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— Ah, não. Tinha um observatório em Long Island, onde ele fazia a maior parte das investigações. Analisava os resultados aqui, eu suponho. Há uma sala escura e tudo o mais. — Ela pousou uma unha longa na linha da mandíbula. — Qual é exatamente o nome do senhor mesmo? Capitão…?

— Viajante.

— Como naquele livro do Stephen King? Qual era mesmo? Dança da morte?

— Hum, não. É, tipo, o que usavam para chamar o Jerry Garcia. — Quando ela não mostrou nenhum sinal de reconhecimento, ele continuou. — Ele era o líder dos Grateful Dead. Ele, hum, ainda é. Ele não tirou um ás, você sabe, como Jagger ou Tom Douglas e… — Ele observou que os olhos dela tinham ficado vítreos e concentrados no esquecimento, esvanecendo suas palavras, e perdendo-se no perímetro da sala arruinada, grande e entulhada de coisas.

— Diga, doutor, o que são esses respingos escuros em todas as paredes?

Tach olhou para cima.

— Ah, aqueles? Sangue seco, é claro.

Viajante empalideceu e seus olhos se arregalaram um pouco. Tachyon percebeu que ainda ignorava as sensibilidades terráqueas. Para um povo tão robusto, os terrestres tinham estômagos muito delicados.

Mesmo assim, até mesmo ele ficou surpreso com a selvageria praticada no laboratório da cobertura. Havia uma qualidade maquinal nela, uma emanação psíquica palpável de fúria e maldade. Dado à imaginação limitada da maioria dos policiais que encontrou, Tachyon não estava mais surpreso de terem considerado Doughboy um suspeito plausível; pensaram nele como um maluco demente, uma caricatura de um filme de horror, e que certamente descrevia o agressor do Dr. Warner Fred Warren. Assim, Tach estava mais convencido de que aquela criança gentil fosse incapaz de tal ato, mesmo que provocado.

A editora da Informer desapareceu, sem dúvida tomada pela emoção.

— Ei, doutor, olhe isso aqui — Viajante chamou. Ele estava curvado sobre uma mesa de desenho com fotografias salpicadas de estrelas que espreitavam ali intencionalmente.

Tach curvou-se ao lado dele. Havia uma mancha fina de cinza, enrugada, como um pequeno lenço de papel que tivesse sido umedecido, esticado sobre a superfície plástica e deixado para secar. Havia uma curiosa característica membranosa que desafiava o conhecimento.

— Que coisa é essa? — perguntou Viajante.

— Não sei. — Seus olhos deslizaram com interesse sobre as fotografias. Uma data marcada a lápis à margem de uma delas chamou sua atenção: 5.4.1986, o dia no qual Warren fora assassinado.

De um bolso, o Capitão Viajante apresentou um pequeno frasco e um bisturi num estojo de plástico descartável.

— Você carrega sempre esses utensílios? — Tach perguntou enquanto começou a raspar alguns poucos flocos daquele material cinzento.

— Pensei que eles pudessem ser úteis, cara. Se eu fosse um detetive e tudo o mais.

Dando de ombros, Tach voltou a atenção para a fotografia com que se intrigara. Estava no topo de uma pequena pilha. Ao pegá-la, descobriu uma dúzia ou mais de fotos que, para seus olhos não treinados, pareciam mostrar o mesmo campo estelar.

— Tudo bem, doutor, Capitão — uma voz estranha retumbou detrás deles. — Deem um grande sorriso para a posteridade.

Com uma destreza que surpreendeu até ele mesmo, Tach enrolou as fotos e as deslizou para dentro de uma manga do volumoso casaco enquanto se virava para encarar o intruso. Martha Quinlan estava dentro da sala sorrindo, enquanto um jovem negro ficava sobre um joelho e estourava um flash de câmera sobre eles que poderia ter carregado um raio laser até Marte.

Com certa relutância, Tach tirou os dedos do cabo de madeira exagerado da Magnum .357 bem escondida no coldre de ombro atrás de seu casaco amarelo.

— Acredito que a senhora tenha uma explicação para isso — disse ele com a fina frieza takisiana.

— Ah, este é Rick — Quinlan cacarejou. — É um dos nossos fotógrafos da equipe. Simplesmente tinha que trazê-lo aqui para registrar este evento.

— Senhora, temo que não faço isso para notoriedade — Tach disse, alarmado.

Erguendo-se, Rick acenou para dar segurança.

— Não esquenta, cara — disse ele. — É apenas para nossos arquivos. Confie em mim.

— Tezcatlipoca — disse Dr. Allan Berg, lançando a impressão de volta para o topo do amontoado de livros, papéis e fotos sob o qual sua mesa supostamente se ocultava.

— É o quê? — Viajante quis saber.

— 1954C-1100. É uma pedra, senhores. Nada mais, nada menos.

O pequeno escritório tinha um cheiro forte de suor e tabaco. O Viajante fitava pela janela a tarde no campus de Columbia, observando um esquilo cinzento na metade do caminho de subida de um bordo que implicava com um garoto negro que passava com um estojo de trompa.

— Um nome curioso — disse Tachyon.

— É uma divindade asteca. Uma muito mal-humorada, pelo que entendo, mas é assim que funciona: você encontra um asteroide, dá nome pra ele. — Berg sorriu. — Pensei em caçar um para dar meu nome. Olha só… que tipo de imortalidade. — Ele tinha o olhar de um garoto judeu bonzinho, olhos ansiosos, rosto longo e ovalado, nariz grande, exceto pelo cabelo encaracolado e desgrenhado, que era grisalho. Vestia uma camisa azul e gravata marrom embaixo de um suéter com uma trama tão larga que era possível pescar com ele. Sua conduta era contagiante.

— É grande o suficiente para, tipo, causar algum dano se cair aqui? — o Viajante perguntou. — Ou é mais exagero?

— Não, hã, Capitão, posso garantir que não é. — Ele se atrapalhava um pouco com títulos. As normas, especialmente na região de Nova York, tinham de se ajustar muito bem ao jeito dos ases, especialmente daqueles que escolheram emular heróis dos quadrinhos do passado e vestir uniformes coloridos. E o Capitão Viajante era mais estranho que a maioria. — Tezcatlipoca é uma forma oblonga de ferro-níquel com mais ou menos um quilômetro por um quilômetro e meio, pesando mais de um milhão de toneladas métricas. Dependendo do ângulo no qual ele bater, poderia criar maremotos e terremotos devastadores, efeitos como o hipotético inverno nuclear; é plausível que possa rachar a crosta ou destruir muito da atmosfera. Quase certeza de que seria a maior catástrofe registrada da história… Poderia dar uma estimativa melhor se tirasse algum tempo para trabalhar num artigo sobre isso.

— Mas não vou. Por que ele não vai atingir o planeta. — Ele tomou café de uma caneca rachada. — Pobre Fred.

— Admito que fiquei surpreso com a simpatia usada para falar dele quando liguei para o senhor, Dr. Berg — disse Tachyon.

Berg baixou a caneca, olhando para a superfície preta e morna.

— Fred e eu frequentamos o MIT juntos, doutor. Fomos colegas de quarto por um ano.

— Mas eu pensei que todo mundo dizia que o Dr. Warren era algum tipo de maluco — comentou o Viajante.

— É o que eles dizem. E ele era um excêntrico, por mais que eu odeie falar isso. Mas não era um excêntrico qualquer.

— Não consigo imaginar como um cientista treinado conseguia defender as teorias pelas quais o Dr. Warren ficou assim, hum…

— Famoso, doutor. Vá em frente e diga. Tem certeza de que não aceitam um café?

Eles recusaram com educação. Berg suspirou.

— Fred tinha o que se poderia chamar de vontade de aço. E tinha um traço romântico. Sempre sentiu que deviam haver coisas fantásticas lá fora… astronautas antigos, máquinas alienígenas na Lua, criaturas desconhecidas para a ciência. Queria ser o primeiro a sair e provar rigorosamente tantas coisas respeitáveis das quais os cientistas riam. — Sua boca abriu-se num sorriso triste. — E quem sabe? Quando Fred e eu éramos garotos, as pessoas pensavam que a ideia de vida inteligente em outros planetas era forçada. Talvez ele pudesse ter conseguido. Mas Fred era impaciente. Quando não via os resultados que queria, o motivo, ele começava a vê-los de qualquer jeito, se é que os senhores me entendem.