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Ela correu para longe.

— Tem um minuto, Mark?

— Ah, claro, cara. Para você, sempre.

Algumas crianças com casacos de couro e cabelos de dente-de-leão eriçados espiavam entre a parafernália e os pôsteres vintage do outro lado, mas Mark não era do tipo desconfiado. Apontou uma mesa na parede dos fundos para Tach, pegou um jarro de chá e um par de canecas, e seguiu, com movimentos ligeiros, balançando a cabeça lentamente enquanto caminhava. Estava com uma camisa de um rosa antigo da Brooks Brothers, um colete de couro com franjas, calças boca de sino imensas e desbotadas, quase no tom das queimas de fogos esbranquiçadas, com tingimento tie-dye nelas. O cabelo loiro até os ombros estava preso nas têmporas por uma faixa entrelaçada. Se Tachyon não o tivesse visto no pleno esplendor de sua identidade secreta, pensaria que o homem não tinha nenhum senso estético para se vestir.

— Então, o que posso fazer por você, cara? — Mark perguntou, radiante por trás das lentes grossas dos óculos arredondados.

Tach pousou os ombros na toalha de mesa — também com tie-dye — e torceu os lábios enquanto Mark servia.

— Um curinga chamado Doughboy foi preso por assassinato. Uma jovem repórter veio até mim garantindo que ele é inocente. — Ele deu um suspiro. — Também acredito nisso. É uma pessoa muito gentil, mesmo assim ele é imenso e horrível e possui força meta-humana. Ele é… retardado.

Esperou um momento, com o coração preso na garganta, mas o que Mark disse foi:

— Então isso é uma fraude, cara. Por que os porcos dizem que foi ele? — O epíteto foi dito sem rancor.

— O homem assassinado é o Dr. Warner Fred Warren, um colunista popular de astronomia, usando o termo de forma imprecisa, de tabloides. Para dar uma ideia, ele escreveu um artigo no ano passado intitulado “O cometa Kohoutek trouxe a Aids?”.

Mark fez uma careta. Ele não era o hippie padrão, que desdenhava/desacreditava toda a ciência. Então, de novo, ele era um retardatário da fé, que entrou no Flower Power na época em que todo mundo na área da Baía de São Francisco estava se envolvendo com fervor com Stálin.

— O prognóstico mais recente do Dr. Warren é que um asteroide está prestes a atingir a Terra e terminar com toda a vida, ou ao menos com a civilização como vocês a conhecem. Isso criou um pouco de controvérsia; incrível a atenção que vocês, terráqueos, dão a esse tipo de bobagem. A teoria da polícia é que o Doughboy ouviu seus amigos falando disso, ficou aterrorizado, e numa noite, na semana passada, entrou no laboratório do doutor e espancou-o até a morte.

Mark sussurrou suavemente.

— Alguma prova?

— Três testemunhas. — Tach fez uma pausa. — Uma delas identifica positivamente Doughboy como o homem que viu deixando o prédio de Warren na noite do crime.

Mark fez um aceno com a mão.

— Sem problemas. Vamos tirar ele de lá, cara.

Tachyon abriu a boca, fechou-a. Finalmente, disse:

— Precisamos saber quais outras informações eles reuniram sobre o caso. A polícia não está se provando cooperativa. Quase me falaram para eu cuidar da minha vida!

Os olhos azuis de Mark se afastaram da linha de visão de Tach. Este bebericou do chá. Era forte e revigorante, algum tipo de hortelã.

— Sei como você pode cuidar disso. O Doughboy, tipo, tem um advogado?

— Defensoria Pública.

— Por que não entra em contato com ele, oferecendo-se para atuar como especialista médico não remunerado?

— Esplêndido. — Ele fitou o amigo com um olhar zombador, cabeça curvada como um pássaro curioso. — Como você pensou nisso?

— Sei lá, cara. Apenas me ocorreu. Então, tipo, onde eu entro nisso?

Tach olhou o tampo da mesa. No fundo, garfo, dente de alho, tofu, amassados sobre a louça e amaciados pela alface romana encharcada. Foi muito mais pelo efeito tônico que Mark coloca em suas bebidas que ele viera aqui lá do Tombs. Mas ainda assim…

Ele estava fora de sua área; não era, como garantiu para Sara, detetive. Agora, Mark Meadows, o Último Hippie, não parecia, superficialmente, um candidato muito mais promissor a investigador, mas por acaso também era o Professor Doutor Marcus Aurelius Meadows, o mais brilhante bioquímico vivo. Antes de largar tudo, foi responsável por diversos avanços e lançou as bases para muitos mais. Foi treinado para observar e para pensar. Era um gênio.

Além disso, Tach gostou do corte do casaco dele, que em si era bem adequado para um takisiano.

— Você já me ajudou, Mark. Este é seu mundo, no fim das contas. Você entende os caminhos dele melhor do que eu. — Embora eu viva nele há mais tempo, percebeu. — E há seus amigos. Você tem, hum, outros além dos dois que encontramos na nave do meu primo?

Mark fez que sim com a cabeça.

— Outros três pelo menos.

— Ótimo. Espero que se provem mais dóceis que os outros. — Ele esperava que um ou outro alter ego do Capitão tivesse capacidades que pudessem ser úteis; felizmente, não via para que o grosseiro golfinho-homem Aquarius poderia servir, mas o covarde arrogante Caminhante Cósmico era outra questão. E mesmo para salvar o pobre Doughboy da morte em vida, ele não estava pronto para aguentar o Caminhante outra vez tão cedo.

Ele arrastou a cadeira para trás e se levantou.

— Vamos brincar de detetives juntos, você e eu.

O garoto estava com calças camufladas e uma camiseta do Rambo, em pé lá na esquina da Hester com a Bowery, tentando segurar as páginas da revista contra a força do vento. Tach olhou por sobre os ombros dele. O artigo era impactante: “Dr. Morte: Soldado Ciborgue Autoconstruído e Afortunado Combate Comunistas em Salvo.”

O garoto olhou para cima quando os dois homens ficaram ao lado dele na banca de jornal, a truculência pressionando as magras feições porto-riquenhas. Sua expressão de espanto escorreu como cera.

Estava olhando no botão central de um casaco amarelo com estampa paisley. Na direção de sua testa, uma gravata-borboleta verde imensa com bolinhas amarelas florescia de uma gola de camisa rosa. Dos dois lados, pendia um fraque púrpura. Uma cartola púrpura com fita verde, encravada com símbolos dourados de paz, ameaçava a melancolia leitosa.

Os dedos enluvados de amarelo fizeram um sinal de V.

— Paz — disse o rosto norte-americano narigudo que pairava lá entre todas aquelas cores.

O rapaz jogou a revista para o proprietário e fugiu.

Capitão Viajante ficou em pé, piscando, atrás dele, magoado.

— O que eu falei, cara?

— Deixa pra lá — gargalhou o ser atrás da banca. — Ele não compraria de qualquer jeito. O que posso fazer pelo senhor, doutor? E seu amigo colorido aí?

— Hum — disse Mark, fungando, narinas bem abertas —, pipoca fresca.

— Sou eu — disse Jube. — É meu cheiro.

Tachyon fez uma careta.

— Batuta!

Por um momento, os olhos de bola de gude encararam, a pele azul-escuro dobrou-se na testa de Jubaclass="underline" surpresa orogênica. Então, ele riu.

— Entendi! Você é hippie.

O Capitão sorriu.

— É isso aí, cara.

O gordo sacudiu-se.

Goo-goo-goo-Jube — uivou. — Sou o Morsa. Prazer em conhecê-lo.

Ele parecia uma morsa, um metro e meio, pelancas de gordura, um crânio grande e liso com tufos de cabelos saindo daqui e dali como pincéis de barbear velhos, fluindo para dentro do colarinho da camisa havaiana verde, preta e amarela sem a intermediação de um pescoço. Tinha pequenas presas brancas em cada lado do sorriso. Ele esticou a mão de um personagem da Warner Brothers, três dedos e um polegar, que o Capitão apertou com entusiasmo.

— Este é o Capitão Viajante. Um ás, meu mais recente aliado. Capitão, conheça Jubal Benson. Jube, precisamos de algumas informações.