— Você é só um curinga feio, não é? — o policial perguntou.
Jube esgarçou as presas num sorriso insinuante.
— Que, feio eu? Que nada, eu tenho tetas maiores que a Miss Outubro!
— Já passei tempo demais ouvindo suas piadas idiotas — o cara à paisana soltou. — Mas o que eu podia esperar? Você não é muito brilhante também, não é?
Brilhante o suficiente para enganar sua raça por 33 anos, pensou Jube, mas não disse nada.
— Bem, sabe quantos curingas são necessários para trocar uma lâmpada? — disse ele.
— Leva esse seu rabo gordo de curinga pra fora daqui — o homem falou.
Jube cambaleou até a porta. No topo das escadas, ele se virou e gritou:
— Esse jornal é por minha conta! — E então se dirigiu ao Crystal Palace.
Chegou mais cedo aquela noite, e o Palace ainda estava lotado. Jube sentou num banquinho no fim do bar, onde poderia descansar as costas contra a parede e ver o salão inteiro. Era a noite de folga do Sascha, e Lupo estava atendendo no bar.
— Que vai ser, Morsa? — ele perguntou, a língua vermelha e longa se estendendo de um canto da boca.
— Piña colada — disse Jube. — Com rum duplo.
Lupo concordou com a cabeça e saiu para fazer o drinque. Jube olhou em volta, cuidadosamente. Tinha uma sensação desconfortável, como se estivesse sendo observado. Mas por quem? O bar estava cheio de estranhos, e não se via Crisálida em lugar algum. Três bancos adiante, um homem grande com máscara de leão acendia um cigarro para uma jovem cujo vestido curto mostrava um amplo decote com três seios grandes. Mais adiante no bar, uma forma curvada com um manto cinza fitava seu drinque. Uma mulher esguia, vivaz e verde fez contato visual quando Jube olhou para ela, e deslizou, provocante, a ponta de uma língua rosa sobre o lábio superior (ao menos poderia ter sido provocante para um macho humano), mas obviamente era uma prostituta, e ele a ignorou. Em outro lugar no salão, viu Yin-Yang, cujas duas cabeças estavam numa discussão acalorada, e o Velho Senhor Cricket também. O Pena desmaiou e flutuava perto do teto novamente. Mas havia muitos rostos e máscaras que Jube não reconhecia. Qualquer um deles poderia ser Jay Ackroyd. Crisálida nunca disse qual a aparência dele, apenas que era um ás. Poderia até ser o homem com a máscara de leão que — Jube percebeu de relance — tinha deslizado um braço em torno da garota de três seios e estava passando as pontas dos dedos levemente no topo dos seios à direita.
Lupo passou a flanela no bar, lançou um descanso de copo e botou a piña colada sobre ele. Jube tinha tomado apenas o primeiro gole quando um estranho se sentou no banco ao seu lado.
— Você que está vendendo aqueles jornais?
— Sim, sou eu.
— Bom. — A voz era abafada pela máscara, uma cabeça branca como um crânio. Vestia uma capa preta de capuz sobre um terno puído que pouco melhorava seu corpo magro, de peito fundo. — Vou levar um Grito, então.
Jube achou que tinha algo desagradável nos olhos dele. Ele desviou o olhar, encontrou uma edição do Grito e lhe entregou. O homem encapuzado deu a ele uma moeda.
— O que é isso? — Jube perguntou.
— Uma moeda — o homem respondeu.
A moeda era maior do que deveria ser, e um vermelho vívido contra a palma da mão negra de Jube. Nunca tinha visto algo assim.
— Não sei se…
— Deixa pra lá — o homem interrompeu. Pegou a moeda da mão de Jube e deu a ele um dólar com a estampa de Susan B. Anthony, a sufragista. — E o meu troco, Morsa? — o homem exigiu. Jube deu a ele de volta três moedas de 25 centavos. — Você me deu o troco errado — o homem disse com maldade quando embolsou as moedas.
— Não dei — disse Jube com indignação.
— Olhe nos meus olhos e diga isso, seu imbecil safado.
Atrás do homem com cara de caveira, a porta se abriu e Troll entrou rapidamente no bar, seguido por um homem baixo de cabelos vermelhos num terno verde-limão.
— Tachyon — disse Jube, apreensivo, lembrando-se de repente da nave de guerra takisiana em órbita.
A companhia desagradável de Jube girou a cabeça com tanta força que o capuz caiu, revelando um cabelo castanho fino e um sério problema de caspa. Ele se sacudiu em pé, hesitou, depois correu para a porta assim que Tachyon e Troll se aproximaram por trás.
— Ei! — Jube o chamou. — Ei, senhor, seu jornal!
Ele deixou o Grito no bar. O homem saiu tão rápido que quase prendeu a ponta da longa capa preta na porta. Jube deu de ombros e voltou para sua piña colada.
Muitas horas e uma dúzia de drinques depois, Crisálida ainda não tinha aparecido, nem Jube percebeu ninguém que parecesse como ele imaginava o tal Popinjay. Quando Lupo anunciou a última rodada, Jube acenou para ele.
— Onde ela está? — ele perguntou.
— Crisálida? — Lupo devolveu a pergunta. Os olhos vermelhos e profundos reluziram em cada lado de seu focinho longo e peludo. — Ela tá te esperando?
Jube concordou com a cabeça.
— Tenho uma coisa pra falar com ela.
— Tudo bem — Lupo disse. — Na sala vermelha, terceira cabine da esquerda pra direita. Está com um amigo. — Ele sorriu. — Finja que não está vendo ele, se é que você me entende.
— Tudo que ela quiser.
Jube pensou que o amigo tinha de ser Popinjay, mas não disse nada. Saiu cuidadosamente do banquinho e foi para a sala vermelha, bem à direita do bar principal. Dentro dele, estava escuro e esfumaçado. As luzes eram vermelhas, o carpete grosso e felpudo era vermelho, e as pesadas cortinas de veludo em torno das cabines eram de um vinho-escuro vivo. A maioria das cabines estava vazia àquela hora da noite, mas ele conseguiu ouvir uma mulher gemendo de uma que não estava. Foi até a terceira cabine da esquerda para a direita, puxou a cortina e botou a cabeça lá dentro.
Lá dentro, estavam conversando, em tom baixo e sério, mas a conversa foi interrompida. Crisálida olhou para ele.
— Jubal — disse ela com firmeza. — Que posso fazer por você?
Jube olhou para o acompanhante, um homem branco, forte e compacto de camiseta preta e uma jaqueta de couro escuro. Vestia a máscara mais comum, um capuz preto que cobria tudo, menos os olhos.
— Você deve ser Popinjay — disse Jube, antes de se lembrar que o detetive não gostava que o chamassem assim.
— Não — o mascarado respondeu, a voz surpreendentemente suave. Ele olhou para Crisálida. — Podemos voltar a conversar mais tarde se você tem negócios a fazer. — Ele deslizou para fora da cabine e desapareceu sem dizer qualquer palavra.
— Entre — disse Crisálida. Jube se sentou e fechou as cortinas. — Seja lá o que tenha pra mim, espero que seja bom. — Ela parecia bastante irritada.
— Ter para você? — Jube estava confuso. — Do que está falando? Onde está o Popinjay, ele não deveria estar aqui agora?
Ela o encarou. Encapsulada na carne transparente e nos músculos cinzentos fantasmagóricos, seu crânio fez Jube lembrar-se do homem desagradável que sentou ao lado dele no bar.
— Não sabia que você conhecia o Jay. Que ele tem a ver com você? Tem alguma coisa sobre ele que preciso saber?
— O relatório — Jube soltou. — Ele ia nos falar sobre aqueles maçons que contrataram o Devil John para roubar o corpo do necrotério. Eles eram perigosos, você disse.
Crisálida riu dele, abriu as cortinas e levantou-se languidamente.
— Jubal, não sei quantos drinques exóticos com rum você desfrutou hoje, mas acho que foram muitos. É sempre um problema quando Lupo está no bar. Sascha consegue dizer quando um cliente já bebeu demais, mas não nosso pequeno lobinho. Vá para casa e durma.