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A garganta de Tom estava seca, e ele se sentiu enjoado e zonzo. Abriu o refrigerador e pegou uma cerveja. O gosto era bom. A carapaça planava sobre o abandono da Times Square. Seus olhos passavam, incansáveis, de tela para tela. Peep shows e cinemas pornô, livrarias adultas, sexo ao vivo no palco, placas de neon que gritavam MULHERES, MULHERES, MULHERES NUAS e O SHOW MAIS QUENTE DA CIDADE e MODELOS ADOLESCENTES NUAS, garotos de programa com roupas de brim e chapéus de caubói, cafetões com grandes casacos de visom e navalhas no bolso, prostitutas insolentes com meia arrastão e vestidos de couro com fendas. Ele poderia pegar uma puta, Tom pensou de repente. Literalmente. Erguê-la a seis metros do chão, fazê-la mostrar o que estava vendendo, fazê-la tirar a roupa ali mesmo no meio da Times Square, dar aos turistas de merda um verdadeiro show. Ou arrancar a roupa dela, rasgá-la pedacinho por pedacinho e deixá-la flutuar até o chão. Poderia fazer isso, claro. Deixe Bruder ter sua noite de núpcias com Barbara, o Tartaruga podia ter uma noite de núpcias própria.

Ele deu mais um gole na cerveja.

Ou talvez devesse apenas limpar essa sujeira. Todo mundo sempre reclamando sobre como a Times Square tinha se transformado num antro, mas ninguém fazia nada a respeito. Foda-se, ele faria isso por eles. Mostraria como limpar um bairro ruim, se era isso que queriam. Derrubar aquelas marquises uma a uma, enxotar aquelas malditas putas e cafetões e garotos de programa para o rio, lançar alguns carros de cafetão pelas janelas daqueles estúdios fotográficos de terceiro andar com modelos adolescentes nuas, arrancar as malditas calçadas se quisesse. Já era hora de alguém fazer aquilo. Olhe para este lugar, apenas olhe para ele, e tão perto de Port Authority, então era a primeira coisa que uma criança veria após sair do ônibus.

Tom esvaziou a cerveja. Atirou a lata no chão, girou e buscou outra, mas não restara nada no pacote além do suporte plástico.

— Merda — disse ele. De repente, ficou furioso. Ligou o microfone, aumentou o volume no máximo. — MERDA — gritou, e a voz do Tartaruga rebombou pela 42nd Street, distorcida e amplificada num rugido vermelho. As pessoas ficaram paralisadas na calçada, e os olhos ergueram-se na sua direção. Tom sorriu. Parecia que tinha atraído a atenção delas. — FODA-SE TUDO — disse ele. — FODAM-SE TODOS VOCÊS.

Ele fez uma pausa e estava prestes a fazer um discurso, quando a voz de uma policial, chiando no seu rádio de monitoramento, chamou sua atenção. Estava repetindo o código de policial em perigo, repetindo várias e várias vezes.

Tom deixou as pessoas espantadas, enquanto ouvia cuidadosamente os detalhes. Parte dele sentiu pena pelo pobre babaca que estava prestes a ter sua cabeça entregue a ele.

Sua carapaça subiu, bem acima das ruas e prédios, e saiu em disparada na direção do Village.

— Pensei que você só era lento — Barbara disse, enquanto ela se recompunha. — Sempre demorou para levar as coisas adiante. Não entendo, Tom.

Ele não conseguia olhar nos olhos dela. Olhava em volta da sua sala de estar com as mãos nos bolsos. Sobre a mesa dela estava pendurado o diploma e o certificado de docente. Ao redor deles, fotos estavam arranjadas: Barbara fazendo careta enquanto trocava a fralda da sobrinha de quatro meses, Barbara e as três irmãs, Barbara mostrando para a classe como recortar bruxas pretas e abóboras de cartolina para o Dia das Bruxas, supervisionando seis presidentes dançarinos para uma peça de escola, carregando um projetor para rodar desenhos animados. E lendo uma história. Esta era a foto favorita dele. Barbara com uma garotinha negra bem pequena no colo e outra dúzia de crianças em torno dela, olhando para ela com rosto enlevado, enquanto lia alto O vento nos salgueiros. O próprio Tom tinha tirado aquela fotografia.

— Não há nada para entender — ele soltou, áspero, quando tirou os olhos das fotografias. — Acabou, é isso. Vamos terminar numa boa, tudo bem?

— Tem outra pessoa? — ela perguntou.

Poderia ter sido mais gentil mentir para ela, mas ele era um péssimo mentiroso.

— Não — disse ele.

— Então, por quê?

Ela estava perplexa e magoada, mas seu rosto nunca ficou tão amoroso, Tom pensou. Ele não conseguia encará-la.

— É apenas melhor — disse ele, virando o rosto para a janela. — Não queremos as mesmas coisas, Barbara. Você quer se casar, não é? Eu não. Esquece, não tem jeito. Você é maravilhosa, não é você, sou… merda, é que não está funcionando. Crianças, toda vez que eu olho tem uma multidão de crianças. Quantas suas irmãs têm, três? Quatro? Estou cansado de fingir. Odeio crianças. — A voz dele aumentou. — Eu desprezo crianças, entende?

— Você não pode estar falando sério, Tommy. Vi você com as crianças na minha classe. Você as levou para casa e mostrou para elas sua coleção de quadrinhos. Você ajudou Jenny a montar aquele modelo do avião do Jetboy. Você gosta de crianças.

Tom riu.

— Ai, que bosta, como você é ingênua! Só estava tentando impressionar você, queria mesmo era te comer. Eu não… — A voz dele se partiu. — Saco — disse ele. — Se gostasse tanto de crianças, então por que fiz uma vasectomia? Como, hein? Diga!

Quando ele se virou, o rosto dela estava vermelho como se a tivesse estapeado.

O playground estava cercado por viaturas policiais, seis delas, o sinalizador piscando em vermelho e azul sobre o anoitecer cada vez mais escuro. Os policiais estavam agachados atrás dos carros com as armas sacadas. Além da cerca alta de alambrado, duas formas escuras espalhavam-se sob a cesta de basquete, e uma terceira estava estendida sobre um dos tubos de cimento. Alguém gemia de dor.

Tom viu um detetive que conhecia, segurando o colarinho de um curinga jovem e magrelo, cujo rosto era tão suave e branco quanto um creme de tapioca, e o sacudia com tanta força que seu papo balançava. O garoto estava vestido com as cores dos Príncipes Demoníacos, Tom viu num close da câmera. Ele planou mais baixo.

— EI, VOCÊS — retumbou. — O QUE TÁ ACONTECENDO?

Eles lhe contaram.

Uma briga de gangues, era isso. Merda sem valor. Alguns garotos limpos agindo nas fronteiras do Bairro dos Curingas ultrapassaram a área dos Príncipes Demoníacos. Estes tinham reunido 15 ou 20 membros e foram para o East Village para ensinar um pouco de respeito territorial aos invasores. Foram parar no playground. Facas, correntes, algumas armas. Desagradável.

E, então, a coisa ficou esquisita.

Os limpos tinham alguma coisa, o cara de tapioca gritou.

Eles terminaram, mas continuaram amigos. Ele ficou orgulhoso disso. Era mais complicado quando as feridas ainda estavam frescas, e pelos primeiros 11 meses eles se evitaram. Mas Bayonne era uma cidade pequena de um jeito peculiar, e conheciam muita gente em comum; essa situação não poderia durar para sempre.

Talvez tenham sido os 11 meses mais difíceis da vida de Tom Tudbury. Talvez.

Uma noite, ela ligou para ele do nada. Ele ficou feliz. Sentia desesperadamente a falta dela, mas sabia que nunca poderia ligar depois do que acontecera entre eles.

— Preciso conversar — disse ela. Soava como se tivesse tomado umas cervejas. — Você era meu amigo, Tom. Acima de tudo, você era meu amigo, certo? Preciso de um amigo hoje, tudo bem? Pode vir aqui em casa?

Ele comprou um pacote de seis cervejas em lata e foi para lá. A irmã mais nova dela tinha morrido num acidente de motocicleta. Não havia nada a ser feito ou dito, mas Tom fez e disse todas as coisas habituais e inúteis, e estava lá por ela, e deixou que ela falasse até o amanhecer e, depois disso, colocou-a na cama. Ele dormiu no sofá.