— Para casa! — disse Jube. — Mas, e o corpo, e o Devil John e os maçons…
— Se você quiser se juntar a uma fraternidade, os Odd Fellows seriam perfeitos para você, eu acho — disse Crisálida num tom entediado. — Tirando isso, não tenho a mais vaga ideia do que você está falando.
A caminhada para casa foi longa e quente, e Jube teve uma sensação inquietante, como se estivesse sendo observado. Parou e olhou em volta furtivamente diversas vezes para tentar perceber qualquer um que o estivesse seguindo, mas não havia ninguém por ali.
Na privacidade do seu apartamento, Jube afundou agradecido na banheira gelada e ligou a televisão. O filme da madrugada era Trinta minutos sobre a Broadway!, mas não era a versão com Howard Hawks, era o remake horrível de 1978 com Jan-Michael Vincent como o Jetboy e Dudley Moore fazendo um Tachyon divertido numa peruca vermelha horrível. Jube acabou vendo mesmo assim; precisava de uma fuga nada intelectual. Ele se preocuparia com Crisálida e o resto no dia seguinte.
Jetboy tinha acabado de bater o JB-1 no dirigível quando a tela de repente estalou e ficou preta.
— Ei — disse Jube, apertando o controle remoto com força. Nada aconteceu.
Então, um cão do tamanho de um pônei saiu do aparelho de televisão.
Ele era seco e terrível, o corpo cinza esfumaçado e terrivelmente macilento, os olhos eram janelas que se abriam para uma câmara mortuária. Uma cauda longa e bipartida curvava-se sobre as costas como o ferrão de um escorpião e se retorcia de um lado para o outro.
Jube se encolheu tão rápido que derramou água sobre todo o chão do quarto, e começou a gritar para a coisa. O cão arreganhava os dentes, que eram adagas amarelas. Jube percebeu que murmurava na língua de contato da Rede, e mudou para o inglês.
— Saia! — falou para o animal. — Vá embora!
Arranhava o lado da banheira, espalhando mais água, e se retraiu. O controle remoto ainda estava na sua mão, se pudesse alcançar seu gabinete… Mas o que teria de bom lá contra algo que atravessava paredes? Sua carne ficou quente com o terror súbito.
O cão caminhou em sua direção, então parou. Seu olhar estava fixo entre as pernas de Jube. Pareceu por um momento se divertir com o pênis duplo dividido, e a genitália feminina inteira sob ele. Jube decidiu que sua melhor chance estava em lançar-se para a rua. Ele correu para trás.
— Gordinho — o cão falou numa voz que era malícia pura e grudenta. — Vai correr de mim? Você me procurou, seu tolo. Acha que suas pernas grossas de curinga podem te fazer escapar de Setekh, o destruidor?
Jube ficou boquiaberto.
— Quem…
— Sou aquele cujos segredos você buscou descobrir — disse o cão. — Curinga pequeno e patético, achou que não perceberíamos, achou que não nos importássemos? Soube pela mente dos seus contratados, e segui o rastro até você. E agora você vai morrer.
— Por quê? — Jube perguntou. Não tinha dúvida de que a criatura poderia matá-lo, mas se precisasse perecer, esperava ao menos saber o motivo.
— Por que me fez perder tempo — o cão respondeu. Sua boca se remexia em formas obscenas, afetadas quando falava. — Pensei que encontraria um grande inimigo e, em vez disso, encontro um curinga gordo e baixote que faz dinheiro vendendo fofocas a uma dona de bar. Quanto você achou que valiam os segredos da nossa Ordem? Quem achou que poderia pagar por eles, Morsa? Diga e eu não o farei sofrer. Minta, e sua morte vai durar até o raiar do dia.
O cão não tinha ideia do que ele era, Jhubben percebeu. Como poderia? Soube dele por Crisálida, pela rua; não olhou para dentro do seu segredo. De repente, por razões que não conseguiria explicar, Jube sabia que Setekh não deveria saber. Ele deveria levar aquela coisa para longe dos seus segredos.
— Não quis incomodá-lo, poderoso Setekh — disse ele em voz alta. Tinha posado de curinga por 33 anos, ele sabia como rastejar. — Peço sua misericórdia — disse, afastando-se de costas para a sala de estar. — Não sou seu inimigo — falou ainda. O cão o seguia, olhos faiscantes, língua rolando de seu focinho comprido. Jube pulou para a sala de estar, fechou a porta e correu.
O cão se lançou através da parede e o interceptou, e Jube perdeu o equilíbrio quando tentou fugir. Estatelou-se no chão, e o cão ergueu uma pata terrível para bater… e parou quando Jube se encolheu de medo do golpe fatal. A boca do cão se torceu e derramou uma baba fantasmagórica, e Jube percebeu que ele estava rindo. A coisa estava olhando algo atrás dele e rindo. Ele virou a cabeça e viu apenas o transmissor de táquions.
Quando olhou de volta, o cão havia desaparecido. Em vez dele, um homem frágil numa cadeira de rodas estava sentado, encarando-o.
— Somos uma Ordem antiga — disse o homenzinho. — Os segredos passaram por muitas bocas, e alguns se desviaram, alguns ramos foram perdidos e esquecidos. Fique feliz por não ter morrido, irmão.
— Ah, sim — disse Jube, ficando de joelhos. Não tinha ideia do motivo pelo qual estava sendo poupado, mas não discutiria a questão. — Obrigado, mestre. Não vou incomodá-lo de novo.
— Deixarei que viva, assim você poderá nos servir — a aparição de cadeira de rodas disse a ele. — Mesmo alguém estúpido e fraco como você poderá ter sua utilidade na grande batalha que está por vir. Mas não diga nada do que descobrir, ou não viverá para ser iniciado.
— Eu já esqueci — disse Jube.
O homem na cadeira de rodas pareceu achar aquilo imensamente divertido. Sua testa pulsava enquanto ria. Um momento depois, ele desapareceu. Jube ergueu-se com muito cuidado.
Bem cedo na manhã seguinte, um curinga com a pele carmesim vívida comprou uma edição do Daily News e pagou por ela com uma moeda vermelha e brilhante do tamanho de uma de cinquenta centavos de dólar.
— Eu ficaria com ela se fosse você, meu chapa — disse ele, sorrindo. — Acho que pode ser sua moeda da sorte.
Então ele contou quando e onde seria a próxima reunião.
Dificuldades relativas
Melinda M. Snodgrass
O Dr. Tachyon desceu os degraus da clínica Blythe van Renssaeler e parou para dar um tapinha em um dos abatidos leões de arenito que flanqueavam as escadas. Percebeu que seu companheiro ao norte ainda tinha um topete de neve suja adornando a cabeça decadente. Apesar de ele já estar atrasado para um almoço com o senador Hartmann no Aces High, não conseguia evitar carinhosamente tirar sua neve. Um vento ríspido e frio soprava do East River, conduzindo farrapos de névoa branca diante dele, e trazendo consigo o som das buzinas do tráfego imenso na ponte do Brooklyn.
A urgência das buzinas lembrou-o da passagem do tempo, e ele ultrapassou os dois últimos degraus num longo salto. E se deparou com uma superfície rosada. Um colete, Tach identificou antes de sua visão ser interrompida por um buquê de gladíolos bem embaixo do seu nariz. Tach olhou para cima, bem para cima, e percebeu que encarava um estranho… e havia perigo ou potencial de perigo em todo estranho. Três passos rápidos para trás o levaram para fora do alcance de tudo, menos de uma bala ou de algum poder esotérico de ás, e ele estudou cuidadosamente a aparição.
O homem era muito alto, sua altura ossuda aumentada pela cartola enorme, alta, púrpura, enfiada sobre os cabelos longos, lisos e loiros. Um casaco, também púrpura, pendurava-se de seus ombros estreitos, e fazia — na opinião de Tach — um contraste adorável à camisa laranja e violeta com estampa paisley e calças verdes. O espantalho sorridente novamente ofereceu as flores.
— Sabe, sou o Capitão Viajante, cara — ele falou, e ficou ali em pé, cambaleando e sorrindo como um farol bêbado. Fascinado, Tachyon olhou para os olhos azuis pálidos nadando atrás de lentes que pareciam ter sido tiradas do fundo de garrafas de Coca-Cola. Incapaz de pensar qualquer coisa coerente para dizer, Tach simplesmente aceitou as flores.