Zabb juntou-se a ele e disse em voz baixa:
— Espero por este momento há anos.
— Então, fico feliz por poder lhe dar este prazer. Não deve ser desprezada uma ocasião tão desejada.
As espadas estalaram numa breve saudação, e o tilintar de aço contra aço começou.
Tom não era um especialista nos requintes da esgrima, mas conseguia ver que aquela luta pouco lembrava os breves relances que vira da esgrima olímpica pela televisão. A velocidade era a mesma, mas havia uma intensidade mortal sobre os dois homens enquanto lutavam pela vida. Os olhos estavam fixados um no outro, e o deslizar dos pés em meias no chão da nave fazia um contraponto leve e sussurrante à respiração ofegante de Tach.
Seus companheiros estavam olhando para ele, Viajante com o olhar de um basset hound desesperado, Asta com a ponta da língua umedecendo os lábios. Tom virou a cabeça lentamente e olhou a bola preta pousada numa prateleira a pouco menos de um metro de distância. Ele se expandiu, esforçando-se tanto que o suor brotou da testa e sobre os lábios, e ele sentiu um vazio imenso, escancarado. O aparelho nem mesmo tremeu.
Viajante gemeu, e Tom olhou para trás apenas a tempo de ver a ponta flexível da espada atravessar o braço de Tach. Uma trilha vermelha seguiu seu caminho. Tach recuou com mais pressa que graça, e mal desviou-se de um empurrão malicioso de seu primo. Viajante, com os olhos azuis rasos d’água por trás das lentes grossas dos óculos, lançou-se para a frente e aterrissou nos ombros de Zabb. Com um resmungo, o takisiano agarrou o hippie e o jogou primorosamente através do salão. Viajante ficou caído, surpreso, no convés luminoso, buscando ar como um peixe. Vários guardas de Zabb o arrastaram de volta e o jogaram no chão entre os outros seres humanos.
— Não posso, simplesmente não posso — sussurrava Tom com nervosismo.
— Seu fracote de merda — Asta falou em alto e bom som, e virou-se de costas para ele, voltando a atenção ao duelo que recomeçara.
Tach piscava muito, tentando limpar o suor incômodo dos olhos. Cada suspiro queimava, e ínfimas labaredas pareciam lamber os músculos do braço com a espada.
Atenção, atenção, ele se encorajava.
Lâmina, vindo tão rápida que era apenas um borrão.
Ele desviou com uma batida vigorosa, a força da pancada vibrando em seus músculos já extenuados.
Um contragolpe… mas não com a lâmina. Com a mente. Uma seção do escudo fluiu, ondulou. Ele avançou, bateu, e Zabb cambaleou com o ataque mental. E contra-atacou. Corpo a corpo. O calor da respiração de Zabb no seu rosto. As lâminas irremediavelmente enroscadas. Tach esforçava-se, tentando lançar Zabb para trás, mas sentia-se vencido. A mente, uma parede cinzenta, implacável. Não, não totalmente!
Tach virou o corpo para o lado, evitando uma joelhada maldosa na virilha, pulou para trás e chutou as pernas de Zabb, livrando-se dele. Aplicou um Envelopment, mas o primo era rápido demais para ele. Zabb esquivou-se e seguiu com um contragolpe rápido, e um ataque mental que resvalou nos escudos de Tach.
Sua visão parecia turvar-se nos cantos. Sem forças. Quase perdendo o fôlego.
Tartaruga!
Ele tentou um golpe selvagem e desesperado em terceira. Zabb o rebateu quase com desdém. Era um demônio. Aquele sorriso ainda no rosto, e apenas umas poucas gotas de suor misturadas às costeletas onduladas. Seus cílios caíram, escondendo os olhos, e ele forçou um ataque. Uma camada de náusea cobriu a língua quando Tach percebeu que Zabb estava apenas brincando com ele até então.
— Gostaria de dar o assunto por encerrado, amado primo? — sussurrou seu torturador. — Claro que gostaria. Mas não será assim. Como prometido, vou matá-lo.
Sem fôlego para responder ao insulto, apenas sacudiu a cabeça, mais para livrar-se do suor do que para negar aquelas palavras. Atirou um golpe mental desesperado que foi bloqueado pelos escudos de Zabb, e então, como um milagre, viu uma abertura. Ele atacou, a lâmina raspando a de Zabb. Zabb agarrou a parte flexível da espada numa esquiva faiscante e continuou, sua ponta buscando o coração.
O tempo urge! Atração do incauto. Morte!
Ele teve certeza de ver aquilo: o breve tremer das narinas, o meio sorriso sardônico. Steve Bruder, com os mesmos maneirismos de quando esmagou a mão de Tom. Foda-se!, ele se lançou contra Zabb enquanto o poder o invadia, fazendo suas extremidades formigarem. Ele se expandiu e…
A lâmina veio rápida e certeira, então milagrosamente passou por um fio. Sem muito espaço, mas o suficiente! Tachyon ergueu a espada, defendendo o golpe.
Uma imensidão de alvos se ofereceu. O coração, a barriga, um corte no ombro? Tach prendeu o lábio inferior entre os dentes e por um momento selvagem e glorioso considerou enfiar a ponta fundo, bem fundo naquele corpo odioso. Atacou, os olhos deles se encontraram por um instante eterno, congelado. A lâmina girou na sua mão, o cabo acertando bem no queixo de Zabb com um som de machado batendo na madeira. A espada de Zabb foi ao chão num estrondo, e ele projetou o rosto. Houve um suspiro como um vento se erguendo da plateia reunida. Por um momento, Tach olhou para sua espada, então a jogou de lado, ajoelhando-se ao lado do primo. Gentilmente puxou-o de barriga para cima, e tomou o homem maior que ele nos braços.
— Veja, eu não pude fazer isso — ele sussurrou, e se perguntou por que lágrimas rolavam de suas pálpebras. — Sei que você preferiria que eu o matasse, mas não posso. E, apesar de nosso treinamento, a morte não é preferível à desonra.
Tom se levantou, suas mãos fechadas ao lado do corpo, e alegrou-se pelas ondas de entusiasmo e felicidade que percorriam seu corpo. Ele conseguiu. Verdade, usou concentração suficiente para arrastar uma empilhadeira, e o resultado final foi apenas um desvio de um minuto. Mas foi o suficiente! Tach sobreviveu — de fato, venceu — graças ao ato de Tom. Com um pouco de orgulho, ele encarou o dispositivo alienígena. Ele pairou pelo ar, pousando com um estalido satisfatório nas mãos de Tom.
— Venha, Tachy, hora de irmos — ele cantou, suas bochechas redondas vermelhas de empolgação.
Tach deixou o corpo de Zabb com suavidade no chão e saltou para perto dos amigos. Nem um parente se moveu.
Tom entregou a ele o aparelho com uma reverência um pouco desajeitada.
Tach respondeu à saudação.
— Muito bem, Tartaruga. Eu sabia que você era capaz.
Ele olhou para Benaf’saj, fez uma mesura elegante, acenou e os enviou de volta para casa.
Foi como estar no centro de um turbilhão de vazio. Uma escuridão gélida e absoluta, e para Tachyon a sensação de que sua mente estava sendo despedaçada em faixas mínimas e esfarrapadas pelo estresse de carregar todos os quatro viajantes dentro do invólucro do deslocador de singularidade.
Pelos ancestrais, ele gemeu. Ao menos permita que desçamos em terra seca.
Tachyon se retorceu, o aparelho rolando de seus dedos inertes. Viajante estava agachado na sarjeta, segurando a cabeça entre as mãos e murmurando sem parar “Oh, uau!”. Tom teve ânsia de vômito algumas vezes, enquanto seu estômago tentava decidir onde no tempo e espaço ele estava naquele momento. Houve uma comoção crescente, pessoas gritando, janelas se escancarando, buzinas tocando enquanto carros freavam bruscamente, seus ocupantes olhando abobalhados a imagem na calçada. Tom enterrou a palma das mãos nos olhos, olhou para Tach, e de pronto ajoelhou-se ao lado do takisiano. O sangue corria lentamente do corte longo e profundo de seu braço, descia ainda do nariz, e ele estava tão pálido que alarmava. O alienígena mal parecia estar respirando, e Tom encostou o ouvido no peito do amigo. As batidas do coração eram erráticas.