confiança. Por dez anos, teve fantasias e sonhos eróticos com Barbara Casko, arrependeu-se de sua covardia, se perguntou sobre a estrada que não tomou e o baile ao qual nunca foi. Uma década depois, Tom Tudbury finalmente abriu o jogo.

— Você está magnífica — disse ele com toda a sinceridade. — Saio às cinco. Quer jantar comigo?

— Claro — disse ela. Então, riu. — Eu me perguntava quanto demoraria para me chamar para sair. Nunca pensei que seriam dez anos. Acho que você acabou de bater um novo recorde escolar.

Monstros eram como policiais, Tom concluiu; nunca estavam por perto quando realmente precisava deles.

Em dezembro, a história foi outra. Lembrou a primeira visão deles, lembrou que viagem longa e surreal pela rodovia de Jersey em direção à Filadélfia. Atrás dele havia uma coluna blindada; à frente, a rodovia estava deserta. Nada se movia, além de alguns jornais flutuando pelas pistas vazias. Nos dois lados da estrada, os aterros de lixo tóxico e as usinas petroquímicas se espalhavam como tantas cidades-fantasma. Aqui e ali, encontravam alguns refugiados exaustos escapando do Enxame, mas era isso. Como num filme, Tom pensou. Não acreditava naquilo.