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Ele acordou no fim da tarde, com Barbara curvada sobre ele, vestindo um robe de tecido felpudo e com os olhos vermelhos de chorar.

— Obrigada — disse ela. Sentou-se no canto do sofá e pegou a mão dele e a segurou por um longo tempo, em silêncio. — Quero você de volta à minha vida — disse ela, finalmente, com dificuldade. — Não quero que a gente se perca de novo. Amigos?

— Amigos — Tom disse. Ele queria agarrá-la e cobri-la de beijos. Em vez disso, apertou a mão dela. — Não importa o que acontecer, Barbara. Para sempre. Entendeu?

Barbara sorriu. Ele fingiu um bocejo e afundou o rosto num travesseiro para evitar que ela visse seu olhar.

— FIQUEM ABAIXADOS — o Tartaruga alertou os policiais. Eles não precisaram ouvir duas vezes. O garoto estava escondido dentro de um dos tubos de cimento, e eles viram o que aconteceu com o policial que tentou entrar no playground atrás dele. Desapareceu, como se nunca tivesse existido, sumiu, foi engolido por uma escuridão repentina e, de algum jeito… escafedeu-se.

— A gente ia picar os desgraçados — o Príncipe Demoníaco disse —, dando uma boa lição neles, ensinando o preço de incomodarem o Bairro dos Curingas, malditos limpos fracotes, íamos matá-los, e então esse chicano veio até aqui com uma porra de uma bola de boliche, a gente riu da cara do desgraçado, o que ele ia fazer, tentar fazer um strike na gente, babaca estúpido, e então ele segurou a bola na direção do Cera e ela cresceu, cara, tipo, como se estivesse viva. Uma merda escura saiu dela, muito rápido, luz negra ou uma mãozona escura ou algo assim. Não sei, apenas se movia muito rápido, e o Cera sumiu. — A voz dele se transformou num grito. — Ele sumiu, não estava mais lá. E o maldito limpo fez a mesma coisa com o Lâmina e o Fantasma. Foi quando o Relincho atirou nele e ele quase soltou a bola, pegou em seu ombro eu acho, mas então ele fez aquilo com o Relincho. Não dá pra lutar contra uma coisa daquelas. Nem o policial desgraçado conseguiu, que merda.

A carapaça deslizou sobre a cerca de alambrado que circundava o playground, em silêncio e devagar.

— Temos algo — Barbara disse. — Temos algo especial. — Seus dedos traçavam padrões na condensação do lado de fora do copo. Olhou para ele, seus olhos azuis corajosos e francos, como se ela o desafiasse. — Ele me pediu em casamento, Tom.

— O que você respondeu? — Tom quis saber, tentando manter a voz calma e firme.

— Disse que ia pensar — ela respondeu. — Por isso eu pedi pra gente se ver. Queria falar com você antes.

Tom fez um sinal, pedindo outra cerveja.

— A decisão é sua — disse ele. — Espero que você me deixe conhecer o cara, mas de tudo que você me contou, parece bem bacana.

— Ele é divorciado — disse ela.

— Como metade do mundo — Tom disse quando a cerveja chegou.

— Todos, menos eu e você — disse Barbara, sorrindo.

— É. — Ele franziu a testa para a espuma da cerveja e suspirou de modo desconfortável. — Esse namorado misterioso tem filhos?

— Dois. A ex tem a guarda. Mas eu os conheci. Eles gostam de mim.

— É óbvio — disse Tom.

— Ele quer ter mais. Comigo.

Tom olhou em seus olhos.

— Você o ama?

Barbara enfrentou seu olhar com calma.

— Acho que sim. Às vezes, fico meio incerta. Talvez eu não seja tão romântica quanto eu costumava ser. — Ela ergueu os ombros. — Às vezes, penso o que seria da minha vida se as coisas tivessem sido diferentes para mim e você. Poderíamos estar comemorando nosso décimo aniversário de namoro.

— Ou talvez o nono aniversário do nosso divórcio amargo — Tom retrucou. Ele esticou o braço e pegou na mão de Barbara. — As coisas nem ficaram tão ruins, não é? Nunca teria funcionado de outro jeito.

— Os caminhos não escolhidos — disse ela, com saudades. — Tive muitos “poderia ter sido” na minha vida, Tom, muitos arrependimentos por coisas sem ser feitas e escolhas não feitas. Meu relógio biológico está rodando. Se esperar muito mais, vou esperar pra sempre.

— Só queria que você conhecesse o cara há mais tempo — Tom disse.

— Ah, eu o conheço faz tempo — disse ela, rasgando um canto de seu guardanapo.

Tom ficou confuso.

— Pensei que você tinha dito que o encontrou numa festa no mês passado.

— Sim. Mas já nos conhecíamos. Do colégio. — Ela olhou para o rosto dele novamente.— Por isso eu não disse o nome dele. Você ficaria chateado, e no início eu não sabia se daria em alguma coisa.

Tom não precisava ouvir. Ele e Barbara eram amigos há mais de uma década. Ele olhou para as profundezas azuis dos olhos dela, e soube.

— Steve Bruder — disse ele, entorpecido.

Ele pairou sobre o playground e transportou os guerreiros caídos pelo ar sobre a cerca, um por um, até a polícia que aguardava lá fora. Os dois da quadra de basquete estavam moribundos. Levaria um tempo para tirar as manchas de sangue do cimento. O garoto pendurado sobre o tubo de cimento, na verdade, era uma garota. Ela gemeu de dor quando ele a levantou com a telecinesia, e pelo jeito que se encolhia parecia que seus intestinos tinham sido fatiados. Ele esperava que pudessem fazer algo por ela.

Todos os três eram limpos. O campo de batalha estava livre de curingas caídos. Ou os Príncipes Demoníacos realmente botaram pra quebrar, ou seus mortos estavam em outro lugar. Ou as duas coisas.

Ele apertou um controle no braço da poltrona, e todos os refletores acenderam, banhando o playground com um brilho quente e esbranquiçado.

— ACABOU — disse ele, e seus alto-falantes rugiram as palavras no crepúsculo. Durante os anos, ele aprendeu que o volume máximo assustava muito os punks. — SAIAM CRIANÇAS. AQUI É O TARTARUGA.

— Vá embora — uma voz rouca e fina gritou de volta dentro do tubo de cimento. — Vou desintegrar você, seu curinga cara de merda. Estou com a coisa aqui, comigo.

Durante o dia todo, Tom esteve procurando alguém para machucar; um monstro para estraçalhar, um matador para esmagar, um alvo para a ira, uma esponja para absorver a dor. Agora o momento estava finalmente disponível, e ele descobriu que não havia mais ódio dentro dele. Estava cansado. Queria ir para casa. Por trás da ousadia, o garoto no tubo com certeza era jovem e estava assustado.

— VOCÊ É MESMO DURÃO — Tom disse. — QUER JOGAR O JOGO DA CARAPAÇA? ÓTIMO. — Ele se concentrou no tubo à esquerda da proteção do garoto, segurou-o com a mente e esmagou. Foi destruído como se uma bola de ferro o tivesse estourado, cacos e poeira voando para todos os lados quando o cimento estilhaçou. — NÃO ESTÁ NESSE, NÃO É? — Ele fez o mesmo com o tubo do outro lado do garoto. — NEM NESSE AQUI. ACHO QUE VOU TENTAR O DO MEIO.

O garoto saiu a tal velocidade que bateu a cabeça na parte de cima do tubo quando se levantou. O impacto o deixou tonto por um momento. A bola de boliche à qual ele estava agarrado com as duas mãos de repente escapou. Ela voou direto. O garoto gritou obscenidades entre os dentes brilhantes cobertos de aço. Deu um pulo desesperado na direção da sua arma, mas tudo que conseguiu foi deslizar a ponta dos dedos contra o lado de baixo. Então, tombou de uma vez, esfolando as mãos e os joelhos no concreto.

Nesse momento, os policiais já estavam em movimento. Tom observou quando o cercaram, puxando-o para fazê-lo ficar de pé, e leram os direitos dele. Tinha uns 19 anos, talvez fosse mais novo, usava as cores da gangue e uma coleira com pontas, cabelos pretos desgrenhados e espetados. Perguntaram a ele onde estavam os outros, e ele rosnou xingamentos para eles e gritou que não sabia.

Enquanto eles o empurravam na direção das viaturas, Tom abriu o portal blindado e flutuou a bola de boliche para dentro da carapaça para olhar de perto, tremendo com a rajada de ar frio que entrou com ela. Era uma coisa estranha. Leve demais para ser uma bola de boliche, pensou quando a ergueu; quase dois quilos, talvez um pouco mais. Sem buracos também. Quando ele correu a mão sobre ela, seus dedos formigaram, e cores tremeluziram rapidamente sobre a superfície, como um arco-íris numa mancha de óleo. Ela o deixou inquieto. Talvez Tachyon soubesse o que fazer com ela. Ele a deixou de lado.