Выбрать главу

— Eu — Barbara disse. Ele deve ter olhado com incredulidade. — Não, é sério — disse ela. — Eu sei, não parece. Não sou um ás nem nada disso. Ele não fez nada comigo, ao menos ninguém pode dizer. Mas eu peguei. Tinha apenas dois anos, então não me lembro de nada. Minha mãe disse que eu quase morri. Os sintomas… eu devo ter ficado com uma aparência inacreditável. Nosso médico primeiro pensou que fosse caxumba, mas meu rosto não parava de inchar, até ficar parecendo uma bola de basquete. Então, eles me transferiram pro Hospital Mt. Sinai. Era lá que o Dr. Tachyon trabalhava na época.

— Sei — Tom disse.

— Bem, eu me recuperei. O inchaço durou apenas alguns dias, mas ele me reteve lá por um mês, fazendo exames. Era mesmo o carta selvagem, mas poderia ter sido também catapora, por tudo que causou. — Ela riu. — Ainda assim, era nosso segredo de família profundo, obscuro. Papai saiu do emprego e nós nos mudamos para Bayonne, onde ninguém nos conhecia. As pessoas suspeitavam dos cartas selvagens naquela época. Eu mesma soube apenas quando entrei na faculdade. Mamãe teve medo que eu contasse.

— Você contou?

— Não — Barbara falou. Parecia estranhamente séria. — Para ninguém. Até esta noite, pelo menos.

— Então, por que você me contou? — Tom perguntou.

— Porque eu confio em você — disse ela, num sussurro.

Ele quase contou para ela, ali, na sala de estar. Ele quis. Mais tarde, sempre que pensava sobre aquela noite, flagrava-se desejando ter contado, e se perguntava o que teria acontecido.

Mas, quando abriu a boca para dizer as palavras, para lhe falar sobre a telecinesia e o Tartaruga e os segredos do ferro-velho, foi como se os anos tivessem voltado e ele estivesse novamente no colégio, em pé ao lado dela naquele corredor, querendo desesperadamente chamá-la para ir ao baile e, de alguma forma, incapaz de fazê-lo. Ele guardou seus segredos por tanto tempo. As palavras não vieram. Tentou, por um bom tempo ele tentou. Então, vencido, ele a abraçou e murmurou:

— Fico feliz que você tenha me dito. — E se retirou para a cozinha a fim de se recompor. Ele olhou para o molho do espaguete quase fervendo no fogão, e de repente esticou o braço e desligou o fogo.

— Pegue seu casaco — disse ele quando voltou até ela. — Os planos mudaram. Vou te levar para jantar fora.

— Fora? Onde?

— Aces High — disse ele enquanto pegava o telefone para fazer a reserva. — Vamos ver aqueles cartas selvagens hoje à noite.

Eles jantaram entre ases e estrelas. Custou a ele duas semanas de salário, mas valeu a pena, mesmo que o maître tenha olhado para seu terno de veludo cotelê e os levado para uma mesa no fundo, ao lado da cozinha. A comida foi quase tão extraordinária quanto a luz nos olhos de Barbara. Estavam se deliciando com a entrada quando Dr. Tachyon entrou, vestindo um smoking de veludilho e acompanhado pela Liza Minelli. Tom foi até a mesa deles e pegou o autógrafo de ambos num guardanapo de coquetel.

Naquela noite, Barbara e ele fizeram amor pela primeira vez. Depois, enquanto ela dormia com o corpo encolhido encostado no dele, Tom se deu conta do calor dela, sonhando com os anos vindouros, e se perguntando por que diabos ele demorou tanto.

Ele estava dando uma volta sobre o lago do Central Park, ouvindo Bruce e comendo um pacote de Doritos sabor queijo nacho, quando percebeu que estava sendo seguido por um pterodátilo.

Através de uma lente telescópica, Tom observou-o circulando sobre ele, flutuando com o vento numa envergadura de quase dois metros de couro. Franzindo a testa, parou a fita e falou no alto-falante.

— EI! — ele reverberou no ar invernal. — NÃO TÁ FRIO AÍ? VOCÊ É UM RÉPTIL, VAI CONGELAR A BUNDA ESCAMOSA.

O pterodátilo respondeu com um grito alto, fino, fez uma volta grande e aproximou-se para pousar sobre a carapaça, batendo as asas com força ao descer para evitar escorregar pelas beiradas. Suas garras riscaram o metal e encontraram apoio nas ranhuras entre as placas da armadura.

Suspirando, Tom observou numa das grandes telas quando o pterodátilo estremeceu, fluiu e transformou-se no Kid Dinossauro.

— Também deve estar frio pra você — o garoto disse.

— Eu tenho aquecedores aqui dentro — Tom disse. O garoto já estava ficando azulado, o que não era surpreendente, visto que estava nu. Não parecia muito estável ali também. O topo da carapaça era bem amplo, mas tinha mesmo uma inclinação pronunciada, e dedos humanos não conseguiam agarrar nas fendas entre as placas tão bem quanto as garras do pterodátilo. Tom começou a pairar para descer.

— Seria muito bem feito para você se eu desse um loop e te jogasse direto no lago.

— É só me transformar de novo e voar — o Kid Dinossauro disse. Ele tremia. — Está frio. Eu não tinha percebido. — Na sua forma humana, o único ás pirralho de Nova York era um adolescente desajeitado de 13 anos com uma pequena marca de nascença na testa. Era bobo e atrapalhado, com cabelos desgrenhados que caíam sobre os olhos. O olhar implacável das câmeras mostrava os cravos no nariz com detalhes agonizantes. Tinha uma espinha enorme na covinha do queixo. E não era circuncidado, Tom percebeu.

— Caramba, onde estão suas roupas? — Tom perguntou. — Se eu te deixar no parque, você vai ser preso por atentado ao pudor.

— Eles não ousariam — Kid Dinossauro disse com a certeza excessiva da adolescência. — Que está acontecendo? Tá numa aventura? Posso ajudar.

— Você está lendo muitos livros estranhos — Tom lhe disse. — Fiquei sabendo o que houve da última vez que você ajudou alguém.

— Hum, eles costuraram as mãos dele de volta, e Tacky disse que ficaria tudo bem. Como eu poderia saber que o cara era um policial disfarçado? Eu não morderia se soubesse disso.

Aquilo não era nem um pouco engraçado, mas Tom sorriu. Kid Dinossauro lhe trazia recordações de si mesmo. Ele lera um monte de livros estranhos também.

— Garoto — disse ele —, você não fica o tempo todo correndo por aí pelado, se transformando em dinossauros, não é? Você tem outra vida?

— Não vou te dizer minha identidade secreta — Kid Dinossauro disse, rapidamente.

— Tá com medo que eu diga pros seus pais? — Tom quis saber.

O rosto do garoto enrubesceu. O resto do corpo estava mais azul do que nunca.

— Não tenho medo de nada, seu velho cagão — disse ele.

— Pois deveria — Tom falou. — De mim, para começar. Sim, eu sei, você pode se transformar num tiranossauro de um metro e enfiar os dentes na minha armadura. Tudo que eu posso fazer é esmagar cada osso do seu corpo em 12 ou 13 pontos diferentes. Ou entrar em você e esmagar seu coração até ele virar mingau.

— Você não faria isso.

— Não — Tom admitiu —, mas algumas pessoas fariam. Você tá metendo os pés pelas mãos, seu merdinha. Droga, não me importo em que tipo de dinossauro de brinquedo você pode se transformar, uma bala ainda pode te matar.

Kid Dinossauro parecia chateado.

— Vai se foder — disse ele. A maneira enfática com a qual disse aquilo deixou claro que não usava aquele tipo de palavreado em casa.

Não tá indo bem, Tom pensou.

— Olha só — disse ele num tom reconciliador —, só queria te contar algumas coisas que aprendi do jeito mais difícil. Você não quer ser pego também. É ótimo que você seja o Kid Dinossauro, mas você também é, hum, seja lá quem você for. Não se esqueça disso. Em que série você está?

O garoto murmurou.

— Que há com todos vocês? Se vai começar a falar de álgebra, pode esquecer!

— Álgebra? — Tom falou, confuso. — Não disse nada sobre álgebra. Suas aulas são importantes, mas não é nada disso. Faça amigos, caramba, marque encontros, não deixe de ir ao baile de formatura. Ser capaz de se transformar num brontossauro do tamanho de um dobermann não vai fazer você ganhar prêmios na vida, entende?