— Andami, poderia me trazer um jarro ou um balde?
O homem mais jovem, preocupado, mordeu o lábio inferior.
— Minhas ordens são para ficar aqui.
— Vocês são dois.
— Você vai tentar algo.
— Não sou seu príncipe?
— Sim. Mas ainda assim você tentará algo, e não quero receber outra reprimenda de Zabb.
— Que sua linhagem feneça — ele rosnou entredentes, e voltou ao seu trotar perturbado.
Os trinta minutos seguintes passaram lentamente, enquanto Tach tentava evitar o rápido ressecamento da pele do tritão. Ele derramava um copo d’água no rosto de Aquarius, quando de repente a forma estremeceu e mudou, e lá estava o Capitão Viajante, tossindo e cuspindo enquanto a água escorria pelo nariz.
Assustado pela transformação abrupta, Tach gritou, derrubou o copo e se afastou.
Confuso, Viajante olhou para a cabine, então para sua forma longa, magra ainda adornada com cordas frouxamente enroladas. Perdera muito de sua massa com a partida de Aquarius e, quando se levantou, as cordas lhe escorreram pelo corpo, aterrissando num monte embaraçado no chão em torno dos pés.
Ele tirou os óculos e os limpou furiosamente, enquanto piscava, míope, na direção de Tachyon. Os óculos foram recolocados, e ele murmurou.
— Ah, que droga, cara.
Andami apressou-se por sobre ele e apalpou rapidamente os bolsos do Viajante. Localizou uma bolsa de couro com três frascos não utilizados. Tachyon esticou o pescoço para vê-los, mas os pós coloridos brilhantes pareciam singularmente inócuos. Ele desejou botar as mãos nas substâncias para realizar uma análise completa. Algo que podia transmutar uma forma humana… e então lhe ocorreu. Capitão Viajante não era um maluco — era um ás.
— Capitão. — Ele esticou a mão. — Devo desculpas a você.
— Hum… para mim, cara?
— Sim. — Tach agarrou a mão molenga do homem e deu um aperto afetuoso. — Duvidei da sua história. De fato, pensei que era só um lunático inofensivo. Mas você é um ás. E um bastante incomum. Essas poções?
— Me ajudam a chamar meus amigos.
Ele chegou mais perto e baixou a voz.
— E eu não suponho que você tenha mais algum… — Ele piscou, e o Viajante olhou para ele sem entender. Tach suspirou. Ótimo, o homem poderia ser um ás, mas não era tão rápido assim no entendimento. — Você tem mais algum segredo sobre sua pessoa?
— Ah, não, cara. Leva um tempo para fazer essa coisa, e não acho que eu enfrentaria os alienígenas. Digo, acabamos com o Enxame, e não espero… Sinto muito, de verdade, cara. Não queria deixar você pra baixo…
— Não, não. Você não tinha como saber e fez muito bem. — O Capitão sorriu, e Tach percebeu, com um senso assolador de fracasso e desmerecimento, que aquele homem o adorava e admirava.
E vou desapontá-lo.
Tach seguiu até a cama e desmoronou, suas mãos pendendo fracas entre as coxas. Viajante, com uma sensibilidade que o alienígena não esperava, atravessou para o outro lado do quarto e o deixou sozinho com seus pensamentos infelizes. Algum tempo depois, houve um toque vacilante em seu ombro.
— Com licença, cara, desculpe incomodá-lo, mas estava pensando, tipo, quanto tempo até você nos tirar… — Ele interrompeu, e manchas vermelhas cobriram seu rosto esguio. — Veja, eu tenho uma filha, e ela provavelmente está indo para casa agora, vindo da escola, e a loja vai fechar, e estou com medo de que Susan não fique com ela, e Sprout, tipo, não pode ficar sozinha. — Seus dedos longos torciam-se desesperadamente.
— Sinto muito. Eu queria poder fazer algo. Queria ser o líder que todo mundo pensa que sou. Mas não sou. Sou uma fraude, Viajante, para o meu próprio povo e para o seu. — O hippie desengonçado pousou um braço sobre os ombros de Tach, e este recostou a cabeça ao apoio ossudo do ombro de Viajante.
Viajante sacudiu desoladamente a cabeça.
— Não é assim nos quadrinhos. Nos quadrinhos, os caras bons sempre vencem. Eles, tipo, sempre têm o poder certo na hora certa.
— Infelizmente, a vida não funciona desse jeito. Estou muito cansado.
— Por que não dorme um pouco? Eu fico de vigia.
Tach quis perguntar a ele “Contra o quê?”, mas apreciou a generosidade que brotava da oferta e ficou quieto. Arrancou os sapatos, e Viajante carinhosamente puxou uma colcha até seu queixo.
Ele percebeu, confuso, enquanto o sono o chamava, que sempre usava a cama e a bebida como válvula de escape, e hoje tinha usado ambas. O poder certo na hora certa. O pensamento atiçava as bordas de sua consciência. O poder certo…
— Pelo Ideal! — Ele se levantou de uma vez e chutou a colcha.
— Ei, o quê, cara?
Ele agarrou, caloroso, as lapelas do casaco de Viajante.
— Sou um idiota. Um idiota. A resposta estava bem na minha frente, e eu perdi.
— O quê?
— O aparelho da Rede.
— Hein?
Andami olhava para ele com curiosidade, e Tach rapidamente baixou a voz.
— Aquilo não é uma bola de boliche. É um deslocador de singularidade. — Ele rapidamente deslizou os pés nos sapatos. — Anos atrás, antes de eu deixar meu lar, um dos Mestres Comerciantes discutia a possibilidade de vender ao meu clã um novo dispositivo experimental de teletransporte. Ele demonstrou um e disse que eles poderiam estar logo disponíveis após alguns testes. Aquele deve ser um daqueles dispositivos. E está no porão principal.
Viajante estava totalmente desnorteado com o tagarelar do outro. Ele se agarrou na única observação que entendeu.
— Sim, mas, tipo, não estamos no porão principal.
— Como chegamos todos lá? — Tach coçou os cabelos com a ponta dos dedos. — Se todos estivermos juntos, acho que posso ativar o dispositivo e nos mandar para casa. Quanto maior a capacidade telepática, maior a precisão, e o tamanho daquilo que pode ser carregado. Essa era a teoria. Claro que o Mestre Comerciante podia estar apenas propagandeando. Difícil dizer quando se trata da Rede. Eles têm a alma de comerciantes gananciosos.
— Hum… o que é a Rede?
— Outra raça espacial; de fato, diversas raças interestelares, mas não precisamos nos preocupar com isso agora. O ponto é que um deslocador de singularidade está aqui, nesta nave, e pode nos levar para casa. Claro, se o Tartaruga estava com o dispositivo, isso significa que a Rede está presente na Terra, e que isso pode significar problemas. — Ele coçou o rosto. — Não, um problema por vez. Como chegar ao porão.
— Tipo, o que vai pra lá?
— Bem, obviamente ele é usado para armazenagem de carga, e quando não há carga – que é o que acontece na maioria das vezes, numa nave desta classe – é usado para recreação. Danças e coisas assim.
Viajante olhou com hesitação.
— Não acho que podemos convidar todo mundo pra dançar.
Tach riu.
— Não. — Sua expressão ficou vazia. — Mas podemos convidá-los para um duelo.
— Hein?
— Silêncio por um momento. Preciso pensar nisso.
E ele finalmente fez o que devia ter feito desde o início. Pensou como um takisiano, em vez de como um ser humano.
— Conseguiu? — Viajante perguntou quando ele voltou a abrir os olhos.
— Sim.
Ele se deitou e sondou por uma mente familiar.
Tartaruga. Tem um jeito de sair daqui.
Sim? O tom mental era de derrota e desespero extremos.
O dispositivo que estava com você, ele pode nos levar pra casa.
Sim, mas ele está…
Fique quieto e ouça. Vamos todos para o compartimento de carga…
Por quê?
Você poderia parar um pouco? Porque eu vou tirar a gente daqui. A atenção estará em mim e, enquanto isso, você precisa pegar aquele dispositivo.