Ele pousou com um estampido suave na grama coberta de neve na campina. Ali perto, um vendedor de pretzel com protetor de orelhas e sobretudo estava observando, perplexo, a carapaça blindada e o garoto trêmulo sobre ela.
— Você ouviu o que eu disse? — Tom perguntou.
— Sim. Você parece meu pai falando. Vocês, velhos cagões, pensam que sabem tudo.
Sua risada alta e nervosa se transformou num longo chiado de réptil quando os músculos e ossos se transformaram e mudaram, e sua pele macia engrossou e ficou escamada. Com muita delicadeza, o pequeno triceratope depositou um protocoprólito no topo da carapaça, desceu rapidamente, e caminhou bamboleando através da campina com os chifres balançando de forma arrogante no ar.
Aquele foi o melhor ano na vida de Thomas Tudbury.
Mas não para o Grande e Poderoso Tartaruga.
Nas revistas em quadrinhos, os heróis pareciam nunca precisar dormir. As coisas não eram tão simples na vida real. Com um emprego em tempo integral das 9h00 às 17h00 para mantê-lo ocupado, Tom fez quase todas as tartaruguices à noite e no fim de semana, mas naquele momento Barbara estava preenchendo aquele tempo. Enquanto a vida social tomava cada vez mais seu tempo, sua carreira de ás sofria proporcionalmente, e a carapaça de aço era cada vez menos vista pairando sobre as ruas de Manhattan.
Finalmente, raiou um dia no qual Thomas Tudbury percebeu, com certo choque, que havia passado quase três meses e meio desde a última vez que fora ao ferro-velho e às suas carapaças. O estopim dessa percepção foi uma pequena história na página 24 do New York Times, com a seguinte manchete: TARTARUGA DESAPARECIDO, TEME-SE SUA MORTE. A história mencionava que dúzias de chamados pelo Tartaruga não tinham sido atendidos nos últimos meses (havia desligado o radioamador desde sabe-se lá Deus quando), e que o Dr. Tachyon estava especialmente preocupado, ao ponto de ter colocado anúncios nos jornais e oferecido uma pequena recompensa para quem trouxesse notícias de qualquer aparição do Tartaruga (Tom nunca lia os classificados, e naqueles dias ele mal lia os jornais).
Deveria entrar em sua carapaça e dar um alô na clínica, pensou quando leu aquilo. Mas não havia tempo. Tinha prometido ajudar Barbara a dar uma aula numa pequena excursão escolar até a Bear Mountain, e partiriam em duas horas. Em vez disso, foi até uma cabine telefônica e ligou para a clínica.
— Quem é? — Tachyon perguntou com irritação quando Tom finalmente conseguiu falar com ele. — Estamos bem ocupados aqui e não posso perder tempo com pessoas que se recusam a dar seu nome.
— Aqui é o Tartaruga — Tom disse. — Quero que você saiba que estou bem.
Houve um momento de silêncio.
— O senhor não parece o Tartaruga — Tachyon disse.
— O sistema de som na carapaça é projetado para disfarçar minha voz. Claro que eu não falo como o Tartaruga. Mas sou o Tartaruga.
— Você terá de me convencer disso.
Tom suspirou.
— Cara, você é um pé no saco. Mas eu devia esperar isso. Você choramingou para mim durante dez anos apenas porque quebrou o braço, e a culpa foi só sua. Você não me disse que ia se esconder embaixo de uma empilhadeira, cacete. Não sou telepata como algumas pessoas que eu poderia mencionar.
— Eu também não mandei que você derrubasse metade do armazém — Tachyon disse. — Você teve sorte de eu não ter sido esmagado até a morte. Um homem com poderes como os seus deveria… — Ele fez uma pausa. — Você é o Tartaruga.
— Né? — Tom disse.
— O que você tem feito da vida?
— Sendo feliz. Não se preocupe, voltarei de vez em quando. Mas não com tanta frequência quanto antes. Estou bem ocupado. Acho que vou me casar. Assim que reunir coragem para pedi-la em casamento.
— Parabéns — Tachyon disse. Ele parecia contente. — Quem é a noiva sortuda?
— Ah, isso seria revelador. Mas você a conhece. Uma de suas pacientes lá do início. Ela teve um episódio de carta selvagem quando estava com dois anos. Nada sério. Ela é completamente normal hoje. Eu te convidaria para o casamento, Tacky, mas seria como entregar o jogo, não seria? Talvez a gente batize um dos filhos com o seu nome.
Houve um momento longo e desconfortável de silêncio.
— Tartaruga — o alienígena finalmente disse, numa voz de alguma forma fria —, precisamos conversar. Você teria um tempo para passar na clínica? Eu arrumo minha agenda para te receber.
— Estou terrivelmente ocupado — Tom falou.
— É importante — Tachyon insistiu.
— Tá, tudo bem. Tarde da noite, então. Não hoje à noite, vou estar bem cansado. Amanhã, digo, depois do programa do Johnny Carson.
— Combinado — Tachyon falou. — Encontro você no telhado.
A essa altura, o casamento certamente já havia acabado. Ao menos, ele poderia agradecer ao Kid Dinossauro por isso; o merdinha o distraiu durante a pior parte.
Sua carapaça pairou lentamente pela Broadway na direção da Times Square, mas sua mente estava além da baía de Nova York, no Top Hat. A última vez que estivera no Top Hat tinha sido para a recepção após o casamento de Joey e Gina. Ele fora o padrinho. Aquela noite foi boa. Conseguia se lembrar de tudo, tudo desde o papel de parede estampado até o gosto do salsichão defumado e o som da banda.
Barbara usaria o vestido de casamento da avó. Ela mostrou para ele uma vez, há uma década. Mesmo agora conseguia fechar os olhos e ver a expressão no rosto dela enquanto deslizava a mão sobre a renda antiga.
Espontaneamente, a imagem dela entrou em sua mente. Barbara no vestido, seus cabelos loiros por trás do véu, seu rosto erguido. “Eu aceito.”
E ao lado dela, Steve Bruder. Alto, moreno, bem esguio. No mínimo, o filho da mãe estava mais bonito agora do que era no colégio. Era um fanático por raquetebol, Tom sabia. Com um sorriso de menino e um bigode moderno de Tom Selleck. Ficaria maravilhoso no seu smoking. Juntos, formariam um casal explosivo.
E o filho deles seria um galã.
Ele deveria ir. E daí se não respondera ao convite, ainda o deixariam entrar. Jogaria a carapaça no ferro-velho, jogaria a carapaça na merda do rio, não importava, pegaria seu carro e poderia estar lá bem rápido. Dançaria com a noiva, sorriria para ela, e desejaria felicidade, toda a felicidade do mundo. E cumprimentaria o noivo com um aperto de mão. Um aperto na mão de Bruder. Sim.
Bruder tinha um bom aperto de mão. Estava no ramo imobiliário agora, principalmente em Weehawken e Hoboken; comprou no passado e ficou perfeitamente posicionado quando todos os yuppies de Manhattan acordaram um dia e descobriram que Nova Jersey era bem depois do rio Hudson. Fez uma fortuna enorme, seria milionário aos 45. Ele mesmo dissera isso a Tom, naquela noite horrível, quando Barbara levou os dois para jantar. Bonito e confiante, com aquele sorriso elegante de garoto, e seria um milionário também, mas sua vida não era um mar de rosas, sua TV de tela grande estava dando alguns problemas, e talvez Tom pudesse dar uma olhada nela, hein? Em nome dos velhos tempos.
Na escola primária, eles se cumprimentaram com um aperto de mão uma vez, e Steve espremeu a mão de Tom tão forte que ele ficou de joelhos, chorando, incapaz de se soltar. Mesmo agora, o aperto de mão sofisticado e adulto de Steve Bruder era muito mais firme do que precisava ser. Gostava de ver o outro cara se retorcendo.
Eu gostaria que o Tartaruga apertasse a mão desse bosta, Tom pensou com raiva. Agarrar a mão com sua mente e lhe dar um apertão pouco amigável, até a mão começar a se amassar e retorcer, até aquela pele macia e bronzeada rasgar e os dedos se separarem como pequenos palitinhos vermelhos, ossos atravessando a carne. O Tartaruga poderia sacudir o braço do desgraçado para cima e para baixo até ele sair do ombro, e então arrancaria os dedos um a um. Bem me quer, mal me quer, bem me quer, mal me QUER.