A escuridão caía sobre a cidade. Tom levou a carapaça para o alto, cada vez mais alto, até flutuar sobre a torre distante do Empire State Building. Ficou lá por muito tempo, assistindo às luzes avançarem sobre a cidade, transformando Manhattan num mundo encantado elétrico.
Daquela altura, numa noite fria e clara, ainda podia ver as luzes de Jersey para além da água escura e gélida. Um daqueles pontos era o Top Hat Lounge, disso ele sabia.
Ele não deveria flutuar ali, pensou. Deveria levar a bola de boliche para a clínica; era o próximo passo a tomar. Ele não se moveu. Faria isso no dia seguinte, pensou. Tachyon não iria a lugar algum, nem a bola. De alguma forma, Tom não poderia encarar Tachyon naquela noite. Poderia ser em todas, menos naquela.
Em outros tempos, sua carapaça era muito mais primitiva. Sem lentes telescópicas, sem zooms, nem câmeras infravermelhas. Apenas um anel de holofotes quentes, tão brilhantes que faziam Tachyon espremer os olhos. Mas ele precisava deles. Estava escuro no telhado da clínica, onde a carapaça pousou.
As fotografias que Tachyon segurava no alto não eram do tipo que Tom gostaria de ver em maiores detalhes. Ele se sentou na escuridão, olhando para suas telas, sem dizer nada, enquanto Tachyon mostrava uma a uma. Todas haviam sido tiradas na ala de maternidade da clínica. Uma ou duas das crianças viveram o suficiente para serem transferidas para a enfermaria.
Por fim, ele retomou sua voz.
— As mães eram curingas — disse ele, sua voz enfática, com falsa convicção. — Bar… Ela é normal, estou te dizendo. Limpa. Teve aquilo quando estava com dois anos, caramba; é como se nunca tivesse acontecido.
— Mas aconteceu — Tachyon disse. — Ela pode parecer normal, mas o vírus ainda está lá. Latente. É provável que nunca vá se manifestar, e geneticamente ele é recessivo, mas quando você e ela tiverem…
— Conheço um monte de gente que acha que sou curinga — Tom interrompeu. — Mas eu não sou, acredite em mim, sou um ás. Eu sou um ás, caramba! Então, se a criança tiver o gene carta selvagem, ela terá telecinesia de primeira. Será ás, como eu.
— Não — Tachyon disse. Ele deslizou as fotografias de volta para o prontuário, seus olhos se desviaram das câmeras. Deliberadamente? — Desculpe, meu amigo. As probabilidades de dar errado são astronômicas.
— Ciclone — Tom disse, à beira da histeria. Ciclone era um ás da Costa Oeste cuja filha herdara seu domínio sobre os ventos.
— Não — Tachyon rebateu. — Mistral é um caso especial. Temos quase certeza de que o pai dela, de alguma forma, manipulou o plasma germinativo enquanto ela ainda estava no útero. Em Takis… bem, o processo não é totalmente desconhecido por nós, mas raramente funciona. Você é o telecinético mais poderoso que já vi, mas às vezes isso exige um controle preciso que está anos-luz além de você, sem mencionar os séculos de experiência em microcirurgia e divisão genética. E, mesmo se você tivesse tudo isso, provavelmente fracassaria. Ciclone não tinha ideia do que estava fazendo num nível consciente e, além disso, foi estranhamente sortudo. — O takisiano balançou a cabeça. — Seu caso é totalmente diferente. A única garantia é que você tirará um carta selvagem, e as probabilidades são exatamente as mesmas como se…
— Eu sei das probabilidades — Tom disse, bruscamente. De cada cem humanos atingidos pelo carta selvagem, apenas um desenvolveu poderes de ás. Havia dez curingas horrivelmente deformados para cada ás, e dez mortes por rainha negra para cada curinga.
Na sua cabeça, viu Barbara sentada na cama, o lençol enrolado na cintura, seus cabelos loiros caindo macios sobre os ombros, o rosto solene e doce enquanto o filho deles sugava o seio. E, então, o bebê levantou o olhar, e ele viu os dentes e os olhos esbugalhados e os traços monstruosos, deformados; e quando sibilou para ele, Barbara gritou de dor, enquanto leite e sangue jorravam livremente de seu mamilo arrancado.
— Desculpe — Dr. Tachyon repetiu, entorpecido.
Passava da meia-noite quando Tom voltou para sua casa vazia na First Street.
Ele se desvencilhou do casaco, sentou-se no sofá e observou o Kill pela janela e as luzes de Staten Island. Uma chuva gelada havia começado. As gotículas chiavam contra a janela com um som agudo, cristalino, como garfos tilintando em taças de vinho quando os convidados do casamento querem que os recém-casados se beijem. Tom ficou ali sentado, no escuro, por um bom tempo.
Finalmente, ligou uma luminária e pegou o telefone. Digitou seis números, e não conseguia apertar o sétimo. Como um colegial apavorado antes de chamar uma garota bonita para sair, pensou, sorrindo melancólico. Pressionou a tecla com firmeza e escutou o chamado.
— Top Hat — uma voz brusca atendeu.
— Gostaria de falar com Barbara Casko — Tom disse.
— Quer dizer a nova senhora Bruder — a voz respondeu.
Tom deu um longo suspiro.
— Sim — ele falou.
— Então, os recém-casados foram embora horas atrás. Direto pra noite de núpcias. — O homem estava obviamente bêbado. — Vão passar a lua de mel em Paris.
— Ah, sim — Tom respondeu. — O pai dela ainda está aí?
— Deixa eu ver aqui.
Um longo silêncio se passou antes de o fone ser agarrado de novo.
— Aqui é Stanley Casko. Quem está falando?
— Tom Tudbury. Desculpe por eu não estar presente, Sr. Casko. Estava, hum, ocupado.
— Sim, Tom. Tudo bem com você?
— Está. Não poderia estar melhor. Eu só queria…
— Sim?
Ele engoliu em seco.
— Apenas diga para ela ser feliz, tudo bem? É isso. Apenas diga que eu quero que ela seja feliz.
Ele pousou o telefone de volta no gancho.
Na noite lá fora, um imenso cargueiro descia o Kill. Estava muito escuro para ver sua bandeira. Tom desligou as luzes e assistiu ao navio passar.
Jube: Cinco
O rastro era inconfundível.
Jube sentou-se no console enquanto as leituras escorriam através do holocubo, seu coração palpitando com medo e esperança. Passou a maior parte dos primeiros quatro meses na Terra em cinemas escuros, sentado para ver os mesmos filmes dúzias de vezes, reforçando seu inglês e ampliando a compreensão das nuanças culturais humanas conforme refletidas na ficção. Aprendeu a amar os filmes, especialmente os faroestes, e sua parte favorita sempre fora quando a cavalaria chegava estrondando pelo monte, com as bandeiras tremulando.
A Rede não agitava bandeiras; ainda assim, Jube pensou que poderia ouvir o som abafado das cornetas e o golpear das batidas dos cascos naqueles contornos aracnídeos de luz dentro do seu holocubo.
— Táquions! Cornetas e táquions!
Seus satélites de observação detectaram uma chuva de táquions, e isso poderia significar apenas uma coisa: uma nave estelar nas proximidades da órbita terrestre. O veredicto estava ao alcance da mão.
Agora, os satélites varriam os céus procurando a fonte. Não era a Mãe do Enxame, Jhubben sabia disso. A Mãe rasteja por entre as estrelas a velocidades menores que a da luz; ela não se importava com o tempo. Apenas as raças civilizadas usavam naves estelares movidas a táquions.
Se Ekkedme conseguiu mandar uma transmissão antes de a nave unitária ter sido esmagada no céu… se o Mestre Comerciante decidiu verificar os avanços humanos mais cedo do que o planejado… se a Mãe de alguma forma foi detectada por uma nova tecnologia inimaginável quando Jhubben começou sua missão na Terra… se, se, se… então poderia bem ser a Opportunity lá em cima, a Rede voltou para entregar este mundo, apenas com os meios e o preço ainda a serem determinados. Mesmo assim, não seria fácil, mas do resultado final ele não tinha dúvida. Jube sorriu enquanto os satélites sondavam e os computadores analisavam.