Diversos homens esguios em uniformes dourados e brancos de ópera cômica aproximaram-se e o examinaram, enquanto outro se lançou para dentro da carapaça e saiu de lá com a estranha bola preta e um pacote de seis cervejas pela metade. Ele fez um gesto com as latas, o que causou um som metálico e abafado, e houve um estouro de gargalhadas. Em seguida, o aparelho foi examinado entre uma onda de palavras musicais cheias de pausas aleatórias e inexplicáveis. Dando de ombros, o aparelho foi colocado numa prateleira que se estendia de um lado da sala curva. Um de seus captores gesticulou polidamente na direção de uma porta de entrada. A cortesia do gesto removeu seu pior medo — era óbvio que não estava nas mãos do Enxame. De alguma forma, a gentileza não parecia se encaixar com os monstros.
Saíram num corredor serpenteante cujas paredes, chão e teto brilhavam como concha de abalone polida. Enquanto prosseguiam, o teto abaulado se iluminava antes deles e escurecia depois de passarem. Uma parede trazia um adereço de linhas róseas como as pétalas de uma flor. Essa seção escancarou-se de repente, e Tom foi conduzido até uma cabine luxuosa.
Uma explosão de riso delicado e feminino o recebeu, e ele olhou para a bela mulher curvada no centro de uma grande cama redonda.
— Bem, você não parece gostar muito — disse ela com um olhar avaliador. Ele murchou a barriga e desejou que sua camiseta estivesse limpa. — Sou Asta Lenser. Quem é você, afinal? — Ele estava assustado, mas o medo o deixou cuidadoso. Ele balançou a cabeça. — Ah, foda-se! Estamos nisso aqui juntos.
— Sou um ás. Tenho que ser cuidadoso.
— Bem, grande merda! Eu também sou.
— É?
— Sim, faço a dança dos sete véus. — Seus braços longos e graciosos sacudiram formas sobre ela. — Deixo Salomé no chinelo. — Ele olhava perplexo. — Você nunca foi ao balé?
— Não.
— Babaca. — Ela fuçou numa grande bolsa disforme e tirou de lá um pacote de pó branco, um espelho e um canudinho. Suas mãos tremiam tanto que levou cinco tentativas para conseguir estender as carreiras. Sugou a cocaína e recostou-se com um longo suspiro de alívio. — Onde estamos? Ah, sim, meu poder. Posso hipnotizar as pessoas com minha dança. Em especial, homens. Mas é um poder insignificante quando você é sequestrado por alienígenas. Ainda assim. Ele mesmo com certeza apreciou. Consegui muitas informações boas com meu poder insignificante e o segurei… em pé. — Ela fez um gesto obsceno entre as pernas.
Tom perguntou-se de quem e que diabos ela estava falando, mas francamente não se importou em decifrar. Cambaleou pelo quarto, e caiu num banco baixo que parecia uma extrusão da própria nave. Quando se sentou na almofada grossa adornada, houve estalidos de folhas e pétalas secas, e um aroma muito forte preencheu o ar.
Não tinha certeza de quanto tempo ficou no banco, torturando-se sobre sua situação — Takisianos! Jesus Cristo! O que vai acontecer com eles? Tach? Ele poderia ajudar? Ele tá sabendo? Que merda!
— Ei — Asta chamou. — Desculpe. Olha, nós dois somos ases, poderíamos fazer alguma coisa pra sair dessa bagunça.
Tom apenas balançou a cabeça. Como poderia dizer a ela que deixou seus poderes para trás com sua carapaça?
O riscar do fósforo soou alto na sala silenciosa. Tach observou com atenção desnecessária quando a vela reluziu. A luz atingiu a cor da parede da nave e espalhou um aroma suave de flores. Puxando uma moeda de 25 centavos do bolso, ele a pousou no altar. Parecia incongruente entre as moedas takisianas de ouro. Ele levantou a faca mínima com cabo perolado, murmurou uma breve oração para a libertação do espírito do pai e fez um pequeno corte na ponta do dedo indicador. O sangue correu devagar, e ele encostou a gota reluzente na moeda. Abaixou-se para se sentar de pernas cruzadas diante do altar familiar, lambendo o corte do dedo, e rolando a faquinha de meio centímetro na mão.
— Esta não é uma grande arma.
Zabb estava recostado à porta, braços cruzados à frente do peito. Tinha quase um metro e oitenta, com corpo magro, peito grande e ombros largos de nadador ou de lutador de artes marciais. Cabelos ondulados, de um cinzento dourado, caíam de uma testa alta e branca, e apenas encostavam no colarinho de sua túnica branca e dourada. Os olhos frios e cinzentos adicionavam-se à impressão de metal e cristal. Não havia calor naquele homem. Mas havia poder e comando, e um carisma assolador.
— Não era o que eu estava pensando.
— Pois deveria.
Algo aconteceu naquele momento, a disposição dos ombros de Zabb, ou talvez o entortar indulgente da cabeça, que fez Tach se lembrar do passado… antes de a política familiar irromper, antes de ele entender os sussurros que ligavam a mãe de Zabb à morte de sua mãe, antes… Um tempo quando Tach, então com 5 anos, adorava o glamoroso primo mais velho.
— Estava lembrando que você me deu meu primeiro animalzinho. Daquela ninhada que a velha Th’shula teve.
— Não, Tis. Isso está morto e enterrado.
— Assim como eu estarei?
Seus olhos se encontraram, cinza com lilás. Os de Tach baixaram primeiro.
— Sim. — A mão fina e bem cuidada esfregava nervosamente o bigode e as costeletas cheias. — Pretendo matá-lo antes de chegarmos a Takis. — O tom de Zabb era de uma conversa.
— Não quero voltar à família. Quero ficar na Terra.
— Não importa. Enquanto você estiver vivo, eu não conseguirei.
— E os humanos?
— São cobaias. Úteis se nos movermos para o segundo estágio. — Ele se virou para sair.
— Zabb, o que aconteceu?
Os ombros do primo se curvaram, então se soltaram para trás naquela rigidez militar.
— Você atingiu a maturidade.
A porta sussurrou ao se fechar atrás dele.
Tom e Asta assustaram-se quando os dois homens entraram, arrastando entre eles uma forma esparramada, desengonçada num terno púrpura de Tio Sam. O homem mais jovem ficou de joelhos, apalpou rapidamente os bolsos do casaco volumoso de hippie e tirou um pequeno frasco cheio de um pó azul salpicado de prata. O mais velho aceitou o frasco, destampou-o e, curioso, cheirou o conteúdo. Uma sobrancelha ergueu-se.
— Este aqui estava com Tisianne? — disse ele, em inglês.
— Sim, Rabdan.
— E eles pareceram amigáveis? — Seus olhos pálidos voltaram-se para Tom.
— S-sim.
— É um tipo de droga. E muito de uma droga pode causar efeitos terríveis. Certamente, espero que meu estimado sobrinho esteja familiarizado com o tratamento de uma overdose. De outra forma, o amigo dele poderia morrer. — Outro olhar misterioso, como o de um gato, para Tom.
Os dedos de seu acompanhante apertaram rapidamente os lábios, então disse ele, hesitante:
— Não deveríamos perguntar a Zabb?
— Bobagem, ele não se importará com o que acontecerá a um amigo humano de Tisianne.
Ajoelhando-se, derramou o conteúdo do frasco entre os lábios frouxos do hippie. Tom fez menção de se levantar, um protesto nos lábios, mas um olhar de Rabdan o fez cair de volta sobre o banco. Os olhos de todos se voltaram para a figura muito magra no chão; Asta, com entusiasmo, a ponta da língua apenas à mostra entre os lábios; Tom, horrorizado; o jovem takisiano, preocupado; e Rabdan com um bom humor jovial.
O homem ser retorceu, virou-se, e por um instante todos ficaram boquiabertos quando uma figura azul brilhante se ergueu do chão, majestosa. Dentro de sua capa de capuz escura como o espaço, seus olhos eram fendas de fogo branco, e o forro da capa reluzia com estrelas brilhantes, nébulas, espirais galácticas. Os takisianos pularam para a frente, agarrando o ar, enquanto a forma exótica afundava rápida e suavemente através do assoalho.