Ela sorriu de volta, acenou com desdém, rápida como um animal silvestre, quase furtiva, mas levemente formal. De repente estava começando a se dar conta de que tinha se adaptado a este mundo cão; sua primeira impressão foi de que ela era quase doentiamente magra, e só agora percebia como ela se aproximava do ideal de beleza takisiana, pálida e élfica. Quase albina, pele clara como papel, cabelos loiros platinados, olhos azuis esmaecidos. Aos olhos dele, ela estava vestida com monotonia, um tailleur cor de pêssego, cortado com rigor, sobre uma blusinha branca, um cordão no pescoço, tão pálido e fino quanto os fios de seus cabelos.
— É meu trabalho, doutor, como o senhor bem sabe. Meu jornal espera saber de mim o que acontece no Bairro dos Curingas. — Sara Morgenstern era a especialista do Washington Post para assuntos de ases e curingas desde que sua cobertura das revoltas no Bairro dos Curingas dez anos antes lhe trouxe uma indicação para o Pulitzer.
Ela não reagiu. Baixou os olhos.
— O Doughboy não faria aquilo, não mataria ninguém. Ele é gentil. É retardado, o senhor sabe.
— Sei.
— Vive com um curinga chamado Engraxado, no fim da Eldrige. O Engraxado está procurando por ele.
— Um inocente.
— Como uma criança. Ah, ele foi preso em 1976 por atacar um policial. Mas foi… diferente. Ele… aquilo estava no ar. — Ela parecia querer dizer mais, mas sua voz falhou.
— Estava mesmo. — Ele inclinou a cabeça. — Você parece envolvida de uma maneira incomum.
— Não consigo ver o Doughboy machucado. Ele está perplexo, assustado. Simplesmente não consigo manter minha objetividade jornalística.
— E a polícia? Por que não vai até eles?
— Eles têm um suspeito.
— Mas e o seu jornal? Com certeza o Post tem sua influência.
Ela sacudiu o cabelo glacial para trás.
— Ah, posso escrever uma denúncia fatal, doutor. Talvez os jornais de Nova York aceitem. Talvez até o Sixty Minutes… ah, em um ano ou dois… haverá comoção pública, talvez seja feita justiça. Nesse meio-tempo, ele estará preso no Tombs, doutor. Uma criança, sozinha e amedrontada. Tem ideia do que é ser injustamente acusado, ter sua liberdade privada por engano?
— Sim, tenho.
Ela mordeu o lábio.
— Eu me esqueci, desculpe.
— Não foi nada.
Tach reclinou-se para a frente.
— Sou um homem ocupado, minha cara. Tenho uma clínica para tocar. Estou tentando convencer as autoridades de que a Mãe do Enxame não irá embora simplesmente porque derrotamos sua primeira incursão, mas, em vez disso, pode estar preparando um ataque novo e até mais mortal. — Ele suspirou. — Bem. Suponho que preciso investigar isso.
— O senhor ajudará?
— Sim.
— Graças a Deus.
Ele se levantou e contornou a mesa para ficar ao lado dela. Ela tombou a cabeça para trás, lábios curiosamente frouxos, e ele teve a sensação de que ela tentava ser atraente sem saber muito bem como começar.
O que é isso?, ele se perguntou. Ele não era do tipo que normalmente recusaria um convite de uma mulher tão atraente, mas havia algo oculto ali, e os velhos instintos de disputa familiar takisiano o fizeram se desviar. Não que tenha sentido uma ameaça; apenas um mistério, e só isso já era ameaçador para alguém da sua casta.
Num capricho, meio irritado por ela estar fazendo uma oferta e tornando-a impossível de aceitar, ele esticou o braço e esbarrou no cordão na garganta da mulher. Surgiu um medalhão de prata chato, com as iniciais A.W. gravadas em letras cobreadas. Ela tentou agarrá-lo, mas com agilidade felina ele o abriu.
A foto de uma garota, uma criança, não mais do que 13 anos. O cabelo era amarelo, as feições cheias, um risinho arrogante, mas com uma semelhança inequívoca com Sara Morgenstern.
— Sua filha?
— Minha… minha irmã.
— A.W.?
— Morgenstern era meu nome de casada, doutor. Mantive depois do divórcio. — Ela deu um meio giro na cadeira, joelhos grudados, ombros arqueados.
— Andrea era o nome dela. Andrea Whitman.
— Era?
— Ela morreu. — Ela levantou-se rapidamente.
— Me desculpe.
— Faz tempo.
— Tio Tachy! Tio Tachy!
Um projétil loiro o atingiu na canela e enrolou-se como uma alga na porta do Cosmic Pumpkin (“Alimento para o corpo, a alma e o espírito”) Tabacaria e Delicatéssen, na Fitz-James O’Brien Street, próximo às fronteiras do Bairro dos Curingas e do Village. Rindo, ele se curvou, agarrou a garotinha e a abraçou.
— O que você trouxe pra mim, tio Tachy?
Ele enfiou a mão no bolso do casaco e tirou uma bala.
— Não diga ao seu pai que te dei.
Com olhos arregalados e solenidade, ela balançou a cabeça.
Ele a levou para dentro do aglomerado agradável. Lá dentro, ele ficou apertado. Difícil acreditar que a linda garota de 9 anos tinha um atraso mental, como o Doughboy, preso para sempre nos 4 anos de idade.
Doughboy era mais fácil, de alguma forma. Era imenso, mais de dois metros de altura, uma massa quase esférica de carne branca, sem pelos, levemente azulada, rosto inchado quase a perder as feições, olhos de uvas-passas fitando a partir da gordura e de lágrimas. Estava com quase 30 anos. Não conseguia se lembrar de ser chamado de outra coisa que não o apelido cruel de uma marca registrada de uma padaria. Estava assustado. Sentia falta do Sr. Engraxado e do Sr. Benson, o vendedor de jornais que morava embaixo deles, queria o Go-Bot que o Engraxado trouxe para ele pouco antes de os homens virem e o levarem embora. Queria ir para casa, fugir dos homens estranhos e brutos que o cutucavam com os dedos e o chamavam por nomes ridículos. Sentiu uma gratidão patética por Tachyon por ter ido vê-lo; quando Tach precisou ir embora, na sala de visitas verde-bile no Tombs, Doughboy agarrou a mão dele e chorou.
Tach também chorou, mas depois, longe dos olhos de Doughboy.
Mas Doughboy era, obviamente, um curinga, vítima do vírus carta selvagem. O próprio clã de Tach o havia trazido para este mundo. Sprout Meadows era uma criança perfeita fisicamente, refinada mesmo para os padrões severos das linhagens nobres de Ilkazam ou Alaa ou Kalimantari, de temperamento mais doce do que qualquer filha de Takis. Ainda assim, não era menos deformada do que Doughboy, não menos monstruosa pelos padrões da terra natal de Tach — e, como ele, teria sido instantaneamente destruída.
Ele olhou ao redor. Algumas das secretárias beliscavam o almoço tardio ao lado da vitrine frontal, sob a égide de um índio de loja de charuto.
— Onde está seu pai?
Com a boca fechada e cheia de caramelo, ela balançou a cabeça na direção da tabacaria.
— O que você está olhando, babaca? — uma voz resmungou.
Ele piscou, enxergando com atraso uma mulher jovem e troncuda num moletom cinza e sujo da CUNY, Universidade da Cidade de Nova York, atrás do mostruário de vidro da loja.
— Perdão?
— Olha aqui, seu babaca chauvinista, sei qual é a sua. Fica esperto.
Demorou, mas Tach lembrou-se da dupla de funcionários alternados de Mark Meadows.
— Ah… Brenda, não é? — Um sacudir de cabeça combativo. — Muito bem, Brenda, posso garantir que não tive a intenção de te encarar.
— Ah, tudo bem. Não sou do tipo debutante, como a Peregrina, não faço seu tipo. Sou uma daquelas mulheres que homens como você não vê. — Ela correu a mão sobre uma mecha de cabelo crespo avermelhado com raízes cor de chá e fungou.
— Doutor! — Um figura familiar, semelhante a uma cegonha, estava em pé, curvada na porta de entrada da loja.
— Mark, fico muito feliz em vê-lo — Tachyon disse, emocionado. Beijou Sprout na testa, sacudiu o cabelo trançado dela e deixou-a sobre o linóleo escuro. — Vá brincar, criança querida. Preciso falar com seu pai.