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Até entrarem em contato.

Um arrepio subiu pela sua espinha quando o androide arremeteu de volta para a coluna com a notícia de que o inimigo estava próximo e seguindo para Filadélfia.

— É isso — Tom disse para Peregrina, que pegara uma carona na carapaça para descansar as asas.

Ele demorou demais para encontrar uma fita — Creedence Gold — e a deslizou no toca-fitas antes de os brotos surgirem no horizonte como uma onda preta. Os voadores enchiam o ar na distância que as câmeras podiam captar, uma nuvem móvel de escuridão como uma imensa tempestade se aproximando. Ele se lembrou do tornado de O mágico de Oz, e como isso o deixou assustado na primeira vez que viu o filme.

Embaixo daquelas asas pretas, outros brotos se moviam — rastejando em barrigas segmentadas, caminhando sobre pernas de aranha de um metro, vazando pela estrada como A bolha assassina, e nada de Steve McQueen por aquelas bandas. Cobriam a estrada de lado a lado e transbordavam pelas beiradas, e moviam-se mais rápido do que ele conseguia imaginar.

Peregrina alçou voo. O androide já mergulhava na direção do inimigo, e Tom viu Mistral chegando, de baixo para cima, um relampejar azul entre as nuvens frias e finas. Engoliu em seco e colocou os alto-falantes no último volume; “Bad Moon Rising” retumbava no céu escuro. Ele se lembrou de pensar que a vida nunca seria a mesma. Quase quis acreditar naquilo. Talvez o novo mundo fosse melhor que o antigo.

Porém, era dezembro, e aquilo havia acontecido em março, e a vida era muito mais resiliente do que podia reconhecer. Como pombos-passageiros, os brotos ameaçaram escurecer o sol, e como os pombos-passageiros, desapareceram quase que imediatamente. Após aquele momento inesquecível, mesmo a guerra dos mundos havia se transformado em apenas outra tarefa. Era mais pesquisa do que combate, como matar baratas especialmente grandes e feias. Garras, pinças e unhas venenosas eram inúteis contra sua armadura; o ácido secretado pelos voadores ferraram bem suas lentes, mas aquilo era mais um incômodo do que um perigo. Ele se pegou tentando pensar em maneiras novas e imaginativas de matar aquelas coisas para aliviar o tédio. Voava com eles até bem alto no céu, cortava-os ao meio, agarrava-os em punhos invisíveis e os esmagava como guacamole. Dia após dia, de novo e novamente, sem fim, até pararem de chegar.

E, depois disso, de volta para casa, ficou surpreso com a rapidez na qual a Guerra do Enxame desapareceu das manchetes, e como a vida voltou tão facilmente ao curso normal. No Peru, em Chade e nas montanhas do Tibete, as principais infestações alienígenas continuavam sua devastação, e remanescentes menores ainda causavam problemas aos turcos e nigerianos, mas os enxames do Terceiro Mundo eram apenas conteúdo da página quatro na maioria dos jornais norte-americanos. Enquanto isso, a vida continuava. As pessoas faziam pagamentos de hipoteca e trabalhavam; aqueles cujas casas e trabalhos haviam sido destruídos, preenchiam devidamente os pedidos de pagamento de seguro e se inscreviam no seguro-desemprego. As pessoas reclamavam do tempo, contavam piadas, iam ao cinema, brigavam sobre os esportes.

As pessoas faziam planos de casamento.

Os brotos não tinham sido completamente exterminados, é claro. Alguns monstros remanescentes espreitavam aqui e ali, em lugares distantes e em alguns nem tão distantes. Tom ansiava encontrar um hoje. Podia ser até um pequeno — voador, rastejador, não importava para ele. Teria ficado contente com criminosos comuns, um incêndio, um acidente de carro, qualquer coisa que tirasse Barbara de sua cabeça.

Nada para fazer. Era um dia cinzento, frio, deprimente, estúpido, mesmo no Bairro dos Curingas. Seu rádio de monitoramento da polícia não relatava nada além de alguns problemas domésticos, e tinha a regra de nunca se envolver neles. Com o passar dos anos ele descobriu que mesmo a mulher mais maltratada tende a ficar de alguma forma horrorizada quando uma carapaça do tamanho de um automóvel Lincoln Continental atravessa a parede do quarto e diz ao seu marido para tirar as mãos dela.

Ele cruzou toda a extensão da Bowery, flutuando no nível dos telhados, a carapaça lançando uma longa sombra preta que mantinha o ritmo com ela nas calçadas abaixo. O tráfego passava por baixo dele sem nem desacelerar. Todas as câmeras rastreavam, dando-lhe visualizações de mais ângulos do que poderia precisar. Tom olhava incansavelmente tela por tela, observando os transeuntes. Eles mal o notavam. Uma olhada rápida para cima quando a carapaça pairava pela sua visão periférica, um lampejo de reconhecimento, e então voltavam a cuidar da vida, entediados. É só o Tartaruga, ele os imaginou dizendo. Notícia antiga. Os dias de glória se extinguiram.

Vinte anos antes as coisas eram diferentes. Foi o primeiro ás a vir a público após uma longa década de ocultação, e tudo que fazia ou dizia era celebrado. Os jornais ficavam cheios com suas façanhas, e quando o Tartaruga sobrevoava, as crianças gritavam e apontavam, e todos os olhos se voltavam para sua direção. Multidões vibravam intensamente com fogos de artifício, desfiles e assembleias públicas. No Bairro dos Curingas, os homens tiravam suas máscaras para ele, e as mulheres lhe mandavam beijinhos quando passava. Era o próprio herói do Bairro dos Curingas. Como ele se escondia numa carapaça blindada e nunca mostrava o rosto, muitos dos curingas supunham que ele fosse um deles, e o amavam por isso. Era um amor baseado na mentira, ou ao menos na incompreensão, e às vezes se sentia culpado por causa disso, mas, naqueles dias, os curingas precisavam desesperadamente de um dos seus para aplaudir; assim, ele deixou que os rumores continuassem. Nunca se esquivou para dizer ao público que na verdade era um ás; em algum momento, nem conseguia mais lembrar quando, o mundo parou de se importar com quem ou o que poderia estar dentro da carapaça do Tartaruga.

Naqueles dias, havia setenta ou oitenta ases apenas em Nova York, talvez até uma centena, e ele era apenas o mesmo velho Tartaruga. Agora, o Bairro dos Curingas tinha seus verdadeiros heróis curingas: Estranheza, Troll, Quasiman, as Irmãs Bizarras, além de ases-curingas que não tinham medo de mostrar o rosto para o mundo. Por anos, sentiu-se mal por aceitar a adulação dos curingas sob falsas premissas, mas assim que isso acabou descobriu que sentia falta dela.

Passando pelo Sara Roosevelt Park, Tom percebeu um curinga com cabeça de bode agachado na base do monumento abstrato de ferro vermelho em homenagem àqueles que morreram na Grande Revolta do Bairro dos Curingas, em 1976. O homem olhou para a carapaça com aparente fascinação. No fim das contas, talvez ele não estivesse totalmente esquecido, Tom pensou. Deu um zoom para olhar melhor seu fã. Foi quando percebeu o grosso cordão de muco verde e úmido pendurado do canto da boca do homem-cabra, e o vazio naqueles mínimos olhos pretos. Um sorriso triste espalhou-se pela boca de Tom. Ele ligou o microfone.

— Ei, rapaz — anunciou nos alto-falantes. — Tudo bem com você aí embaixo? — O homem-cabra mexia a boca, silenciosamente.

Tom suspirou. Alcançou o curinga com a mente e o ergueu no ar. O homem-cabra nem mesmo lutou. Apenas olhava à distância, vendo sabe-se lá Deus o que, enquanto a baba lhe corria da boca. Tom o segurou num ponto sob a carapaça e partiu na direção da South Street.

Pousou o homem-cabra delicadamente entre os deteriorados leões de pedra que guardavam os degraus da clínica do Bairro dos Curingas e aumentou o volume dos alto-falantes.

— Tachyon — disse ao microfone, e “TACHYON” retumbou pela rua, sacudindo janelas e assustando motoristas na avenida Franklin D. Roosevelt. Uma enfermeira de olhar penetrante apareceu na porta da frente e o encarou com raiva.