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— Trouxe um pra vocês — Tom disse, num volume mais ameno.

— Quem é ele? — ela perguntou.

— Presidente do Fã-Clube do Tartaruga — Tom falou. — Como posso saber quem ele é? Mas precisa de ajuda. Olhe para ele.

A enfermeira lançou um olhar superficial para o curinga, então chamou dois assistentes que ajudaram o homem a entrar.

— Onde está Tachyon? — Tom perguntou.

— Almoçando — respondeu a enfermeira. — Deve voltar às 13h30. Provavelmente está no Hairy’s.

— Deixa pra lá — Tom disse. Deu impulso e a carapaça ergueu-se na direção do céu. A via expressa, o rio, os telhados do Bairro dos Curingas diminuíam embaixo dele.

Engraçado, mas quanto mais alto estivesse, mais bela parecia Manhattan. Os magníficos arcos de pedra da ponte do Brooklyn, as alamedas retorcidas de Wall Street, a Senhora Liberdade na ilha, os navios no rio e as balsas na baía, as torres altivas do edifício da Chrysler e do Empire State, a vastidão verde e branca do Central Park; das alturas, o Tartaruga inspecionava tudo. O padrão intrincado do tráfego fluindo pelas ruas da cidade era quase hipnótico, se você olhasse por bastante tempo. Olhando para baixo do céu frio invernal, Nova York era linda e incrível, como nenhuma outra cidade no mundo. Apenas quando se descia entre aqueles cânions de concreto era possível ver a sujeira, sentir o cheiro do lixo podre em milhões de latas amassadas, ouvir os xingamentos e os gritos, e sentir a profundidade do medo e da desgraça.

Ele pairava bem alto sobre a cidade, um vento frio gemendo em torno da carapaça. O rádio da polícia chiava trivialidades. Tom ligou a frequência da Marinha, pensando que talvez pudesse encontrar um barquinho em perigo. Uma vez, salvou seis pessoas de um iate que havia emborcado numa borrasca de verão. Mais tarde, o grato proprietário entregou-lhe uma recompensa gigantesca. O cara era esperto também: pagou em dinheiro, pequenas notas gastas, nada maior do que vinte dólares. Seis malditas maletas. Os heróis que Tom lia quando criança sempre recusavam os prêmios, mas nenhum deles vivia num apartamento pequeno ou dirigia um Plymouth com oito anos de uso. Tom pegou o dinheiro, aliviou a consciência dando uma maleta para a clínica, e usou as outras cinco para comprar sua casa. Não havia como conseguir comprar uma casa própria com o salário de Tom Tudbury. Às vezes, preocupava-se com as auditorias da receita federal, mas até agora isso não havia acontecido.

Seu relógio mostrava 13h03. Hora do almoço. Abriu o pequeno refrigerador no assoalho, onde havia deixado uma maçã, um sanduíche de presunto e um engradado com seis latas de cerveja.

Quando acabou de almoçar, eram 13h17. Menos de 45 minutos, ele pensou, e lembrou-se daquele filme do velho Cagney sobre George M. Cohan e da música “Forty-Five Minutes From Broadway”. Naquele momento, um ônibus saindo da rodoviária de Port Authority levaria 45 minutos para chegar a Bayonne, mas era mais rápido pelo ar. Dez minutos, 15 no máximo, e ele poderia voltar.

Mas para quê?

Ele desligou o rádio, enfiou de novo o Springsteen no toca-fitas e rebobinou até encontrar “Glory Days” novamente.

Na segunda vez, as coisas foram muito melhores.

Após a graduação, ela foi para Rutger, Barbara disse a ele naquela primeira noite, em meio a sanduíches de steak e canecas de cerveja no Hendrickson’s. Ela recebeu o diploma de professora, passou dois anos na Califórnia com um namorado e voltou para Bayonne quando terminaram. Estava dando aulas lá agora, jardim de infância, e na antiga escola primária de Tom, por ironia do destino.

— Eu amo — disse ela. — As crianças são fantásticas. Cinco anos é uma idade mágica.

Tom a deixou falar sobre a vida por um longo tempo, feliz apenas por estar ali sentado com ela, ouvindo sua voz. Gostava do jeito como os olhos dela reluziam quando falava das crianças. Quando finalmente ela cansou, ele fez aquela pergunta que o incomodara todos aqueles anos.

— Steve Bruder chamou você para o nosso baile?

Ela fez uma careta.

— Não, aquele filho da puta. Foi com Betty Moroski. Chorei por uma semana.

— Ele era um idiota. Meu Deus, ela não chegava aos seus pés.

— Não — Barbara contestou, com um retorcer irônico na boca —, mas já transava, e eu não. Esqueça isso. E você? O que você tem feito nos últimos dez anos?

Seria infinitamente mais interessante se tivesse dito a ela sobre o Tartaruga, sobre a vida nos céus frios e nas ruas malvadas, sobre os apuros, os bons tempos e as manchetes. Poderia ter se vangloriado de ter capturado o Grande Gorila durante o grande blecaute de 1965, poderia ter dito a ela como salvou a vida e a sanidade do Dr. Tachyon, poderia ter, como quem não quer nada, mencionado nomes dos famosos e infames, ases e curingas, e celebridades de todos os níveis. Mas tudo aquilo era parte de outra vida e pertencia a um ás que vinha enlatado numa carapaça de ferro. A única coisa que tinha para oferecer a ela era Thomas Tudbury. Enquanto falava sobre si, percebeu pela primeira vez como sua vida “real” era verdadeiramente vazia e triste.

Ainda assim, parecia ser o suficiente.

Aquele primeiro encontro levou a um segundo, o segundo a um terceiro, e logo se encontravam regularmente. Não era o namoro mais empolgante do mundo. Durante a semana, iam aos cinemas locais, no DeWitt ou no Lyceum; às vezes, apenas assistiam à televisão juntos e se revezavam na preparação do jantar. Aos fins de semana, iam para Nova York; peças da Broadway quando podiam pagar por elas, jantares tardios em Chinatown e Little Italy. Quanto mais ficava com ela, mais achava impossível estar sem ela.

Os dois gostavam de vinho tinto, pizza e rock and roll. Ela havia participado de passeatas em Washington um ano antes para tirar as tropas do Vietnã, e ele esteve lá também (dentro de sua carapaça, flutuando sobre a alameda com símbolos de paz na sua armadura e uma linda loira de bustiê e jeans sentada sobre a carapaça, cantando as canções antiguerra que retumbavam dos alto-falantes, mas não podia contar a ela aquela parte). Ela amou Gina e Joey, e os pais dela pareciam aprová-lo. Ela era torcedora de beisebol, levada a abominar os Yankees e a amar os Brooklyn Dodgers, como ele. Quando chegou outubro, ela se sentou ao lado dele nas arquibancadas do Ebbetts Field, quando Tom Seaver arremessou os Dodgers para a vitória sobre o Oakland A’s, no 17o e decisivo jogo da série. Um mês depois, ele estava lá para compartilhar sua angústia na derrota esmagadora de McGovern. Eles tinham tanto em comum.

Ele apenas não percebera quanto até a semana depois do dia de Ação de Graças, quando ela chegou ao apartamento dele para o jantar. Ele foi para a cozinha, abriu o vinho e verificou o molho do espaguete, e quando voltou a encontrou em pé na frente de sua estante de livros, folheando uma edição em brochura de O dia da carta selvagem, de Jim Bishop.

— Você deve ter interesse nessa coisa — disse ela, erguendo a cabeça na direção dos livros. A coleção sobre o carta selvagem tomava quase três prateleiras. Ele tinha tudo: todas as biografias do Jetboy, a coleção de discursos de Earl Sanderson e as memórias de Archibald Holmes, o Wild Card Chic, de Tom Wolfe, a autobiografia de Ciclone escrita por Robin Moore, o Information Please Almanac of Aces, e muito mais. Inclusive, claro, tudo que havia sido publicado sobre o Tartaruga.

— Sim — ele comentou —, isso, hum, sempre me interessou. Essas pessoas. Eu amaria conhecer um carta selvagem.

— Você conhece — disse ela, sorrindo, devolvendo o livro para a estante ao lado do Homem invisível, de Ralph Ellison.

— Conheço? — Ele estava confuso e um pouco surpreso. Ele teria se denunciado de alguma forma? Joey contou para ela? — Quem?