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Então, o holocubo ficou violeta, e seu sorriso morreu. Fez um som de gorgolejo no fundo da garganta. Os sensores sofisticados nos satélites retiraram as telas que escondiam a nave espacial da instrumentação humana e exibiu a imagem dentro do violeta sinistro do cubo. Ele se revolveu lentamente, gravado em linhas de luz vermelha e branca, como algum terrível constructo de fogo e gelo. Os visores piscavam abaixo da imagem: dimensões, saída de táquions, rota. Mas tudo de que Jube precisava saber estava escrito nas linhas da nave: escrito em cada pináculo retorcido, proclamado pelas saliências extravagantes, trombeteado em cada espiral e projeção barroca, gritado em cada panóplia de luzes desnecessárias. Parecia o resultado de uma colisão em alta velocidade entre um enfeite de Natal e uma pera espinhosa. Apenas os takisianos tinham essa estética rococó.

Jube levantou-se de uma vez, cambaleando. Takisianos! Será que o Dr. Tachyon os convocara? Achou bem difícil, depois de todos esses anos que o doutor passou no exílio. O que isso significava? Os takisianos estavam monitorando a Terra todo esse tempo, observando o experimento do carta selvagem, mesmo enquanto a Rede o fazia? Se sim, por que Jhubben não havia encontrado traços deles até agora, e como conseguiram esconder-se de Ekkedme? Teriam destruído a Mãe do Enxame? Teriam conseguido destruir a Mãe? A Opportunity era quase do tamanho da ilha de Manhattan e transportava dezenas de milhares de especialistas que representavam espécies, culturas, castas e vocações infinitas — mercadores e aventureiros, cientistas e sacerdotes, técnicos, artistas, guerreiros, emissários. A nave takisiana era uma coisa minúscula; possivelmente não conteria mais do que cinquenta seres conscientes, talvez apenas metade disso. A menos que a tecnologia militar takisiana tenha progredido de forma astronômica nos últimos quarenta anos, o que aquela coisinha poderia esperar fazer, sozinha, contra a devoradora dos mundos? E os takisianos se importariam mesmo com a vida de suas cobaias?

Enquanto Jhubben olhava fixamente para os contornos da nave com ódio e confusão cada vez maiores, seu telefone tocou.

Por um instante, pensou numa insanidade, que de alguma forma os takisianos o haviam encontrado, que sabiam que estava olhando para eles e telefonaram para lhe passar uma descompostura. Mas isso era ridículo. Ele bateu um dedão no console, e o holocubo escureceu enquanto Jube se arrastava até a sala de estar. Precisou desviar da geometria tortuosa de um transmissor de táquions parcialmente construído que dominava o centro da sala como uma peça imensa de escultura de vanguarda. Se a coisa não funcionasse quando ele a energizasse, Jube planejava chamá-la de “Desejo Curinga” e vendê-la em alguma galeria no Soho. Mesmo pela metade, seus ângulos eram curiosamente enganosos, e ele sempre trombava neles. Dessa fez, ele se esquivou direitinho e pegou o telefone da mão do Mickey Mouse.

— Alô? — disse, tentando soar com sua jovialidade normal.

— Jubal, é a Crisálida. — Era a voz dela, mas nunca havia soado daquele jeito. Ela nunca ligara para ele em casa antes.

— Algum problema? — ele perguntou. Ele havia pedido para ela conseguir outro lote de microchips na semana anterior, e a contundência da sua voz fez com que ele temesse que o agente dela tivesse sido preso.

— Jay Ackroyd acabou de ligar. Não havia conseguido dar notícias até agora. Ele descobriu algumas coisas sobre as pessoas que contrataram o Darlingfoot.

— Mas isso é bom. Ele localizou a bola de boliche?

— Não. E não é tão bom quanto você pensa. Sei que vai parecer insano, mas Jay diz que essas pessoas estavam convencidas de que o corpo era extraterrestre. Parece que esperavam usar o cadáver em algum tipo de ritual nojento para ganhar poderes sobre aquele monstro alienígena.

— A Mãe do Enxame — disse Jube, surpreso.

— Sim — Crisálida falou, quase estridente. — Jay diz que eles são ligados de alguma forma. Ele acha que eles veneram aquela coisa. Olha, não devemos falar sobre isso por telefone.

— Por que não? — Jube quis saber.

— Por que essas pessoas são perigosas — Crisálida respondeu. — Jay está vindo para o Palace esta noite para me passar um relatório completo. Esteja lá também. Estou tirando meu time de campo nessa questão, Jubal. Você pode negociar direto com Jay a partir de agora. Mas, se quiser, peço para Fortunato aparecer. Acho que ele ficaria interessado no que Jay descobriu.

Fortunato! — Jube ficou horrorizado. Ele conhecia Fortunado mais pela reputação. O cafetão alto com olhos amendoados e testa inchada era um cliente habitual do Crystal Palace, mas Jube sempre tentava evitá-lo. Telepatas o deixavam nervoso. Dr. Tachyon nunca entrara numa mente sem um bom motivo, mas com Fortunato a história era outra. Quem sabe como e por que usaria seus poderes, ou o que poderia fazer se descobrisse o que Jube, o Morsa, realmente era? — Não — disse ele, apressado. — Não, não mesmo. Isso não tem nada a ver com Fortunato!

— Ele conhece mais sobre esses maçons do que qualquer outra pessoa na cidade — Crisálida disse. Ela suspirou. — Bem, você está pagando esse enterro, então suponho que você queira levar o caixão. Não vou dizer palavra. Nos falamos depois que o bar fechar.

— Depois que o bar fechar — Jube repetiu. Ele desligou antes que pudesse pensar em perguntar o que ela quis dizer com maçons. Jube conhecia os maçons, claro. Fez um estudo das organizações fraternais humanas décadas atrás, comparando os Shriners, os Cavaleiros de Colombo, os Odd Fellows, e os Maçons a cada irmandade de laços das luas de Thdentien. Reginald era um maçom, Jube parecia lembrar, e Denton tentou se unir à ordem dos Alces, mas eles o rejeitaram por conta dos chifres. O que os maçons tinham a ver com aquilo?

Naquele dia, Jube estava agitado demais para fazer piadas. Não sabia quem temer mais, se as Mães do Enxame, as naves de guerra takisianas ou os maçons. Mesmo se a cavalaria viesse cavalgando por sobre o monte, Jube pensou, será que conseguiria reconhecer os índios? Ele olhou para o céu e balançou a cabeça.

Quando ele trancou a banca à noite, fez suas entregas no Funhouse e no Chaos Club, então decidiu interromper seu zigue-zague pelo Bairro dos Curingas e seguir direto para o Crystal Palace o mais rápido possível. Mas primeiro precisava fazer uma última parada, na delegacia.

O sargento de plantão ficou com um Daily News e folheou a página de esportes, enquanto Jube deixou um Times e um Grito do Bairro dos Curingas para o capitão Black. Ele estava se virando para ir embora quando um cara à paisana o viu.

— Ei, gordinho — o homem chamou. — Você tem a Informer? Ele estava recostado no banco em frente à parede de azulejos, quase como se tivesse esperando alguém. Jube o conhecia de vista: um tipo desmazelado, indefinível, com um sorriso desagradável. Nunca tinha se dado o trabalho de chamar Jube pelo nome, mas aparecia na banca às vezes para pegar um tabloide. Às vezes, até pagava.

Mas não aquela noite.

— Obrigado — disse ele, enquanto aceitava a edição da National Informer que Jube lhe oferecia. OS TAKISIANOS INVENTARAM O HERPES?, berrava a manchete. Jube teve um mau pressentimento. Logo abaixo, outra história perguntava se Sean estava prestes a largar a Madonna pela Peregrina. O cara à paisana nem mesmo olhou para as manchetes. Estava encarando Jube de um jeito estranho. O canto da boca se retorceu num sorrisinho peculiar.