Выбрать главу

— Este não é meu nome de verdade, cara — o Capitão confiou numa espécie de sussurro que teria chegado até as últimas fileiras do Carnegie Hall. — Sou um ás, então preciso ter uma identidade secreta, sabe? — O Capitão correu a mão ossuda pela boca, ajeitando levemente o bigode e o tufo desgrenhado de barba. — Ah, uau, sabe, nem posso acreditar. Dr. Tachyon, em pessoa. Eu admiro você, de verdade, cara.

Tach, que nunca foi daqueles que recusavam um elogio, ficou lisonjeado, mas também estava ciente do tempo que passava. Enfiou as flores no bolso do casaco e voltou a andar, seu acompanhante recém-encontrado seguindo ao seu lado. Havia uma sensação boa sobre o homem que tomou conta dele com um odor leve de ginseng, sândalo e suor velho, mas Tach não conseguia se livrar da sensação de que o Capitão era um lunático amigável. Afundando as mãos nos bolsos de trás da calça azul-marinho, lançou um olhar de canto de olho para o Viajante e decidiu que precisava dizer algo. Óbvio que não se livraria do homem tão cedo.

— Então, teria algum motivo especial para me procurar?

— Bem, acho que preciso de um conselho. Tipo, sabe, pareceu que você era a pessoa a quem eu devia perguntar. — As mãos do homem buscaram a gravata verde gigantesca com pontinhos amarelos e deram uma bela puxada, como se ele a achasse sufocante. — Não sou realmente o Capitão Viajante.

— Sim, eu sei, você já disse — Tach retrucou, persistindo com sua paciência, agora quase desaparecida.

— Meu nome de verdade é Mark Meadows. Doutor Mark Meadows. Tipo, temos muito em comum, cara.

— Você só pode estar brincando — soltou Tach e, no mesmo instante, arrependeu-se da grosseria.

A figura desajeitada pareceu murchar, perdendo alguns centímetros.

— Sou eu, cara, de verdade.

Dez anos atrás, Mark Meadows foi considerado o bioquímico mais brilhante do mundo, o Einstein da sua área. Houve uma dúzia de explicações diferentes para sua aposentadoria repentina: estresse, deterioração da personalidade, o término do casamento, abuso de drogas. Mas pensar que o jovem gigante fora reduzido a esse desajeitado…

— Estou, sabe, procurando pelo Radical, cara.

A memória estalou: 1970?, a revolta no People’s Park, quando um misterioso ás apareceu na cena, resgatou o Rei-Lagarto e sumiu para nunca mais ser visto.

— Você não é o único. Tentei localizá-lo nos anos 1970, mas ele nunca reapareceu.

— Sim, é realmente uma vergonha — o Capitão concordou, com tristeza. — Uma vez eu… bem, acho que eu o tive uma vez, mas nunca consegui tê-lo de volta, então talvez eu não tenha tido. Talvez seja só, tipo, ilusão, cara.

Você está dizendo que é o Radical? — A descrença fez a voz de Tach aumentar muitas oitavas.

— Ah, não, cara, porque não tenho prova. Eu fiz esses pozinhos, tentando encontrá-lo, trazê-lo de volta, mas quando como as poeiras consigo essas outras pessoas.

— Outras pessoas? — Tach repetiu num tom artificialmente calmo.

— Sim, meus amigos, cara.

Tachyon tinha certeza agora. Estava com um maluco nas mãos. Se ao menos tivesse pedido a limusine. Ele começou a buscar uma maneira de se livrar da companhia indesejável e chegar à reunião antes que cancelassem o subsídio ou sabe-se lá Ideal mais o quê… Viu uma travessa que ele sabia ser um atalho para um ponto de táxi. Com certeza ele conseguiria se livrar…

Viajante estava caminhando de novo.

— Você é, tipo, o pai de todos os ases, cara. E sempre está fazendo coisas pra ajudar o povo. E eu gostaria de ajudar o povo, então pensei que você poderia, tipo, me ensinar a ser um ás, e combater o mal e…

Fosse lá o que o Capitão quisesse se perdeu numa freada brusca quando um carro entrou com tudo na travessa e sacudiu numa parada. Instintos de sobrevivência, treinados na infância, tomaram conta dele, e Tach girou e correu daquilo que agora percebeu ser uma caixa mortal. Viajante olhava de um lado para o outro, sua cabeça apontando para o carro e para o takisiano em fuga como um flamingo perplexo.

Screeeech! Bum! Outro carro, de fato bloqueando sua escapada. E as figuras — figuras familiares — saindo aos borbotões dos veículos. Ele não tinha tempo de ponderar sobre a presença inexplicável de seus parentes na Terra; em vez disso, seus escudos se armaram a tempo de rebaterem um poderoso choque mental. Seu poder se expandiu, escudos se chocaram, caíram, e um de seus algozes despencou.

Ele tentou outra vez; os escudos aguentaram. São muitos. Tempo para tentar e enganá-los fisicamente. O vazamento da mente deles indicava uma captura simples, mas então ele viu um laçador no bracelete do seu primo Rabdan. Era uma arma especialmente perigosa, e uma arma de assassinato popular. Uma pressão no peito da vítima e o coração parava. Rápida, limpa, simples, e o trabalho estava terminado. Uma voadora traseira fez Rabdan pousar num monte de latas de lixo. As latas caídas foram abaixo com estouro e estardalhaço, soltando o fedor de lixo apodrecendo, e quatro ou cinco gatos de rua choramingaram e chiaram. O disco prateado do laçador rolou da mão de Rabdan e Tach pulou para pegá-lo.

De canto de olho, viu o Capitão segurar a cabeça e desmaiar com um gemido sobre a calçada escorregadia. Outro ataque mental que seus escudos revidaram, mas de nada adiantaram contra um bastão manejado com destreza por Sedjur, seu antigo mestre de armas, e quando seu crânio explodiu em fragmentos de luz e dor, Tachyon sentiu uma sensação profunda de agonia e traição, e um desejo imenso de ter uma arma.

— … trazer este outro?

— Você disse para não deixar nem testemunhas, nem corpos.

Os tons zangados e defensivos de Rabdan pareciam filtrados por muitos quilômetros de algodão, e aquela outra voz… não poderia ser. Tach fechou os olhos com mais força, desejando voltar à inconsciência, qualquer coisa menos a presença da Kibr, Benaf’saj.

A velha suspirou.

— Muito bem, talvez ele possa servir como um controle. Leve-o para a cabine com os outros.

Os passos de Rabdan recuaram, acompanhados por um som de arrasto.

— O garoto se saiu bem — Sedjur disse assim que Rabdan saiu, e ele não poderia se ofender com suas observações. — Os anos aqui o fortaleceram. Venceu Rabdan.

— Sim, sim. Agora vá. Preciso falar com meu neto.

Os passos de Sedjur diminuíram, e Tach continuou a fingir que estava dormindo. Sua mente estendeu-se, tocou a presença da nave, (era definitivamente uma nave de guerra da classe Corcel), sentiu o padrão familiar das mentes takisianas, o pânico de dois… não, de três mentes humanas. E, finalmente, uma mente cujo toque trouxe um ataque de medo e ódio e arrependimento tingidos pela tristeza. Seu primo, Zabb, tomando consciência da sondagem suave, rebateu, e o escudo imperfeito de Tachyon permitiu que parte do revide passasse. Sua dor de cabeça aumentou em intensidade.

— Sei que está consciente — Benaf’saj disse, começando a conversa.

Com um suspiro, Tach abriu os olhos e observou os traços bem marcados da sua parente viva mais velha. A luminescência opalina das paredes da nave formava uma auréola em torno do seu cabelo prateado e aumentava a rede de linhas entalhadas em seu rosto. Contudo, mesmo com toda a devastação, era possível ver traços da beleza formidável que fascinara muitas gerações de homens. Existe a lenda de que um membro da família Alaa arriscou tudo para passar uma noite com ela. Perguntava-se se ele achava que o júbilo valia o preço, pois ela o mataria antes da manhã. (Ou assim contava a história.) A mão retorcida pegou uma mecha de cabelo que estava solta do penteado elaborado, enquanto os olhos cinzentos esmaecidos o examinavam com uma frieza que beirava o desinteresse.