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— Manda bala. — Ele fez um gesto de pistola com a mão direita, rolando os olhos para o Viajante.

— O que você sabe sobre o curinga chamado Doughboy?

Jube fez uma careta tectônica.

— É uma acusação injusta. O garoto não mata nem mosca. Ele vive no mesmo prédio que eu. Eu o vejo quase todo dia… costumava ver, antes de ele entrar em cana.

— Tipo, ele não ouviu as pessoas falando sobre um asteroide batendo na Terra e ficou perturbado com isso, não é? — Viajante perguntou. Um pedaço errante de papel-jornal havia se enroscado nas panturrilhas por um vento que não percebera ainda que já era primavera. Ele ignorou o papel e o frio também.

— Se tivesse ouvido algo assim, se esconderia embaixo do berço e você não conseguiria tirá-lo de lá até convencer que era uma piada. É isso que eles estão alegando?

Viajante concordou com a cabeça.

— Vocês precisam falar com o Engraxado. Ele aluga o apartamento, alimenta o Doughboy e o deixa ficar lá. Ele tem uma banca de engraxates na Bowery quase com a Delancey, onde o Bairro dos Curingas fica mais turístico.

— Ele estará lá agora? — Tach perguntou.

Jube consultou o relógio de Mickey Mouse cuja pulseira quase desaparecia no pulso borrachento.

— A hora do almoço acabou, o que significa que está parando agora para almoçar. Deve estar em casa. Apartamento 6.

Tachyon agradeceu. Viajante, solene, inclinou o chapéu. Eles se viraram para ir embora.

— Doutor.

— Sim, Jubal.

— Melhor resolver isso logo. As coisas podem ficar muito pesadas por aqui neste verão se Doughboy ficar atrás das grades injustamente. Dizem que Gimli está de volta às ruas.

Uma sobrancelha se ergueu.

— Tom Miller? Mas eu pensei que ele estivesse na Rússia.

O Morsa pousou um dedo ao lado do nariz grande e chato.

— É o que eu digo, doutor. É o que eu digo.

— Eu o encontrei, hum, 15, 16 anos atrás. — O homem com o nome de Engraxado estava sentado em seu catre no quarto único do apartamento na Eldridge Street, balançando para a frente e para trás com as mãos entre os joelhos magros. — Nos anos 1970. Era inverno. Estava sentado lá, perto de uma caçamba de lixo num beco atrás da loja de máscaras, chorando a plenos pulmões. A mamãe simplesmente o levou até lá e o deixou.

— Isso é terrível, cara — disse Viajante. Ele e Tach estavam em pé no chão de madeira maciça meticulosamente varrido do apartamento. O catre do Engraxado e um grande colchão com riscas manchadas eram os únicos móveis.

— Ah, acho que consigo entender. Ele tinha 11 ou 12, já duas vezes maior do que eu, mais forte que muito homem por aí. Deve ter sido difícil pra caramba cuidar dele.

Era pequeno para um terráqueo, menor do que Tach. À distância, parecia um homem normal nos seus 50 anos, com cabelos grisalhos e incisivo direito de ouro. Até chegar mais perto e perceber que ele brilhava como um lustre não natural, mais como obsidiana do que como pele.

— Eu faço minha própria propaganda, sabe? — ele explicou para Viajante quando Tachyon o apresentou. — Atraio negócios para minha “barraca do lustre”.

— Quanto o Doughboy consegue andar bem pela cidade sem ajuda? — Tachyon perguntou.

— Não consegue. Ele se vira no Bairro dos Curingas muito bem, sempre com curingas cuidando dele, sabe, vendo se não vai se perder. — Por um momento, ele ficou sentado e fitou uma nesga de luz do sol ao lado da qual estava uma Ferrari pequenina de metal. — Dizem que ele matou o tal cientista lá no parque. Ele só foi ao parque duas vezes. Ele não sabe nada sobre astronomia.

Ele fechou os olhos, apertando-os. Lágrimas rolaram.

— Olha, doutor, o senhor precisa fazer algo. É meu garoto, é como se fosse meu filho, e ele está ferido. E não há nada que eu possa fazer.

Tach passava o peso do corpo de um pé para o outro. O Capitão pegou uma margarida, a pior para se usar, de sua lapela, agachou-se e deu ao Engraxado.

Aos soluços, o negro abriu os olhos. Eles se apertaram uma vez, desconfiados, confusos. Viajante apenas agachou-se com a flor estendida. Após um momento, o Engraxado a pegou.

Viajante apertou a mão dele. Ele verteu uma lágrima. Tachyon e o Capitão saíram em silêncio.

— O Dr. Warren não era apenas um cientista — Martha Quinlan disse quando ela os guiou de volta pelo apartamento. — Era um santo. A busca em obter a verdade perante as pessoas era infinita para ele. É um mártir para a busca humana pelo conhecimento.

— Ah, uau — disse Capitão Viajante.

Até onde Tachyon conseguiu saber, o falecido Warner Fred Warren não tinha parentes. Uma batalha jurídica se formava pela posse do fundo fiduciário que possibilitava a ele manter uma cobertura no Central Park e devotar a vida à ciência — seu avô fora um milionário do petróleo de Oklahoma que atribuía seu sucesso à radiestesia e morreu afirmando que era a Rainha Vitória —, mas em suas funções de editora-chefe da National Informer, a Srta. Quinlan parecia estar atuando como testamenteira do espólio de Warren.

— É muito gentil de sua parte vir prestar seus respeitos a um colega falecido, Dr. Tachyon. Teria significado tanto para o querido Fred saber que nosso distinto visitante das estrelas teve um interesse pessoal nele.

— A contribuição do Dr. Warren à causa da ciência não teve precedentes — Tachyon disse de forma sonora… desde Trofim Lysenko, emendou mentalmente. Ah, Doughboy, acredito que você nunca imaginará o que eu aguento para lhe trazer justiça. Foi uma pequena parte reflexiva da desinformação takisiana, a história que Tachyon apresentou a Quinlan quando ele pediu para olhar a cena do assassinato.

— É algo terrível — Quinlan gorjeou, levando-os pelo corredor com as paredes cheias de pinturas emolduradas de cães caçadores de revistas dos anos 1920. Ela era um pouco mais alta que Tach, trajava um vestido como um saco preto que ia do pescoço e dos ombros às coxas, meias-calças escarlate, sapatos brancos, e grossos braceletes de plástico. O cabelo loiro-grisalho tinha um estilo reto e um corte diagonal. Seus olhos estavam maquiados como os de Theda Bara; não usava batom. — Uma tragédia. Felizmente, pegaram o indivíduo que fez isso. Não é bom da cabeça, eles dizem, e ainda por cima um curinga. Provavelmente, algum pervertido sexual. Nossos repórteres estão cuidando desta história com muito cuidado, posso garantir.

Viajante fez um barulho. Quinlan parou no fim do corredor.

— Aqui está, senhores. Preservado como no dia em que ele morreu. Queremos transformar em museu quando a grandeza do pobre Fred for finalmente reconhecida pelo establishment científico que tanto o perseguia. — Ela fazia gestos grandiloquentes para eles.

A porta do laboratório do Dr. Fred era de madeira, sólida até mesmo para um apartamento pomposo de Nova York. Não parecia ter diminuído a velocidade do seu último visitante. Duendes conscientes do laboratório forense na torre de tijolos do One Police Plaza varreram a maior parte dos fragmentos, mas o resto estilhaçado da porta ainda estava pendurado nas dobradiças de latão tortas.

Tachyon ainda tinha certa dificuldade de ajustar os olhos sobre as formas utilitárias e retilíneas dos equipamentos científicos terráqueos. A ciência em Takis era a província de poucos, mesmo entre os Lordes Psíquicos; seus equipamentos cresciam de organismos geneticamente modificados, bem como suas naves, ou eram personalizados por artesãos preocupados em fazer cada peça única, significativa. Aqui ele não encontrava muitos problemas. A parafernália que ocupava as bancadas de trabalho emborrachadas foi destruída. Papéis e vidro partido estavam espalhados por todo o lugar.

— O observatório dele era, tipo, aqui? — Viajante perguntou, olhando em volta com seu casaco estupendo nas mãos.